Eu me inscrevo, me descrevo: escrevendo em mim
Sobre tatuagens e outras marcas corporais
(Mário Corso e Diana Corso)
Três tendências nos aproximam da compreensão do crescimento da importância das marcas corporais: consideramos a tatuagem como uma forma de inscrição na pele de conteúdos que resistem a penetrar no interior do sujeito; acreditamos também que a pele demarcada pelo seu dono constitui uma forma de fazer resistência ao olhar invasivo dos outros, da sociedade, que hoje nos impõe transitar com os corpos perfeitos e seminus; além disso, as dificuldades de crescimento dos jovens, amarrados por décadas à casa paterna, criam a necessidade de colocar no próprio corpo algum limite a esse amor que não se descola deles. (...)
A dificuldade de assimilar algo, que chega a beirar o impossível em alguns casos, é ajudada por uma marca corporal. O medo de esquecer faz com que se use um signo indelével, e fica-se sem chance de perder essa memória. Se algo não consegue entrar, se não temos um lugar para tal fato, é melhor que fique na borda do que em lugar nenhum. O que é comum entre esses casos é que se trata duma significação difícil, e a marca corporal é tanto uma tentativa de simbolização como uma resistência a isso. Ficando no limite da pele, as tatuagens corporais penetram, alteram a superfície, mas pouco se aprofundam. Embora passem a fazer parte da imagem, portanto do sujeito, os conteúdos representados pelas marcas corporais, quer sejam lembranças, sentimentos, inseguranças ou questões pendentes, não habitam o interior do seu portador, como um pensamento o faria, ocupando sua mente. Eles estão sempre lá, mas não passam da porta, sendo assim resistentes à significação, tanto quanto insistentes em sua presença. (...)
Estes casos nos sugerem que uma tatuagem não é exatamente uma decisão consciente, ela é como um sonho, uma produção sintomática a respeito da qual não temos uma compreensão total sobre o significado do que estamos fazendo ou pensando. Porém, diferente dos sonhos, as marcas corporais passam a fazer parte da pele, da imagem, da aparência que nunca se despe. (...)
Chama a atenção o fato que muitos pais têm tatuado o nome dos seus filhos, como forma de consolidar esse vínculo. Antigamente era a palavra “mãe” que víamos tatuada nos braços dos marinheiros, daqueles que não tinham paradeiro, órfãos de pátria ou casa. Essa inversão, na qual não são mais os filhos desgarrados que se tatuam, mas sim os pais amorosos, leva-nos a questionar em que tipo de exílio sentem-se os pais hoje, para precisar carregar seus filhos na pele, evitando perder-se deles.
Nunca foi tão difícil de crescer. Os jovens têm grande dificuldade de escolher um caminho, sentem que se desejarem alguma coisa específica, estarão perdendo inúmeras outras oportunidades de prazer e realização, e suas vidas acabam tornando-se eternas promessas que nunca se cumprem. Os pais também têm dificuldade de crescer, pois temem a velhice, o desafio de re-programar a vida, quando restam-lhes menos opções, pois já fizeram algumas escolhas (e nem todas são reversíveis). Nesse sentido, a infantilização dos filhos serve aos pais para tentar parar a corrida do tempo. Ficam então, marmanjos criados, vivendo com a família, mas alguma coisa neles tenta rebelar-se contra essa impossibilidade de tomar sua vida nas mãos e partir. (...)
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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
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