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sábado, 27 de novembro de 2010

Lembrando o insuperável disco 'A coerência é uma armadilha', dos Frank Poole.

"Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta? (...) Alguém dirá: espere aí, então a fidelidade a princípios e valores não é uma condição da moralidade? Estou lendo (vorazmente) 'O Ponto de Vista do Outro', de Jurandir Freire Costa. O livro é, no mínimo, uma demonstração de que a forma moderna da moral não é o princípio, mas o dilema. E, no dilema, o que importa não é a fidelidade intransigente a valores estabelecidos; no dilema, o que importa é, ao contrário, nossa capacidade de transigir com as situações concretas e com os outros concretos. A coerência é uma virtude só para quem se orienta por princípios. Para o indivíduo moral, que se orienta (e desorienta) por dilemas, a coerência não é uma virtude, ao contrário, é uma fuga (um tanto covarde) da complexidade concreta. Oscar Wilde, que é um grande fustigador de nossas falsas certezas morais, disse que a coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, eu acrescentaria, de quem tem pouca coragem." (Contardo Calligaris)

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