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quarta-feira, 28 de julho de 2004

Sobre um poema
Herberto Helder

um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

fora existe o mundo. fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
a hora teatral da posse.
e o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

e já nenhum poder destrói o poema.
insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
e o poema faz-se contra o tempo e a carne.

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