Follow douglasdickel on Twitter
www.flickr.com
[douglasdickel]'s items Go to [douglasdickel]'s photostream


Instagram
http://soundcloud.com/input_output
:: douglasdickel 18 anos de blog :: página inicial | leituras | jormalismo ::
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Como a ansiedade derrubou a judoca Maria Portela
(David Coimbra)


A nadadora Joanna Maranhão não teve bom sucesso em sua participação na Olimpíada de Londres. Ao contrário, chegou em último lugar na sua bateria. Mas deixou plantada no solo milenar do Velho Mundo uma frase que pode muito bem servir como baliza para interpretar os fracassos brasileiros nos jogos.

— Já passei da fase de ficar ansiosa com coisas que não posso controlar — disse a nadadora.

É precisamente isso, a ansiedade com coisas impossíveis de serem controladas, que está derrubando os brasileiros em Londres.

Hoje, mais do que derrubar, a ansiedade petrificou a judoca Maria Portela, gaúcha que treina na Sogipa. Antes de ser derrotada pela colombiana Yuri Alvear e ser desclassificada já na estreia, ela repetia para os colegas de equipe:

— Eu preciso vencer! Preciso!

Sentia-se calma, parecia determinada, mas, ao pisar no tatame, ficou paralisada.

— Não sei o que aconteceu — desabafou depois, aos prantos.

— Não consegui fazer nada do que havia planejado. Nada, nada, nada! Foi um pouco de ansiedade, sim. Foi. Desperdicei a oportunidade da minha vida numa luta. Desculpa...

O choro de Maria Portela foi comovente, sobretudo para quem conhece sua história. A mãe de Maria, Sirlei, era empregada doméstica em Santa Maria. Ao entrar num projeto assistencial da cidade, a menina conheceu o judô e se apaixonou.

— É a coisa que mais amo fazer — repetiu ontem várias vezes.

Maria viu no judô a chance de mudar de vida. Por isso, treinava com gana incomum, ao ponto de ser apelidada de "Raçudinha dos Pampas". Ao mesmo tempo, trabalhava em outras atividades a fim de completar o orçamento. Foi babá até 2010, quando passou a se concentrar com exclusividade no esporte. Tamanha dedicação fez com que evoluísse vertiginosamente. Era a 35ª do ranking em janeiro, hoje é a 6ª. Ainda este ano, bateu a mesma adversária que ontem a derrotou.

— Por isso, por tudo o que fiz, eu não podia perder. Não podia! — desabafou outra vez, outra vez abrindo o choro. — Mas eu vou continuar, eu não vou desistir. Isso não vai acontecer de novo, porque, aqui em Londres, acabei me boicotando.

Acabei me boicotando. Maria foi muito sagaz ao interpretar seu infortúnio. O mesmo diagnóstico poderia servir para os irmãos Daniele e Diego Hypolito, da ginástica. Na Olimpíada de Pequim, Diego era esperança de medalha, caiu bisonhamente e foi desclassificado. Na semana passada, Diego era esperança de medalha, caiu e foi desclassificado. Depois, balbuciou tristemente:

— Talvez eu não mereça... ["Eu falhei, eu errei e a culpa é minha. Mais uma vez, caí de nariz. A minha perna fraquejou. Não sei o motivo, pode ser que estava nervoso demais. Errei porque errei, amarelei. Só pode ser isso. Estou muito decepcionado porque muitas pessoas me incentivaram demais para que tivesse um bom resultado e não aconteceu. Mais uma vez fracassei. Dentro do que podia, tinha condições de fazer uma boa série. Não fiz, caí. E mais uma vez parece que não é real. Quando eu caí, parecia que não era de verdade."]

No dia seguinte, Daniele começou sua prova pensando no irmão. Caiu de barriga no chão. Foi desclassificada.

— Procurei me focar ao máximo, mas a queda do Diego mexeu comigo. Nós somos muito ligados. O sofrimento de um é o sofrimento de outro — contou.

Assim, os brasileiros vão sofrendo na Olimpíada. Medalhas certas, ou quase, transformam-se em fracassos surpreendentes. E os brasileiros rumam cabisbaixos para a Vila Olímpica, e arrumam as malas, e voltam para casa, sempre com a mesma impressão: que, na hora da decisão, ficaram ansiosos com coisas que não podiam controlar.


Nenhum comentário: