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terça-feira, 10 de janeiro de 2012



Conto do novo livro da Miranda July, publicado no New Yorker e traduzido por mim.

Eu dormi na casa do meu namorado cada noite dos primeiros dois anos em que nós estivemos juntos, mas eu não movi uma singular peça do meu roupeiro, uma singular meia ou par de roupa de baixo, até o apartamento dele. O que significa que eu podia usar a mesma roupa por vários dias, até que eu encontrasse um momento para voltar à minha pequena caverna esquálida, a umas poucas quadras de distância. Depois que eu colocava roupas limpas, eu caminhava em transe, fascinada por essa cápsula do tempo da minha vida antes dele. Tudo estava exatamente como eu havia deixado. Na gaveta do banheiro ainda estavam as camisinhas extra-extra-grandes do meu namorado anterior, com quem sexo era doloroso. Eu tinha jogado fora alguns alimentos, mas os não-perecíveis, o feijão e a canela e o arroz, tudo esperava o dia em que lembraria quem eu realmente era, uma mulher sozinha, e chegaria em casa e deixaria uns feijões de molho. Quando eu finalmente coloquei minhas roupas em sacolas de plástico preto e as conduzi até a casa dele, foi com uma espécie de espírito zombeteiro — da mesma forma em que eu cortei todo o meu cabelo na escola, ou que eu larguei o colégio. Foi impetuoso, certamente acabaria em desastre, mas foda-se.

Eu moro na casa do meu namorado há quatro anos (sem incluir os dois anos em que eu morei lá sem as minhas roupas), e estamos casados, então eu penso nela como minha casa. Quase. Eu ainda pago aluguel da caverninha e quase tudo o que eu tenho ainda está lá, exatamente como estava. Eu só joguei fora as camisinhas extra-extra-grandes no mês passado, depois de tentar bravamente pensar num cenário em que eu poderia doá-las com segurança para um mendigo de pênis grande. Eu mantive a casa porque o aluguel é barato e porque eu escrevo lá; tornou-se meu escritório. E o feijão, a canela e o arroz permanecem lá por mim, caso alguma coisa dê horrivelmente errado, ou se eu voltar ao meu juízo e reivindicar minha posição de pessoa mais sozinha que já exisitiu.

Essa história aconteceu em 2009, logo depois do nosso casamento. Eu estava escrevendo um roteiro na minha pequena casinha. Eu o escrevi na mesa da cozinha, ou na minha velha cama com seus lençóis de liquidação. Ou, como qualquer um que tentou escrever alguma coisa recentemente sabe, esses são lugares que eu escolho para escrever, mas, ao invés disso, fico navegando on-line. Um pouco disso pode ser justificado porque uma das personagens do meu roteiro também estava tentando escrever algo, uma dança, mas em vez de dançar ela procurava danças no YouTube. Então, de certa maneira, essa procrastinação era pesquisa. Como se eu já não soubesse como isso parece: como se eu me visse afundando no mar, cativada demais pelas ondas para pedir ajuda. Eu tinha inveja dos escritores mais velhos, quanto à disciplina, antes de a web surgir. Eu consegui escrever só um roteiro e um livro antes que isso acontecesse.

O engraçado na minha procrastinação era que o roteiro estava quase pronto. Eu era como uma pessoa que tinha lutado com dragões e perdido membros do corpo e rastejado em pântanos e agora, finalmente, o castelo estava visível. Eu podia ver criancinhas sacudindo bandeirinhas na sacada; tudo o que eu tinha que fazer era atravessar um campo para chegar até elas. Mas repentinamente eu ficava muito, muito sonolenta. E as crianças não conseguiam acreditar em seus olhos quando eu dobrei meus joelhos e caí de cara no chão, com meus olhos abertos. Em câmera lenta, eu enxergava formigas entrando e saindo com pressa de um buraco e eu sabia que me levantar de novo seria cem vezes mais difícil que o dragão e o pântano e então eu nem tentei. Eu simplesmente clicava numa coisa após a outra após a outra.

O filme era sobre um casal, Sophie e Jason, que estavam planejando adotar um gato tigrado, doente e muito velho, chamado Paw Paw. Assim como um bebê recém nascido, o gato iria precisar de atenção 24 horas, e ainda por cima para o resto de sua vida, e ele poderia morrer em seis meses ou cinco anos. Apesar da boa intenção, Sophie e Jason ficaram aterrorizados pela sua gradual perda de liberdade. Então, faltando um mês para a adoção, livraram-se das distrações da vida — largaram os empregos e se desconectaram da internet — para focarem-se em seus sonhos. Sophie queria inventar uma coreografia, e Jason tornou-se voluntário de um grupo ecológico, vendendo árvores porta-a-porta. Assim que o mês começou a se esvair, Sophie foi ficando paralisada, de forma crescente e humilhante. Num momento de desespero, ela teve um caso com um estranho — Marshall, um quadradão cinquentão que mora no vale de San Fernando. No mundo suburbano dele, ela não precisava ser ela mesma; quanto mais ela ficasse ali, nunca teria que tentar (e falhar) de novo. Quando Sophie abandonou Jason, ele parou o tempo. Ficou trancado nas 3:14 a.m. com apenas a lua de interlocutora. O resto do filme é sobre como eles encontram suas almas e voltam para casa.

Talvez porque eu não me sentisse muito confiante quando eu o estava escrevendo, o filme foi passando a ser sobre fé, sobretudo sobre o pesadelo de não a ter. Foi terrivelmente fácil imaginar uma mulher que fracassa, mas a história do Jason me confundiu. Não consegui imaginar suas cenas. Eu sabia que no fim do filme ele iria se dar conta de que estava vendendo árvores não porque achava que ia ajudar de alguma forma — ele na verdade achou que era muito tarde para isso — mas porque ele amava este lugar, Terra. Foi um ato de devoção. Um pouco como escrever ou amar alguém — não é sempre que se sente que está valendo a pena, mas não desistir, de alguma forma, cria um sentido inesperado o tempo todo.

Então eu sabia o começo e o fim — eu só tinha que sonhar uma parte do meio convincente, quando a empatia de Jasom traria a ele contatos com estranhos, quem sabe até mesmo na casa dos próprios, onde ele teria uma série de conversas interessantes ou hilárias ou transformadoras. Na verdade era fácil escrever esses diálogos; eu tinha sessenta rascunhos diferentes com sessenta diferentes cenários de venda de árvores, e cada um deles parece ter me inspirado de verdade. Eu estava me convencendo de que tinha achado a peça que faltava para completar a história, hilariamente, transformadoramente. Às vezes demora um pouco, mas se você acreditar e continuar tentando, a coisa certa acontece. Então, cada um dos e-mails com o meu roteiro anexado foram sucedidos por outros escritos um dia depois, se não apenas uma hora mais tarde —"Assunto: Não leia o rascunho que eu acabei de mandar!! Mandarei um novo em breve!!"

Então agora eu estava sem fé. Estava deitada na grama olhando as formigas. Estava googleando meu próprio nome como se a resposta ao meu problema pudesse estar secretamente codificado em alguma postagem de blog sobre como eu era irritante. Eu nunca havia entendido o álcool, algo que me distanciava de um bocado de gente, mas agora eu chego em casa todo dia e tento não falar com o meu marido antes de ter tomado um golinho de vinho. Tenho estado vividamente em contato comigo mesma por 35 anos, mas agora chega. Eu dizia para as pessoas que o álcool era como se fosse um chá que eu descobri na Whole Foods: “O gosto é desprezível, mas ele vai baixar sua ansiedade e vai tornar mais fácil a sua circulação por aí — você tem que experimentar!” Tornei-me também silenciosamene doméstica. Lavava os pratos fazendo bastante barulho. Cozinhei carnes complexas, presenteando-as com ressentido desespero. Aparentemente isso consistia em tudo de que eu era capaz naquele momento.

Eu lhe contei tudo isso, então você pode entender por que eu decidi mirar as terças-feiras. Terça-feira era o dia em que o catálogo da PennySaver [livreto de anúncios] era distribuído. Ele veio escondido entre cupons e outras propagandas. Lia-o enquanto almoçava, e depois, porque eu estava sem pressa para voltar a não escrever, geralmente eu o lia de novo, até os anúncios da contracapa. Considerei com carinho cada item — não como compradora, mas como uma cidadã curiosa de Los Angeles. Cada anúncio era como uma breve notícia de jornal. Extra, extra! Alguém em LA está vendendo um casaco. De couro. Grande e preto. A pessoa diz que acha que vale dez dólares. Mas a pessoa não está muito confiante sobre o preço, e está aberta para considerar outros preços, menores. Eu queria saber mais coisas sobre as quais essa pessoa do casaco de couro pensa, tipo como ela passou os dias, quais são suas esperanças, seus medos — mas nenhuma dessas informações estava listada lá. O que estava listado era o número de telefone da pessoa.

De um lado era o meu problema com Jason e as árvores, de outro era esse número de telefone. Para o qual, normalmente, eu nunca ligaria. Certamente não preciso de um casaco de couro. Mas naquele dia em particular eu não queria mesmo voltar para o computador. Não só pelo roteiro, mas também pela internet. Então peguei o meu aparelho de telefone. A regra implícita dos classificados é que você só pode ligar para o número para falar sobre o item à venda. Mas outra regra é, sempre, que este é um país livre, e eu estava tentando sentir minha liberdade. Poderia ser a única chance, no dia todo, de me sentir livre.

No meu mundo de paranoia, todo caixa pensa que estou roubando, todo homem pensa que sou prostituta ou lésbica, toda mulher pensa que eu sou lésbica ou arrogante, e toda criança e animal enxarga o verdadeiro eu, que é malvado. Então, quando telefonei, tomei cuidado para não ser eu; perguntei sobre o casaco com uma voz emprestada de um programa de tevê. Esperei pelo mesmo tipo de tolerância preocupada que ele recebeu de mim.

A pessoa que respondeu era um homem com uma voz baixinha. Ele não ficou surpreso com o meu telefonema — claro que não, né, ele colocou o anúncio.

“Ainda está à venda. Você pode fazer uma oferta quando o ver”, ele disse.

“Tá bom, ótimo.”

Houve uma pausa. Medi o espaço gigante entre a conversa que estávamos tendo e onde eu queria chegar. Fiz um pulo.

“Na verdade, eu estava pensando, quando eu for ver a jaqueta, se eu podia também entrevistar o senhor sobre sua vida e tudo sobre você. Suas esperanças, seus medos…” Minha pergunta foi engolida pelo silêncio que disparou como um alarme. Rapidamente emendei: “É claro, eu poderia pagar pelo seu tempo. Cinquenta dólares. Vai levar menos de uma hora.”

“Tá bom.”

“Tá bom, ótimo. Qual é o seu nome?”

“Michael.”

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