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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Sobre o castelo do Kafka.




(Ronaldo Correia de Brito)

"Era tarde da noite quando K. chegou. A aldeia jazia na neve profunda. Da encosta não se via nada, névoa e escuridão a cercavam, nem mesmo o clarão mais fraco indicava o grande castelo. K. permaneceu longo tempo sobre a ponte de madeira que levava da estrada à aldeia e ergueu o olhar para o aparente vazio".

Dessa forma supostamente simples, parecendo uma narrativa convencional, começa O Castelo, romance escrito por Kafka em cerca de seis meses, de fins de fevereiro a começo de setembro de 1922. Narrado em primeira pessoa nas quarenta e seis páginas iniciais, só a partir desse ponto passa para a terceira pessoa. Mais tarde o autor reescreverá o começo do livro também na terceira pessoa. Esse impasse tem que ver com o que anotou Modesto Carone: aquele que narra, em Kafka, não sabe nada, ou quase nada, sobre o que de fato acontece - do mesmo modo, portanto, que o personagem. O narrador, como o personagem K., não tem chances de explicar o que se passa no mundo claro que a neve recobre do lado de fora nem nos interiores escuros em que as formas se ocultam.

O prefeito fala da complexa trama de encaminhamentos de processos entre os departamentos do castelo, mesmo para uma questão simples, gerando erros nos envios de petições, atrasos, arquivamentos, até a solução absurda de contratar serviços sem a menor necessidade deles, apenas para ajustar os vários equívocos burocráticos do processo. O diálogo entre K. e o prefeito é uma síntese do universo kafkiano, reforça o ponto de vista de Günther Anders de que Kafka era um realista que enxergava "um mundo do poder total e totalitariamente institucionalizado". Ou seja, como um profeta visionário Kafka anteviu a automação humana e transformação do homem num joguete burocrático de sistemas como o fascismo, o comunismo e o capitalismo.

Tais circunstâncias se repetem de forma obsessiva e absurda em todo o relato de O Castelo, da primeira à última página. Nada acontece segundo uma lógica habitual. No entanto, a lógica que se revela e que nos escapava até então, apesar de todos os seus absurdos, parece única, verdadeira e real. Como se Kafka descascasse as mentiras que nos cercam, deixando exposta uma realidade sem nenhum encantamento, nenhuma chance de romantismo ou afeto. As metáforas são abolidas, as descrições poéticas de cenários e objetos não existem, sentimentos de compaixão desaparecem. Tudo funciona nesse mundo de O Castelo dentro de uma ordem de poder esmagadora, uma burocracia paralisante que torna a ação individual impossível, não por conta de uma força trágica e divina, mas pela perversidade de sistemas inventados pelo próprio homem e que o impedem de algum dia alcançar a verdade.





(Eduardo Andrade)

“K” encontrou-se com o prefeito, que habilmente desmereceu o serviço para o qual havia sido contratado, enfraquecendo propositadamente a sua posição. Nesta conversa o prefeito convenceu “K” a aceitar a tarefa de servente em uma escola da comunidade em substituição a para a qual ele havia sido contratado. Deixou transparecer que apesar de não haver necessidade do novo serviço estava autorizando por exercício de autoridade, inclusive, a sua permanência nas dependências da escola juntamente com Frieda, e os seus dois ajudantes.
A proposta aceita por “K” por falta de alternativa, sinalizou que Klamm não tinha o poder que diziam possuir. Há de se entender que o prefeito usou “K” para enviar a Klamm uma mensagem subjetiva sobre as forças contrárias existentes nas relações políticas administrativas.

Na busca incansável de explicação para o que estava acontecendo “K” se depara com Olga, irmã de Barrabás o mensageiro de Klamm, que depois de longa conversa põe em dúvida o poder de Klamm e de outros funcionários do castelo, referindo-se inclusive às mensagens ditas como enviadas por Klamm como possíveis de não serem oficiais.

Por fim, Pepi que substituiu Frieda nos serviços do balcão da Hospedaria dos Senhores após o rompimento do relacionamento com Klamm, ao sentir a possibilidade do retorno dela (Frieda) ao seu posto, tentou incutir na mente deste que a facilidade que ele teve para conquistá-la ocorreu devido o interesse de Frieda de usá-lo para chamar a atenção do ex-amante Klamm.

Pelo visto, Franz Kafka acreditava que o poder é capaz de desenvolver tentáculos eficazes de sustentar estruturas administrativas hierárquicas incoerentes, que funcionam para satisfazerem interesses esdrúxulos, cujo uso envolve o relacionamento humano, e este pode se tornar fator importante no divisor de águas.

O poder atrai todos os tipos de energia, e, o bom exercício passa por permear o linear da ética, os interesses públicos e sociais.

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