Os problemas de seguir o mantra “ganhe a vida com o que você gosta”
A ideia de que só é feliz quem trabalha com que ama pode ter seus efeitos colaterais
(Pedro Burgos)
Você possivelmente já viu o célebre discurso de Steve Jobs aos formandos de Stanford em 2005. “Você precisa descobrir o que ama. A única maneira de estar realmente satisfeito é se dedicar ao que você acredita ser um grande trabalho. E a única forma de fazer um ótimo trabalho é amar o que você faz.” Livros de auto-ajuda, reportagens daquele cara “que largou tudo pra fazer __ ” e vídeos inspiradores martelam na nossa cabeça a noção de que, se não estamos fazendo o que amamos, há algo errado.
Em um excelente artigo para a revista Jacobin, a historiadora da arte Miya Tokumitsu apresenta uma teoria interessante: a de que esse papo aspiracional não é bom para a nossa sociedade. Em primeiro lugar porque, é óbvio, nem todo mundo pode se dar ao luxo de fazer o que quer, de perseguir o sonho, de “largar tudo”. Esse papo é interessante para quem já tem algo – seja ela uma família com suporte financeiro (Plano B: voltar para a casa dos pais), diplomas ou contatos. O mantra do “Faça o que você ama” (DWYL, no acrônimo em inglês) se dirige a uma certa elite econômica, que passa por Steve Jobs, os alunos de Stanford e alguns publicitários/designers/jornalistas trendsetters assistindo o vídeo sobre a Geração Y, que acham ali uma justificativa para não aceitar ordens ou se acostumar a uma rotina.
A outra questão é que esse mantra é problemático para a nossa vida em sociedade. O discurso de Jobs, Miya aponta, fala “você” e “seu”, o tempo todo. Como personalista que era, o fundador da Apple fazia parecer que a empresa era fruto de sua paixão, mas, ao fazer isso, “ele ocultou o trabalho de milhares de trabalhadores que permitiram a Jobs realizar o seu amor”.
Não há nada de errado, de novo, em seu trabalho ser uma fonte de prazer. Mas ao delimitarmos que ele necessariamente deve ser uma fonte de prazer para uma vida plena, 1) deixamos as pessoas que só trabalham para garantir a sua vida menos realizadas e 2) abrimos espaço para a exploração dos que “trabalham por amor”. De certa forma, relegamos as pessoas que trabalham por trabalhar, mesmo sem nos dar conta disso, a uma categoria inferior. E isso tem consequências sérias.
Se todos forem “em busca dos seus sonhos”, quem vai manter o país funcionando? Não podemos reconhecer mais o trabalho dessas pessoas que se realizam de outra forma? E celebrá-los, inclusive?
O segundo problema nos leva de novo à praga do “trabalhar por networking”, que discutimos bastante aqui. Trabalhar de graça, por contatos ou por pouco só é possível justamente porque ouvimos dizer que quando fazemos o que gostamos, “não é trabalho” – independentemente se outras pessoas lucrem com isso.
|
|
http://soundcloud.com/input_output |
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário