Semana passada, eu e minha noiva passeávamos na praça quando ela escolheu um caminho sob a árvore dos pombos. Eles ficam sentados nos galhos, como passarinhos, fazendo de conta que não são ratos com asas amarradas e olhos de botão de camisa. Eu disse que não devíamos passar ali, porque... e feito, senti a coisa quentinha borrando meu braço direito. Era verde, e borrava também a bolsa da Manuela e uma ponta do casaco dela. Bukowski:
Cenas da peniteniária
I
Sempre destacavam novatos pra limpar a sujeira dos pombos, e enquanto a gente ficava limpando os desgraçados voltavam e cagavam de novo no cabelo, na cara e na roupa da gente. Não se ganhava sabão - apenas água e escovão, e tinha-se que fazer muita força pra tirar toda aquela porcaria. Mais tarde mudava-se pra oficina mecânica, onde pagavam 3 cents por hora, mas quando se era novato a primeira coisa que se fazia era limpar merda de pombo.
Eu estava junto quando Blaine teve a idéia. Viu, parado no canto, um pombo que não podia mais voar.
- Escuta - disse ele, - eu sei que esses bichos falam uns com os outros. Vamos fornecer assunto pra aquele ali. A gente dá um jeito nele e joga lá pra cima no telhado, pra contar pros outros o que tá acontecendo aqui embaixo.
- Tá legal - concordei.
Blaine se aproximou e levantou o pombo do chão. Tinha uma pequena gilete enferrujada na mão. Olhou em torno. Estávamos no canto mais escuro do pátio de exercício. Fazia muito calor e havia uma porção de presos por perto.
- Algum dos cavalheiros presentes não gostaria de me auxiliar nesta operação?
Não houve resposta.
Blaine começou a cortar a para do pombo. Homens fortes viraram as costas. Vi um ou dois, que estavam mais perto, cobrindo o rosto com a mão para não enxergar.
- Porra, caras, o que há com vocês? - gritei. - A gente já tá farto de ficar com o cabelo e os olhos cheios de merda de pombo! Vamos dar um jeito neste aqui pra, quando chegar lá em cima no telhado, poder contar pros outros: "Tem uns sacanas desgraçados lá embaixo! Não cheguem perto deles!" Este pombo vai fazer com que os outros parem de cagar na cabeça da gente!
Blaine jogou o pombo pro alto. Não me lembro mais se a coisa deu certo ou não. Só sei que, enquanto esfregava, minha escova bateu naquelas duas patas. Pareciam estranhíssimas, assim soltas, sem estarem ligadas a pombo nenhum. Continuei esfregando e misturei tudo na merda.
(in BUKOWSKI, Charles. A mulher mais linda da cidade e outras histórias.)
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