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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mais Lama Padma Samten:

Na tradição Zen, existe o koan, que é uma pergunta que não tem resposta lógica possível, e serve para quebrar a rigidez da compreensão do discípulo; a resposta não importa, o relevante é trabalhar-se com a pergunta mesmo. (Faz parte do método e da linguagem do zen a sofisticação de valorizar mais o paradoxal do que a lógica comum da afirmação. Quando a afirmação produz conforto, acalma e tranquiliza, a pessoa estaciona; se a afirmação produz desconforto, a pessoa nunca consegue harmonizá-la perfeitamente no contexto de seus conceitos e, assim, nunca se sentirá intelectualmente pacificada, ficará instigada e não poderá estacionar. A linguagem, em vez de legitimar a visão convencional, se torna algo que vai forçando a pessoa ir adiante e só no momento em que ela atinge a realização interna do ensinamento é que se sentirá confortável.)

Neste ponto é interessante lembrar o koan das mãos que se batem. O mestre bate uma mão espalmada contra a outra, bate palmas, e pergunta ao monge-discípulo: "qual é o som que vem de apenas uma das mãos? Não há resposta possível. Como compreender esta pergunta e o que ela pode trazer como compreensão? Este koan exemplifica a noção de objeto e suas limitações. A noção de objeto pressupõe a separação entre sujeito e objeto e a ideia de que as propriedades pertencem apenas a um e não ao outro. Examinemos os objetos que nos rodeiam e examinemos a forma pela qual eles nos surgem como objetos com realidade permanente e separada. (...)

Qual a diferença entre uma pedra e uma flor? Sem dúvida, poderíamos encontrar muitas, mas, olhando do contexto mais sutil, poderíamos também dizer que são o mesmo, pois a essência de ambas é a mesma, ambas são discriminações, projeções mentais. A palavra contexto descortina aqui este aspecto crucial da compreensão budista: as verdades relativas são todas elas contextuais, ou seja, são válidas, inequívocas, úteis, corretas, verificáveis experimentalmente, mas sempre dentro de limites de validade, sob a égide dos pressupostos que lhe dão este sentido de verdade palpável.

Existindo verdades relativas, haveriam também as absolutas? No sentido budista, a verdade relativa sobre um vaso é, por exemplo, que caindo ao chão, quebrará, ou que se pode colocar plantas dentro, ou ainda que é feito de barro. Já a verdade absoluta sobre um vaso é que não há um vaso em si mesmo, independentemente. Este é o sentido de verdade absoluta no budismo. No budismo, o sentido de verdade absoluta refere-se, portanto, aos aspectos cognitivos, e não aos aspectos relacionais. (...)

As projeções mentais que são realizadas de forma inteiramente automática e oculta à operação mental consciente, e que dão forma e realidade a tudo o que é "visto", operam a partir de quadros referenciais complexos onde o "ver" se resume, na maior parte das vezes, em classificar apenas. Estes "quadros referenciais", que aqui estamos chamando também de "contexto cognitivo do objeto" é que são, de fato, a imagem inconsciente que temos de cada objeto e que surge de acordo com as circunstâncias. A maior parte da atividade mental é classificatória, é incluir o objeto em alguma das possibilidades de definição previamente existente para ele. A criação mesma da estrutura do contexto cognitivo de um objeto é uma atividade muito rara que podemos chamar de "atividade genuinamente criativa". (...)

No mundo psicológico isto é muito fácil de perceber. Um professor em sala de aula não vê pessoas, vê alunos; um vendedor vê clientes, uma mãe vê filhos, um marido vê a suamulher, um policial vê contraventores, um pivete vê oportunidades, e assim por diante. Todos estão corretos, todos operam de maneira adequada em suas funções, mas todos, ao operar assim, são incapazes de ver opções que estejam fora de seus "quadros referenciais", fora dos contextos cognitivos previamente reservados de forma inconsciente e muitas vezes criados através de muito esforço, de muito estudo ou de um treinamento difícil, mas em todos estes casos, por meio de pensamentos anteriores. Assim são construídos os quadros referenciais, por pensamentos. Como os humanos se comunicam com base em quadros referenciais bastante complexos e sutis, necessária se torna a escolarização, pois é este treinamento que permitirá que a comunicação abstrata e simbólica se dê de modo mais preciso e mais livre das naturais distorções. (...) O processo de escolarização enriquece a pessoa, sem dúvida, mas ao mesmo tempo retira dela a capacidade de ver o novo. Os quadros referenciais são como estradas fáceis, planas e boas, sua existência é ótima, mas tornam quase sem sentido a busca de outras alternativas. (...) A própria sintaxe das línguas indo-arianas com seus verbos, sujeito, predicado, adjuntos, exige que tratemos de objetos "isolados", e assim, a própria forma verbal estabelece um quadro referencial impossível de ser superado dentro dela mesma.

3 comentários:

GIRL CROSSING disse...

fico numa viagem pensando o que seria da humanidade se alguma coisa, dois mil anos atrs, tivesse mudado o curso dos acontecimentos e a sociedade oriental tivesse sobreposto o pensamento cristao ocidental...o que teria sido? que tipo de pessoa eu seria agora? se é que isso faz alguma diferença
MAs me entende, assim na manera como intelectualizamos as coisas desde crianca, tem toda uma logica diferente

Douglas Dickel disse...

Mao Tse Tung fracassou... E se as bombas atômicas não tivessem atingido o Japão?

GIRL CROSSING disse...

Sim mas Mao é uma excrescencia, assim como, sei lá, a inquisicão, ou o talibã são versões on crack da moral baseada en com um deus que ama, castiga, perdoa, salva, abre caminhos etc etc. Que pra conseguir resolver os problemas a gente reza.


assim, simplificando muito.

na realidade eu pensava mais na reza, ao contrário do pensamento voltado para solucionar um labirinto impossivel