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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Carrocentrismo: ZH e a grande mídia na vanguarda da inversão de valores.
Eu fico estarrecido só de imaginar que a maioria dos leitores do jornal Zero Hora provavelmente não acharam nada de errado com o subtítulo da manchete acima:
“Falta de acostamento, postes juntos às vias e pedestres na pista são armadilhas para motoristas em estradas e avenidas.”
Mas pra mim o absurdo salta aos olhos: postes e pedestres são armadilhas para motoristas? Por acaso eles ficam camuflados no meio das vias  e saltam em frente aos carros quando eles chegam perto? Por acaso os postes ficam no meio da via? Eu sempre achei que eles ficassem em cima das calçadas, por onde os automóveis não podem circular.

Perigo: poste ataca carro em Campinas.
Os postes são objetos estacionários, não se movem e não ficam sobre as avenidas e estradas, como eles podem ser armadilhas para os motoristas? Os pedestres são pessoas que têm tanto direito a utilizar a cidade quanto o motorista, até mais, visto que perante o CTB eles têm preferência sobre os automóveis e o veículo maior deve sempre zelar pelo menor.
Então quem aqui é a armadilha? Será que não são os automóveis, que se deslocam muitas vezes (eu diria quase sempre) acima das velocidades máximas permitidas e sem observar normas de segurança básicas como manter a distância regulamentar de outros veículos e reduzir a velocidade de forma compatível com a segurança, que representam o verdadeiro risco à vida não só dos próprios motoristas, mas como de pedestres, motociclistas, ciclistas e até mesmo animais domésticos e silvestres?
Afinal pedestres por si só não são elementos perigosos e, salvo suicidas, costumam evitar ao máximo a travessia em locais perigosos, pois é a sua vida que está em jogo. Postes e pessoas a pé só se tornam perigosos para um motorista se ele estiver conduzindo seu veículo de forma irresponsável e perigosa. Anualmente morrem cerca de 40 mil pessoas por ano, só no Brasil, vítimas do trânsito de automóveis. Responsabilizar pedestres e postes de luz(!) por acidentes de trânsito num país  onde mais de 90% dos motoristas não respeitam e muitas vezes desconhecem a legislação de trânsito é tão absurdo que, se não fosse tão grave (e triste), seria engraçado.
Será que os postes e pedestres realmente apresentam risco aos motoristas? Ou é a alta velocidade e a irresponsabilidade que é um risco tanto para motoristas quanto pedestres (e postes)?
O Brasil ainda mima, trata os seus motoristas como crianças birrentas que não podem ser contrariadas que, nas poucas vezes em que são punidas, choram e esperneiam, buscam sempre recurso contra uma multa por uma infração que eles sabem que cometeram, mas recusam a admitir até mesmo para si mesmos. “Eles fazem isso só pra arrecadar”, “é a indústria da multa”, “eu estava só alguns km/h acima do limite”, todas as justificativas e explicações dadas pelo motorista acuado não mudam a verdade: se ele não tivesse cometido uma infração, não seria multado, se o brasileiro respeitasse as leis de trânsito não haveria indústria de multas,
Infelizmente, a EPTC em Porto Alegre e outros órgãos em outras cidades não precisam inventar infrações, nem forçar multas para criar uma indústria e sair multando a rodo. Basta ficar parado por alguns segundos em um cruzamento de qualquer cidade grande no Brasil que você vai testemunhar um festival de infrações: pedestre sendo desrespeitado na faixa de segurança, carros estacionados em frente à rampas de acesso de cadeirantes, excesso de velocidade, motoristas convertendo sem dar sinal de luz, carros furando o sinal vermelho, estacionando em fila dupla, tirando fino de ciclista, você escolhe. Pegue aleatoriamente um artigo do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e dê uma volta pela cidade que você provavelmente encontrará vários condutores cometendo essa infração.
Mas muito pelo contrário, os órgãos de fiscalização de trânsito no Brasil não são nada rígidos e a indústria da multa no Brasil, se existe, ainda tem muito a crescer, pois apenas uma pequena percentagem das infrações são penalizadas.  E pior, os órgãos federais estão institucionalizando toda essa leniência com quem atrapalha e põe a vida dos outros em risco: a partir deste mês está valendo uma resolução que transforma as multas por infrações leves e médias (como conduzir a até 20% acima do limite de velocidade) em meras advertências, dando desta forma carta branca ao motorista que nunca foi advertido para cometer as infrações que quiser.

Fones de ouvido apresentam risco à vida do pedestre, segundo EPTC.
Por outro lado, o pedestre, que já tem sua liberdade de ir e vir reduzida, acuado por pessoas conduzindo veículos perigosamente de um lado, se vê cercado do outro lado pela imprensa e pelas próprias autoridades de trânsito que tentam impingir-lhe também a responsabilidade de não ser atropelado por motoristas irresponsáveis alertando-o para qual seria o “comportamento seguro” para andar nas ruas. Recentemente a EPTC deu em seu site e no seu perfil no Facebook a “dica” aos pedestres: não usem fones de ouvido, senão vocês podem não ouvir o ronco do motor do carro que vem para te atropelar. De acordo com constatação da EPTC, a utilização de fones abafa o som dos veículos, tornando os pedestres mais expostos a atropelamentos.
Pode ser que eu esteja exagerando, mas aos meus ouvidos essa recomendação da EPTC, órgão que deveria ser responsável por garantir a segurança dos pedestres, seria equivalente a uma recomendação da Secretaria de Justiça e Segurança emitir uma recomendação às mulheres que não usem saias curtas, pois a utilização de roupas sexy as deixaria mais expostas a possíveis estupros.
Daqui a pouco EPTC e outros órgãos estarão emitindo recomendações para que as pessoas não saiam a pé de suas casas, pois os indivíduos que saem a pé estão mais sujeitos a serem atropelados. Neste quesito a ZH está na frente, já dizendo que os pedestres que circulam em avenidas são um perigo aos motoristas.
E quando retirarem todos os postes e pedestres das avenidas, qual será a próxima grande ameaça aos motoristas? As bancas de revistas? As casas e muros? As árvores? As florestas e rios? Quando é que o mundo vai estar pronto para acolher os automóveis com segurança? Quando toda a superfície da Terra estiver coberta de asfalto lisinho?

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