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sábado, 31 de dezembro de 2011

Meek’s Cutoff (Kelly Reichardt, 2009)
4/5

(Victor Bruno)

Quanto mais longe da água, mais precária é a vida. A lógica é mais antiga que o Tempo e praticamente é a força motriz deste Meek’s Cutoff. Também pudera: O filme aborda um grupo de pioneiros norte-americanos no meio do século XIX que estão atravessando o deserto do Oregon rumo ao Oeste liderado por um porra-louca falastrão e arrogante que não faz a menor ideia de onde estão, onde ficarão e muito menos se algum dia chegarão ao lugar deles.

E desde o início, a brilhante diretora Kelly Reichardt nos põe bem no meio da ação do filme, o que implica dizer que estamos sempre juntos às personagens. Desde o primeiro fotograma de Meek’s Cutoff, o público tem a certeza que os pioneiros que a história segue não são nada além de um produto do meio: Se estão irritados, é por que não estão longe de onde querem ir, mas sim por que estão longe do mínimo de condição humana de vida. Se estiverem mais calmos, é por que têm a certeza de que ali é um lugar minimamente habitável. Mas em nenhum momento o público deve pensar que eles estão conformados com a situação de merda em que se encontram.

Narrando seu filme de forma bastante direta e objetiva, a diretora Reichardt em nenhum momento, mas nenhum momento mesmo; resolve enganar seu público, ou fugir da proposta inicial que elaborou. Apesar de se passar no meio do século XIX, Meek’s Cutoff está longe de ser um Western: Não há tiros, não há machões, não há índios assaltando trens ou putas se oferecendo para o xerife que sempre está com as mãos na fivela do cinto enquanto cospe fumo mascado. Longe disso: Ao enquadrar seu filme num aspecto de proporção 1.33:1 – bastante atípico para os filmes atuais, usualmente fotografados em uma janela widescreen 2.35:1 – Reichardt nos confina num inferno vivo. Como nosso campo visual está bastante limitado por uma janela visual quase quadrada, só se vê o essencial: As personagens e como elas transitam no meio. Reichardt evita firulas visuais, não há contraluzes espetaculosos (exceto uma vez), não há elaborados e virtuosos movimentos de câmera – e devo dizer que suspeito se houve iluminação senão aquela diegética, uma vez que mesmo nas cenas noturnas nada é visto, a não ser se alguém estiver iluminado. Por exemplo, em determinado momento, logo no início do filme, escutamos um diálogo entre a Sra. White (Shirley Henderson) e seu marido, William White (Neal Huff). Atente: nós apenas escutamos, mas não vemos – só sabemos que há alguém ali por que a Sra. White está iluminando a cena com uma pequena lamparina. (E é realmente um milagre podermos ver aquela lamparina, o que imediatamente me obriga a parabenizar a fotografia de Christopher Blauvelt.)

E por que isso é importante? Muito simples: No momento em que Reichardt nos obriga a ver/sentir apenas o que os tropeiros do filme vêem/sentem, imediatamente nós somos postos na mesma situação agonizante que aqueles pobres coitados – algo fundamental para o êxito do filme: Já que estamos vendo a história de gente ferrada no meio do deserto, nós precisamos saber o que eles estão vivendo. Então, mesmo que a fotografia quase nunca se movimente ou evite brincadeiras que virariam mera perfumaria estética, ela jamais se torna mera observadora passiva do filme: Ela se torna uma personagem ativa. E a lógica de Reichardt é realmente louvável (ainda que eu, pessoalmente, considere bastante arriscada): Se os tropeiros estão parados, por que deveríamos estar nos movimentando? Para evitar o tédio? Não, não: O tédio faz parte da história.

Só que ao mesmo tempo em que é interessante que nós sintamos o tédio que eles estão sentindo, parece que Reichardt se esquece que somos o público, e o público não quer passar tédio. Logo, logo, a falta de moção do filme acaba cansando o espectador, tamanha a auto-indulgência da diretora – que também é montadora. E se ela é montadora então fodeu, amigo, agora é que estamos à mercê das mãos dela. E é assim, desta forma, que todo aquele aspecto interessante daquela contemplatividade que Kelly Reichardt insistia se quebra. E logo o desespero que vemos Millie Gately (Zoe Kazan, neta de Elia) sentir não é compartilhado por nós, e acaba se tornando algo simplesmente natural e lógico – o que é fatal para um filme de cunho sensorial como Meek’s Cutoff.

Por outro lado, nós não devemos desprezar esses momentos em que as personagens se entregam aos seus mais profundos sentimentos, o que uma hora ou outra vai acontecer. E o interessante é que estes momentos vão sendo construídos de forma gradativa ao longo da trama, mesmo que estejam óbvios desde o primeiro segundo. Por exemplo, é incrível como os tropeiros seguram a vontade de matar seu guia, Stephen Meek (que dá título ao filme, interpretado pelo talentoso Bruce Greenwood) até o último instante do filme – e mesmo assim, a figura mais violenta da trama seja Emily Tetherow (Michelle Williams), uma mulher – figura relegada ao papel de sentimental nos Westerns, mas que aqui funciona como uma figura absorvente de todas as emoções sentidas durante a estória, sejam elas do público, sejam elas dos próprios personagens.

Ainda desta forma, muito pouco é dito pelos personagens do filme. A maioria das ações fica relegada ao olhar ou as expressões dos personagens – ou mesmo a pequenos artifícios da diretora, como vestir Stephen Meek com uma roupa vermelha-sangue, simbolizando o perigo que aquele homem é para si mesmo e para todos que o cercam. E isso é interessante por que à medida que passa, as situações ficam cada vez mais ambíguas: Aqueles homens são realmente capazes de seguir Stephen, uma pessoa que claramente não faz a menor idéia de onde vai? Porque fica estampado na testa cabeluda dele que o homem não sabe de absolutamente porra nenhuma: Toda vez que é perguntado, responde “Não sei, talvez”; “É possível”, ou algo que o valha.

De um jeito ou de outro, a auto-indulgência de Reichardt é o fator que mais tira pontos do filme. São necessárias uma hora e treze para que finalmente o índio que põe ainda mais em risco a integridade de todos apareça para trazer novo ar a trama – e ainda assim sua figura parece ser descartável, uma vez que em momento algum autoridade de Meek quanto a liderança é expressamente posta em risco – ainda que nós saibamos que é o índio quem manda agora. Talvez sua função seja a seguinte: Num microcosmo instável como o da caravana do filme, a figura do índio sirva para cristalizar tudo aquilo que é diferente – sejam diferenças culturais, ideológicas ou simplesmente um fator estranho. Stephen Meek fala de crueldades que os índios já fizeram e que ele supostamente já testemunhou, como arrancar as pálpebras de um homem e o forçar a olhar o sol enquanto prendem sua cabeça, mas segundos depois começa a surrar seu prisioneiro. Talvez seja obviedade sendo mostrada, mas também pode ser de uma genialidade incrível. A tênue linha que separa a sinceridade da dúvida foi magistralmente traçada por Reichardt. Mas como você já deve ter percebido, eu mesmo já estou em dúvidas quanto as qualidades de Meek’s Cutoff. E a verdade é que eu passei o filme inteiro com interrogações na cabeça. Ora é um filme genial, ora um exercício de estilo tedioso. E o final elaborado pelo filme confirma apenas a incrível pretensão da historinha de Kelly Reichardt. Mas isso é o que menos importa.

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