Luiz Alberto Oliveira (cosmólogo) - Na própria transcrição dos genes em proteínas ocorre uma aleatoriedade inevitável, proveniente das circunstâncias internas da célula, e essa indeterminação é co-responsável pela fixação dos caracteres individuais; a complementaridade entre Acaso e Necessidade abrange os ambientes exógeno e endógeno dos seres vivos.
ComCiência - Como dialogam as ciências humanas, a biologia e a física na atualidade?
Oliveira - Na maioria das vezes, como viajantes noturnos no deserto, que passam bem ao lado um do outro sem se encontrar. Nas ciências naturais, duas tendências estão em confronto: o especialismo, segundo o qual cada saber deve possuir limites bem demarcados para a atuação de seus praticantes, e a transdisciplinaridade, fundada no reconhecimento de que objetos complexos como o clima requerem, para uma descrição eficaz, a colaboração de idéias, instrumentos e procedimentos oriundos de diferentes áreas, da geologia à física do Sol. Obviamente, ambas as posturas são indispensáveis, a verticalidade para o específico, a horizontalidade para o integrado, mas na prática costuma-se decair para um fundamentalismo míope em favor de um dos lados. Ainda mais agudo é o distanciamento entre os saberes naturais e os humanos, em vista da generalidade e da singularidade de seus respectivos objetos de estudo. Veja-se por exemplo o conflito entre neuropsiquiatras e psicanalistas: os primeiros proclamam que os neurofármacos decretaram o fim de uma pseudociência, ignorando a observação de Lewis Thomas de que as palavras agem sobre vírus, penetram em escalas subcelulares; os segundos denunciam a leviandade da remoção de sintomas sem que se intervenha sobre as causas, esquecendo a antevisão de Freud acerca das promessas da bioquímica. Quem sabe um dia, dada a função comum de serem meios para que o pensamento mergulhe no desconhecido, os saberes venham a dialogar abertamente.
ComCiência - Se é verdade que, na atualidade, a ciência está mais associada ao mercado, quais as consequências disso para o saber científico e para os saberes que não podem produzir para o mercado, como a filosofia?
Oliveira - Consideremos o mito moderno por excelência, o "Progresso": a humanidade, o grande universal humanista parido pelo Iluminismo, teria como destinação o rumo a uma nova Canaã de abundância material. Mas a sensação em nossa pós-modernidade, o gosto em nossa boca, é de mal-estar. Recordemos os primórdios da Revolução Industrial: bens naturais fartos, bens artificiais raros. Hoje, vemos o inverso: bens artificiais abundantes, bens naturais escasseando. Sem dúvida, todo ser vivo necessariamente desconstrói e reconstrói seu habitat, mas o peso de nossa presença começa a se tornar excessivo; Edward Wilson nos aponta um rosário de extinções em massa em ecossistemas e de ecossistemas decorrentes da crescente ocupação devastadora humana. Os atuais seguidores do mercado o entronizaram como provedor de todos os benefícios prometidos e adiados, e o mercado tornou-se diretor e causa final da atividade produtiva. Tudo deve ser conversível em commodity, tudo deve ser o nodo de um fluxo de percentagens, tudo deve ser apreçado: sentimentos íntimos, doutrinas religiosas, órgãos humanos. Para quê a filosofia? Que sejamos todos unidimensionais, quer dizer, consumidores, quer dizer, consumíveis; caso contrário, estamos fora. Esta destrutividade, essa exclusão exponencial, não são apenas um mal-estar, são um mal-ser. Ora, do ponto de vista da teoria dos sistemas complexos, a vida é uma matéria organizada que, aprendendo a modificar sua própria estrutura para responder a alterações do meio, passou a conectar os tempos bilionesimais das moléculas ao tempo profundo das transformações ambientais, geológicas, e astrofísicas. A aceleração técnica vigente na contemporaneidade superpôs um novo modo temporal a esta conexão entre os ritmos materiais e biológicos: a rapidez das produções culturais. O físico Freeman Dyson compara os andamentos típicos da natureza à marcha estugada da cultura: a África e a América do Sul levaram 150 milhões de anos para atingir a separação atual; uma especiação requer em média um milhão de anos; o clima global varia ao longo de centenas de milhares de anos; já o desenvolvimento de artefatos culturais como a metalurgia ou a cidade precisou de dezenas de milhares de anos; entidades como as línguas e as religiões têm milhares de anos de longevidade; instituições como as nações duram séculos; os indivíduos têm expectativa de vida da ordem de várias décadas; mas no sistema acadêmico hiperacelerado de hoje as ideias surgem e fenecem em anos, e as inovações técnicas são lançadas e obsoletam em meses. O aspecto crítico aqui é que a compactação dos ritmos naturais pelos ritmos tecnológicos instaura uma imprevisibilidade radical: doravante o passado não nos servirá como guia, pois a história - quer da natureza, quer da cultura - não pode mais ser rebatida sobre o futuro. O futuro não será mais como antigamente. Transformações civilizacionais deste calibre não costumam ser experiências pacíficas e serenas. Como reza a tradicional maldição chinesa, viveremos tempos interessantes. Talvez como em nenhuma outra época, será necessário que invoquemos e exerçamos as potências do pensamento - a arte, a filosofia, a ciência - para que possamos, como queria o filósofo Friedrich Nietzsche, ser uma ponte entre o primata e o além-do-homem.
Luiz Alberto Oliveira*
Espaço e Tempo - na Filosofia, na Ciência e na Arte
Santander Cultural - 5 e 6 de dezembro de 2009
Horário: 15h - 17h30
Investimento: R$ 180,00 para os 20 primeiros inscritos, R$ 200,00 para os demais. Formas de pagamento: Parcelamento em 2x no cheque
Local das inscrições: Livraria Bamboletras
Flávio: 8110 0118 // flaviogil@hotmail.com
Júlia: 9242 5267 // ju_bertolucci@yahoo.com.br
Nos últimos cem anos, uma série de idéias inovadoras, resultantes da profunda Revolução Científica ocorrida no começo do século XX, tiveram sua consolidação e disseminação. Os cientistas se tornaram progressivamente capazes de sondar, analisar e modelar certas classes de fenômenos inacessíveis aos instrumentos (e conceitos) do passado.
O objetivo dos encontros será o de compor uma perspectiva acerca dos desenvolvimentos dos conceitos Espaço e Tempo nos domínios da Filosofia, da Ciência e da Arte. É proposto um debate, segundo uma visão renovada dos processos criadores, para reavaliar o entendimento que atualmente dispomos sobre a Natureza, a Vida e o Pensamento.
Para isso, serão examinadas as origens das noções de Espaço e Tempo, no Mito, na Filosofia e na História; a passagem do Mundo Fechado medieval ao Universo Infinito de Newton, a partir da constituição da Ciência moderna; a profunda reformulação acarretada pelos avanços recentes da Microfísica, Cosmologia e Teoria dos Sistemas Complexos; e explorar problemas de fronteira na Filosofia, na Ciência e na Arte segundo uma perspectiva contemporânea.
* Luiz Alberto Oliveira é físico, doutor em Cosmologia, pesquisador da Coordenação de Cosmologia, Relatividade e Astrofísica (ICRA-BR) do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT), Rio de Janeiro, onde também atua como professor de História e Filosofia da Ciência. É ainda coordenador associado do Núcleo de Pesquisas sobre Ciberculturas (CiberIdea) do Laboratório de História dos Sistemas de Pensamento da Escola de Comunicação da UFRJ, consultor de Ciências do Canal Futura de Teleducação, membro fundador do Instituto de Estudos da Complexidade e professor convidado da Casa do Saber do Rio de Janeiro e do Escritório Oscar Niemeyer.
Além de tudo isso, ele é membro da equipe dos Dynamic Encounters, do Charles Watson.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
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