DAVID LYNCH
"No início, eu queria ser pintor. Mas durante os meus estudos de artes plásticas, rodei um pequeno filme de animação afim de o projetar de forma ininterrupta sobre um ecrã esculpido. Era um projeto experimental, que dava a impressão de uma espécie de pintura viva. Um sujeito viu isso e me deu dinheiro para eu fazer uma outra, para ele expor em sua casa. Como os primeiros testes não eram conclusivos, ele me disse 'Não faz mal, guarde o dinheiro e filme o que você quiser'. Então, fiz um curta-metragem, que me levou a conseguir uma bolsa e trabalhar em Eraserhead. Só fiz um curso de cinema na minha vida, com um professor que se chamava Frank Daniel. Era um curso de análise, no qual ele mostrava filmes aos alunos pedindo-lhes para só se concentrarem num só elemento: a fotografia, o som, a música, os atores... Depois, discutia-se a utilização deste elemento particular no filme, comparávamos as nossas notas e descobríamos montes de coisas incríveis. Era fascinante. Mas funcionava porque Frank, como todos os grandes professores, tinha essa capacidade de inspirar os seus alunos, de os apaixonar pelo assunto."
"Como os meus filmes têm muitas vezes tendência para surpreender ou chocar, pergunto-me às vezes se é um erro querer agradar ao público. De fato, penso que não. De qualquer modo, é quase impossível agradar a toda a gente. Mas se eu tentar seduzir os espectadores e que, para isso, acabe por fazer um filme que não me agrada, então caminharia para o desastre."
(Laurent Tirard, "Studio" n.º 118, Janeiro de 1997)
Os trinta ou quarenta primeiros minutos [de Lost Highway] são aterradores, mas não continua na mesma onda.
Lynch - De fato. Gosto de pensar nos filmes como tendo movimentos musicais.
E quantos movimentos teria o filme, neste caso?
Lynch - Três.
A parte mais assustadora é quando o homem misterioso diz a Fred que está em sua casa. O que dá força a esta cena é a sua impossibilidade lógica: uma mesma pessoa não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Há três ou quatro cenas como esta, em torno das quais o filme está construído. Poderíamos também imaginar: uma mesma pessoa não pode ter dois rostos diferentes. A terceira seria: duas mulheres diferentes não podem ter a mesma cara. A este nível muito "básico", não pode haver lógica.
Lynch - As possibilidades são ilimitadas.
(Entrevista realizada em Los Angeles por Bill Krohn, traduzida para francês por Serge Grûnberg, "Cahiers du Cinéma" n.º 509, Janeiro de 1997)
Releu o script procurando falhas lógicas?
Lynch - Sim. Mas não procuramos uma lógica. Era apenas necessário que fosse lógico para Barry [o roteirista] e eu. O script deve ser lógico com ele mesmo. Um elemento funciona porque se junta com o seguinte. Fomos atraídos na boa direção por lindas indicações. Vimos verdadeiramente a história a ter lugar. E sente-se quando está correto. É muito excitante.
Sob que forma as ideias lhe surgem?
Lynch - Por vezes, são sequências: outras vezes, não têm um som definido, mas comportam indicações sobre o modo de como devem soar. Têm uma atmosfera, têm uma sensibilidade. Comportam personagens que se revelam com precisão: estão vestidas de uma certa maneira, compreendemos instantaneamente. É uma coisa mágica.
(Gérard Deforme, "Première" n.º 238, Janeiro 1997)
"Lost Highway é uma síntese interessante dos diferentes filmes de Lynch. David está desenvolvendo a sua arte e a sua linguagem. Em cada filme que tenho trabalhado com ele, a sua exigência na câmera tem-se tornado mais sofisticada e dinâmica. Ele pensa a sério em como pode tornar a cena mais simples na mais interessante, tanto visual como emocionalmente." (Mary Sweeney, produtora)
"Lynch sabe exatamente o que quer dos atores que dirige. Por exemplo, diz coisas como 'OK! Patricia, agora deixa o gato sair da jaula'. Eu não entendia nada, mas respondia: 'OK! Está pronto? Cuidado! O gato vai sair da jaula - o gato está saindo!'. (...) Às vezes é desconcertante: ele usa música [a do Rammstein tocava todos os dias] para nos dar uma idéia do ritmo que quer impor à cena. Depois, há coisas de pernas para o ar. Interpretações muito intensas parecem descabidas com ele. E as mais descabidas de todas acabam por ser muito intensas... Por exemplo, às vezes, eu e o Bill acabávamos uma cena e dizíamos um ao outro: 'Esta foi a melhor!', e aí vinha o David: 'Vamos fazê-la outra vez'. Fazíamos outro take e nós dizíamos. 'Grande merda! Vai nos matar!', e aí o David vinha com os dois polegares em riste: 'Foi fabuloso! Fa-bu-lo-so!' Assim, quando o Balthazar Getty chegou, eu lhe disse: 'Olha, meu! Deixa eu avisar já: se você for muito estranho, ele vai adorar; se você for correto, ele vai odiar. OK? Topou? Pronto? Ação!' " (Patricia Arquette)
E tudo isso começou com um link no blog do Mojo.
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