Uma das coisas mais empolgantes que eu já li em todos tempos.
(CAMPBELL, Joseph. Reflexões sobre a arte de viver. p. 79-86.)
Em todos os sistemas tradicionais, tanto do Oriente como do Ocidente, as formas mitológicas autorizadas são apresentadas em ritos aos quais o indivíduo deve responder com dedicação e fé. Mas, e se ele não o fizer? Suponha que toda a herança de formas mitológicas, teológicas e filosóficas deixe de despertar nele qualquer dessas respostas sinceras. Como ele deve se comportar? O normal seria fingir; sentir-se inadequado, passar por crente, forçar-se a acreditar e viver na imitação dos demais, uma vida falsa. Por outro lado, o autêntico caminho criativo, que eu denominaria de caminho da arte, em oposição à religião, consiste em reverter essa ordem autoritária.
Nas novelas de Joyce, como nas de Mann, a chave da progressão está na ênfase sobre o que é interiorizado... Nas palavras do herói de Joyce: "Quando a alma de um homem nasce neste país, lançam-se sobre ela redes para impedi-la de voar. Você me fala de nacionalidade, língua, religião. Eu tento voar perto dessas redes." (JOYCE)
Aquilo que para a alma são redes, lançadas sobre ela "para impedi-la de voar", podem tornar-se, para aquele que descobriu o seu próprio centro, a indumentária, escolhida livremente, de sua próxima aventura.
Que tipo de ação e experiência de vida seria adequada para alguém que passou por esse momento gratificante de experiência do Graal? Não há regras a dizer o que se pode fazer. Buda voltou e ensinou durante cinqüenta anos. Para responder a essa pergunta, seria necessário prever as circunstâncias que envolveriam essa vida posteriormente.
Depois de passar pela experiência, você precisa passar por ela no segundo seguinte, e no próximo também. O processo para atingi-la ocorre com a tradução das experiências da vida naquele eterno elixir, que é o "feliz com Ele para sempre no Céu", parte da resposta à pergunta do catecismo básico: "Por que Deus criou você?" A resposta que aprendi era: "Deus me criou para conhecê-Lo, para amá-Lo e para servi-Lo neste mundo, e para ser feliz com Ele para sempre no Céu." Traduzindo isso em metáfora: O céu é o símbolo da vida eterna que existe em você. É um aspecto básico de você mesmo na eternidade. Esse é o arrebatamento. E depois, a vida temporal pede "conhecimento, amor e serviço... de, e a, Deus", a energia geradora da vida que existe em você e em todas as coisas.
Segundo minha experiência, posso sentir que estou no Castelo do Graal quando convivo com pessoas que amo, fazendo aquilo que amo. Tenho a sensação de estar satisfeito. Mas, por deus, não é preciso muito para me fazer sentir que perdi o Castelo, que ele se foi. Um modo de perder o Castelo é ir a um coquetel. Esse é meu conceito de não estar lá de jeito nenhum.
A idéia que tenho dele é que você precisa dedicar-se continuamente a chegar lá. Pode levar algum tempo. Mesmo depois de chegar lá, é fácil distrair-se, pois o mundo tem coisas que quer que você faça e você decidiu que não fará o que o mundo quer. O problema está em encontrar um campo de ação que lhe traz essa satisfação interior, para que você não seja expulso do Castelo.
... nem todos, mesmo hoje, são do tipo apático, que precisam que seus valores de vida lhes sejam dados, lembrados aos gritos dos púlpitos e outras mídias contemporâneas de massa. Pois há, com efeito, em lugares silenciosos, grande número de pessoas dedicadas à profunda busca e ao encontro da espiritualidade, fora dos centros sociais santificados, além de sua supervisão e controle; em pequenos grupos, aqui e ali, e, mais comumente, mais tipicamente (bastando olhar ao redor para constatar), com uma ou duas pessoas, entrando na floresta nesses pontos que elas escolheram, que estão visivelmente mais escuros e nos quais não há trilha ou caminho batido.
A jornada do herói sempre começa com um chamado. De algum modo, deve aparecer um guia e dizer: "Olhe, você está na Terra do Sono. Acorde. Vamos viajar. Há todo um aspecto de sua consciência, de seu ser, que ainda não foi tocado. E então, você está em sua casa? Bem, não há muito de você aí." E ela começa.
O arauto ou anunciador da aventura... costuma ser sinistro, odioso ou aterrorizante, considerado diabólico pelo mundo; mas, se o seguirmos, será aberto um caminho pelas paredes do dia e chegaremos às sombras onde brilham as jóias.
O chamado pede que a pessoa deixe certa situação social, passe para sua própria solidão e encontre a jóia, o centro que é impossível encontrar quando se está engajado socialmente. Você é deslocado de seu centro de equilíbrio, e quando isso acontece é porque chegou a hora de partir. É nessa partida que o herói sente que alguma coisa foi perdida, e sai a sua procura. Você está prestes a cruzar o limiar de uma nova vida. É uma aventura perigosa, pois você está saindo de sua esfera de conhecimento sobre a comunidade e sobre si mesmo.
O primeiro passo, o desapego ou a introspecção, consiste em uma transferência de ênfase radical, levando do mundo externo para o interno, do macro para o microcosmo, um afastamento do desespero causado pela terra devastada e a entrada na paz do mundo (...) que existe em seu interior: este reino, pelo que a psicanálise nos informa, é precisamente o inconsciente infantil. É o reino em que entramos ao dormir: Levamo-lo em nosso íntimo para sempre. Todos os ogros e auxiliares secretos de nossas brincadeiras estão lá, toda a magia da infância. Mais importante, todas as potencialidades de vida que nunca conseguimos reproduzir na vida adulta, essas outras porções de nós mesmos, estão lá; pois essas sementes douradas não perecem.
Quando pensamos em algum motivo para não ir ou temos medo e ficamos na sociedade porque é mais seguro, os resultados são radicalmente diferentes do que acontece quando atendemos ao chamado. Se você se recusa a ir, é porque serve a alguém. Quando acontece a recusa ao chamado, há uma espécie de ressecamento, a sensação de que parte da vida se perdeu. Tudo que existe em seu íntimo sabe que você se recusou a viver uma aventura obrigatória. Acumulam-se ansiedades. O que você se recusou a vivenciar de forma positiva será vivenciado de forma negativa.
Contudo, se o que você está seguindo é sua própria e verdadeira aventura, se é algo apropriado a suas mais profundas necessidades espirituais ou a sua preparação, então guias mágicos surgirão para auxiliá-lo. Se você diz: "Todos vão fazer essa viagem este ano e por isso eu vou também", não aparecerá guia algum. Sua aventura precisa sair bem do seu interior. Se você estiver pronto para ela, abrir-se-ão portas onde antes não havia porta alguma, nem para você, nem para qualquer outra pessoa. E você precisa ter coragem. É um chamado para a aventura, o que significa nada de segurança, nada de regras.
Ao cruzar o limiar, você adentra a floresta sombria, mergulha no mar, embarca em uma viagem pelo mar noturno. Ela envolve a travessia de pedras em choque, portões estreitos ou coisas do gênero, representando o sim e o não, os pares de opostos. Haverá um momento em que você terá a impressão de que as paredes do mundo se abriram por um segundo, e você vislumbra o que existe lá. Então, pule! Vá! Geralmente, as portas fecham-se tão depressa que arrancam a ponta da cauda de seu cavalo. Você pode ser desmembrado, perder tudo o que tem. É o Cristo abandonando sua Mãe, o mundo, e indo para o Pai, o Espírito. É Jonas engolido pela baleia, tendo por mandíbulas o par de opostos.
Psicologicamente, isso representa a viagem que sai do mundo das intenções racionais e conscientes e se dirige para a zona das energias do corpo que se movem de outro centro: o centro com o qual você está tentando entrar em contato.
Como agora você está rumando para o centro, terá mais ajuda, bem como provas cada vez mais difíceis. Você precisa abdicar cada vez mais daquilo a que está apegado. O evento final é o desapego total, cede-se completamente. Você está em um lugar diametralmente oposto a suas experiências de vida e a tudo o que aprendeu na escola.
Psicologicamente, houve uma passagem para o inconsciente; no entanto, é um deslocamento para um campo de ação do qual você não conhece nada. Tudo pode acontecer, tanto favorável como desfavorável.
Quanto mais fundo você vai, e mais se aproxima da realização final, maior a resistência. Você está chegando às áreas reprimidas, e é esse sistema de repressão que você deve atravessar. E é nesse lugar, evidentemente, que a ajuda mágica é mais necessária. Aqui, o herói pode descobrir, pela primeira vez, que em todos os lugares existe um poder benigno a apoiar sua passagem sobrenatural.
Finalmente, você chega à experiência final: descobre, e torna seu, aquilo que estava faltando no lugar de onde você partiu. Essa experiência pode ser descrita de quatro maneiras diferentes.
Uma é o Casamento Sagrado, o encontro com o ser amado que causa o nascimento de sua própria vida espiritual, tendo por noiva aquilo com que você está lidando na vida: macho/fêmea, Eu/Tu, isto/aquilo.
Outra descrição é a Reconciliação com o Pai. O filho separou-se do pai, o que significa que ele tem vivido de forma inadequada a sua verdadeira herança. O filho é o aspecto atemporal e o pai é o aspecto eterno do mesmo ser. O pai representa a ordem natural da qual você foi retirado. Você está tentando descobrir seu caráter, que foi herdado de seu pai. A reconciliação consiste em fazer com que seu programa pessoal e contemporâneo entre em acordo com o impulso da vida do qual você saiu.
Depois, há a Apotheosis, a percepção de que "Sou o que todos esses outros seres são". O herói sabe que ele é Isso, a imagem do Buda, o conhecedor da verdade. "O Reino do Pai estende-se sobre a terra e os homens não o vêem." Essa é a iluminação que vem com Apotheosis. Você não tem permissão para essa percepção no cristianismo, exceto no cristianismo gnóstico. Você não pode dizer: "O estado de Cristo acha-se em mim."
Finalmente, há o Roubo de Elixir, um tipo de percepção completamente diferente. Em vez de um lento progresso através dos mistérios com a boa vontade dos poderes, há uma pressão violenta e constante e uma captura ? Prometeu e o roubo do fogo, ou o uso do LSD nos anos 1960 ? e você escapa dos poderes que não conseguiu aplacar ao longo do caminho. Este é o vôo da transformação, no qual o herói, com os poderes a sua caça, leva seus bens de volta ao mundo das luzes o mais rápido que pode. Ou ele pode ter um acesso esquizofrênico e ficar lá mesmo.
Os dois mundos, o divino e o humano, só podem ser representados de forma distinta ? diferentes como vida e morte, como dia e noite. Da terra que conhece, o herói aventura-se nas sombras; lá, realiza sua aventura, ou torna a se perder; é aprisionado ou corre perigo; e seu retorno é descrito como a saída dessa zona longínqua. Entretanto ? e eis uma importante chave para a compreensão do mito e do símbolo ?, os dois mundos são, na verdade, um só. O mundo dos deuses é uma dimensão esquecida do mundo que conhecemos.
Uma imagem do retorno que me diverte é a de um jovem que sai de Wisconsin e vai estudar arte em Nova York. Ele mora em Greenwich Village, o submundo de Manhattan. Tem diversas ninfetas a auxiliá-lo e um mestre que o orienta. Finalmente, recebe seu diploma. Depois, já dominando um estilo próprio, vai para a Rua 57 com suas pinturas e encontra o olhar frio do comerciante. O grande problema está em levar vida de volta para a terra devastada, na qual as pessoas vivem de forma não autêntica. Levar o dom ao retomar e integrá-lo em uma vida racional é muito difícil. É ainda mais difícil do que descer ao submundo. O que você precisa levar de volta é uma coisa de que o mundo carece, motivo pelo qual você foi buscá-la; e embora dela careça, o mundo não sabe disso. Ao retornar, quando você leva sua dádiva para o mundo e não encontra comitê de recepção, o que você faz? Há três reações possíveis.
Uma consiste em dizer: "Que se danem, vou voltar para o mato." Você compra um cão e um cachimbo e deixa o mato crescer no portão. Você voltou para o mundo com um presente e as pessoas olharam para você com olhos vítreos, chamaram-no de "pirado" e você se retraiu. Esta é a recusa do retorno.
A segunda: "O que eles querem?". Você tem um dom. Você pode dar-lhes o que eles querem de maneira comercial. Com isso, você terá criado um nicho para sua expressividade, mas perdeu o que tinha antes. Você tem uma carreira pública, e você renunciou à jóia.
A terceira possibilidade: tentar descobrir, no mundo ao qual você veio, algum aspecto que possa receber uma fração do dom que você tem para dar. Você tenta descobrir um modo de entregar o dom segundo os termos e as proporções apropriadas à capacidade de recebê-las. É um meio que exige boa dose de compaixão e de paciência. Procure fissuras nas paredes e só entregue a jóia aos que estão prontos para recebê-la.
Se nada funcionar, procure emprego como professor e apresente sua mensagem às pessoas que estudam com você. Se você conseguir enfiar um pequeno gancho na sociedade constituída, verá que pode transmitir seu recado. Artistas que dão aulas são exemplo disso: estão fazendo seu trabalho criativo, mas estão sendo sustentados por algo secundário a sua atividade principal. Estão recebendo rendimentos adequados e formando lentamente um grupo de seguidores.
Sua aventura não será completa se você não retomar. Existe um momento de entrar na floresta e um momento de voltar, e você sabe qual é o momento. Terá coragem? É preciso uma coragem dos diabos para retomar depois de ter passado algum tempo na mata.
Estas são formas de percepção, e a meta final é conhecer, amar e servir à vida de modo a manter-se eternamente em repouso. Esse repouso deve permear tudo. Embora você seja ativo no mundo, existe em seu íntimo um ponto de completo repouso e compostura. Quando ele não está no lugar, você sente agonia.
Quando o mundo parece desmoronar, a regra é apegar-se a sua sublimidade. É essa vida que sobrevive.
Liberdade para atravessar; de um lado para outro, a divisão do mundo... é o talento do mestre. O Dançarino Cósmico, declara Nietzsche, não se apóia pesada mente em um mesmo ponto, mas alegremente, levemente, rodopia e salta de uma posição para outra.
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quarta-feira, 7 de julho de 2004
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