Texto maravilhoso do monge budista Sangharakshita (QUASE na íntegra):
1. Consciência das coisas
Por que nossa concentração é tão fraca? Por que estamos presentes de modo parcial? Nossa concentração é fraca porque não temos continuidade de propósito. Não há nenhum objetivo que tenha precedência ou superioridade, e que permaneça inalterado em meio a todas as coisas diferentes que fazemos. Passamos de uma coisa para outra, de um desejo para outro, o tempo todo.
Por não haver continuidade de propósito, por não estarmos concentrados em uma coisa principal o tempo todo, não temos individualidade real. Somos uma sucessão de diferentes pessoas, todas elas um tanto inacabadas, ou embrionárias. Não há nenhum crescimento regular, nenhum desenvolvimento regular, nenhuma evolução verdadeira. (...)
Na maior parte do tempo estamos apenas vagamente cientes das coisas à nossa volta, e não temos mais do que uma consciência periférica delas. Não estamos realmente conscientes do ambiente que nos cerca, não estamos realmente conscientes da natureza, do cosmos, e o motivo para isso é que raramente ou nunca realmente paramos para vê-los. Quantos minutos por dia- para não falar em horas- passamos apenas olhando para uma coisa? Provavelmente não passamos nem mesmo segundos deste modo, e a razão que geralmente damos é que não temos tempo.
Esta é talvez uma das maiores acusações que poderia ser feita à civilização moderna - a de que não temos tempo para parar e olhar para nada. Podemos passar por uma árvore a caminho do trabalho, mas não temos tempo de olhar para ela, ou mesmo olhar para coisas menos românticas tais como muros, casas e cercas. Isto nos faz pensar acerca do valor desta vida e civilização modernas, uma vez que não sobra tempo para olhar para as coisas.
O fato de não termos tempo para parar e olhar é algo que merece ser lembrado. Contudo, mesmo quando temos tempo de parar e olhar, e tentar ficar conscientes, nós quase nunca vemos as coisas em si mesmas. O que geralmente vemos é nossa própria subjetividade projetada. Nós olhamos para alguma coisa, mas a vemos através do véu, da cortina, da névoa, da bruma de nosso próprio condicionamento mental.
Há alguns anos atrás, em Kalimpong (norte da Índia), saí para caminhar com um amigo nepalês, e tivemos a sorte de parar ao pé de um magnífico pinheiro. À medida que eu olhava para o tronco uniforme e a massa de folhagem verde-escura, não pude deixar de exclamar: "Ora, mas que beleza de árvore!" Meu amigo nepalês, que estava parado a meu lado, disse: "Ah, sim, é uma bela árvore. Há lenha suficiente aqui para o inverno inteiro." Ele não viu a árvore em absoluto. Tudo que ele viu foi uma certa quantidade de lenha. A maioria de nós olha para o mundo das coisas materiais exatamente deste modo, e esta é uma atitude da qual devemos nos desfazer. Temos que aprender a olhar para as coisas em si mesmas, por consideração a elas, um olhar não contaminado por nenhum traço de subjetividade, preferência pessoal ou desejo.
2. Consciência de si próprio
(a) Consciência do corpo e de seus movimentos
Nos sutras o Buda encoraja seus discípulos a estarem constantemente conscientes do corpo e seus movimentos. Deve-se estar consciente quando se anda, se senta, está-se em pé, ou deitado. Deve-se estar consciente da posição das mãos e dos pés, dos próprios movimentos, dos próprios gestos, e assim por diante. Segundo este ensinamento, não podemos, se estivermos conscientes, fazer nada de uma maneira apressada, confusa ou caótica. Temos um exemplo maravilhoso disto no que é conhecido como a cerimônia japonesa do chá. Aparentemente, a cerimônia japonesa do chá gira em torno de um ato muito comum, que fazemos todos os dias: preparar e tomar uma xícara de chá. Isto é algo que todos fizemos centenas e milhares de vezes. Mas como fazem isso no Japão? Lá isto é feito de um modo bem diferente, porque é feito com consciência.
Com consciência, a água é despejada na chaleira. Com consciência, a chaleira é posta no fogão de lenha. Com consciência, a pessoa senta e espera a água ferver, ouvindo o chiado e o borbulhar da água, e observando o tremular das chamas. Finalmente, com consciência a pessoa despeja a água fervente no bule de chá, e com consciência ela serve o chá, oferece-o e o toma, o tempo todo observando completo silêncio.Todo o ato é um exercício de consciência. Ele representa a aplicação da consciência aos afazeres da vida diária. Esta atitude deveria ser introduzida em todas as nossas atividades. Todas deveriam ser conduzidas com o mesmo princípio que o da cerimônia japonesa do chá; tudo deveria ser feito com atenção consciente e consciência, e portanto com calma, quietude, e beleza, bem como com dignidade, harmonia e paz.
(b) Consciência dos sentimentos
Em primeiro lugar, a consciência dos sentimentos significa sabermos se estamos felizes, se estamos tristes, ou se estamos em um estado neutro intermediário, entediados e sem brilho. Ao tornar-nos mais conscientes de nossa vida emocional, vamos descobrir que os estados emocionais inábeis - aqueles ligados a anseio, ódio ou medo - tenderão a ser resolvidos; ao passo que os estados emocionais hábeis - aqueles relacionados ao amor, paz, compaixão e alegria - tenderão a ser refinados.
(c) Consciência dos pensamentos
Se repentinamente nos perguntarem: "O que você está pensando neste momento?" a maioria das pessoas teria que confessar que não sabe. Isto é porque geralmente não estamos realmente pensando; apenas permitimos que os pensamentos perambulem pela mente. Não temos uma consciência clara dos pensamentos, estamos apenas vagamente conscientes deles de uma maneira nebulosa e indefinida. Não há um pensamento dirigido. Não tomamos a decisão de pensar sobre alguma coisa de forma deliberada. As ideias circulam em nossa mente de um modo vago, solto e confuso. Elas entram e elas saem, às vezes apenas em círculos, ou revolvendo-se, e dando voltas e voltas dentro da mente.
Portanto, temos que aprender a observar de momento a momento, para ver de onde vêm os pensamentos e para onde eles vão. Se fizermos isso, descobriremos que o fluxo dos pensamentos será reduzido, e que a tagarelice mental incessante irá parar. Finalmente, se persistirmos com esta consciência dos pensamentos por tempo suficiente, a mente irá se tornar, em certos instantes - certos momentos máximos da prática de meditação - completamente silenciosa. Todos os pensamentos discursivos, todas as ideias e conceitos, serão eliminados, e a mente permanecerá silenciosa e vazia, mas ao mesmo tempo plena. Este silêncio ou vazio da mente é muito mais difícil de conseguir, ou de experimentar, do que o mero silêncio da língua; mas é neste ponto, quando como resultado do estado consciente a mente se torna silenciosa e os pensamentos desaparecem, deixando apenas a consciência clara e pura, que a meditação verdadeira começa.
Estes três tipos de consciência de si próprio - consciência do corpo e de seus movimentos, consciência dos sentimentos e emoções, e consciência dos pensamentos - deveriam ser praticados o tempo todo, seja o que for que estivermos fazendo. Durante o dia todo e até mesmo - com prática, à noite - mesmo no meio dos sonhos - deveríamos continuar a estar conscientes. Se estamos conscientes deste modo o tempo todo: conscientes de como o nosso corpo se coloca, como abaixamos o pé ou levantamos o braço; conscientes do que estamos dizendo; conscientes de nossos sentimentos, se felizes, tristes ou neutros; e conscientes do que estamos pensando, e se este pensamento é dirigido ou não dirigido - se estivermos conscientes deste modo o tempo todo, mesmo durante nossa vida inteira se possível, iremos verificar que gradual e imperceptivelmente e, não obstante, com certeza, esta consciência irá transmutar e transformar todo nosso ser, todo o nosso caráter. Psicologicamente falando, a consciência é o agente transformador mais poderoso que conhecemos. Se aplicarmos calor à água, a água será transformada em vapor. Do mesmo modo, se aplicarmos consciência a qualquer conteúdo psíquico, este será refinado e sublimado.
3. Consciência das pessoas
Se estamos de algum modo conscientes em relação às pessoas, geralmente estamos conscientes delas não como seres humanos, mas como coisas ou objetos "lá fora". Em outras palavras, estamos conscientes delas enquanto corpos físicos colidindo contra nossos corpos físicos. Esta maneira de estar consciente de outras pessoas não é suficiente. Devemos tornar-nos conscientes delas enquanto pessoas.
Como isto é feito? Como podemos tornar-nos conscientes de outra pessoa enquanto pessoa? Em primeiro lugar, obviamente, devemos olhar para elas. Isto soa simples, mas na verdade é muito difícil. Quando eu digo "olhar para elas" não quero dizer olhar fixamente ou encarar. Não devemos fixar nelas um olhar hipnótico. Devemos só olhar - e isto não é tão fácil quanto parece. Eu não estaria exagerando se dissesse que algumas pessoas nunca realmente olharam para uma outra pessoa, ao passo que algumas nunca foram realmente olhadas. É, de fato, possível passar uma vida inteira sem olhar para outra pessoa nem ser olhada por ela; e se não olharmos para outras pessoas não podemos ficar conscientes delas.
4. Consciência da Realidade
A conciência da Realidade não significa pensar sobre a Realidade; não significa nem mesmo pensar sobre estar consciente da Realidade. O melhor modo de descrevê-lo é dizer que a consciência da Realidade é uma contemplação direta, não discursiva. Ela tem, obviamente, muitas formas, das quais mencionarei uma ou duas.
A consciência da Realidade é o nível de consciência mais difícil de manter entre todos. Por causa disso, vários métodos foram desenvolvidos para ajudar-nos a manter uma constante recordação ou consciência da Realidade, do Fundamento, do Transcendente. Um destes é a repetição constante de um mantra - uma palavra ou sílaba sagrada, ou conjunto de sílabas, que tem ligação, geralmente, com um Buda ou Bodisatva em particular. A repetição constante deste mantra - obviamente depois que a pessoa já foi devidamente iniciada- não apenas a coloca em contato com o que ele representa, mas a mantém nesse contato em meio a todas as vicissitudes, todos os altos e baixos, e mesmo todos os sofrimentos e tragédias da vida diária. Finalmente, esta repetição torna-se espontânea (não automática), jorrando todo o tempo, mesmo independentemente da vontade pessoal, de modo que um fio tênue de contato com a Realidade é mantido, mesmo no meio de todas as diversões e deveres, das responsabilidades e provações, e dos prazeres também, da existência humana comum.
Estes são os quatro níveis principais de consciência: a consciência das coisas, a consciência de si próprio, a consciência das pessoas e, cima de tudo, a consciência da Realidade. Cada um deles tem seu efeito característico na pessoa que o pratica. Através da consciência das coisas, como elas realmente são, tornamo-nos livres da mácula da subjetividade. A consciência de si próprio refina nossa energia psicofísica. A consciência das pessoas estimula. Finalmente, a consciência da Realidade transmuta, transfigura e transforma.
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segunda-feira, 14 de maio de 2012
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