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segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Quando eu morava em Novo Hamburgo, certo dia, eu voltava para casa pela calçada, e um cãozinho passou a me seguir. Quando eu parava para atravessar a rua, ele parava também. E me olhava. Às vezes me ultrapassava, mas logo parava e olhava para trás para se certificar de que eu ainda estava na sua companhia, e ele na minha. Quando chegamos na entrada do edifício, eu disse para ele que não dava para ele ir junto comigo, dali. Entrei no prédio, triste, subi pelo elevador, entrei no apartamento. Alguns instantes mais tarde, lembrei-me de olhar pela janela, ver se ele ainda estava lá embaixo. Estava. Morto.

Hoje aconteceu parecido. Eu e a Manu estávamos sentados no nosso-banco, quando um cusco passava do outro lado da rua. Ela o achou bonito e assobiou, e eu também. Até que ele percebeu de onde vinham os chamados, e veio até nós. Era bem bonito mesmo. Aproximava-se com cautela - vira-latas espertos precisam agir assim, porque costumam ser espancados na rua. No outro lado do lago, passeava, com a dona, um cocker spaniel, que diferença em relação ao cusco: os cuscos são bem mais bonitos! Alcancei a cabeça do cusco quando ele deu um passo a mais, e percebi que seu pelo era macio. A Manuela disse que suas pernas eram elegantes, pernas compridas de galgo. "É um cão-garça!", eu disse. Cores de patas típicas de cusco, descendente de fox: amarelinhas até quase os dedos, onde começa o branco. Rabo comprido, os dois olhos com remela seca. Fred? Hugo? Decidimos chamá-lo de Húmus. Merdas que servem de adubo e dão origem à vida. Duas mãos diferentes acariciavam a cabeça do Húmus, mas as patas traseiras ainda permaneciam esticadas, revelando que ele ainda não havia relaxado, confiado totalmente em nós. Mas, logo, sim, e estava deitado ao nosso lado. Algumas dezenas de segundos e já estava na hora de ir embora, e saímos com a pequena tristeza de não termos uma câmera fotográfica para gravar a imagem do Húmus, quem possivelmente não veríamos mais. A Manuela foi para um lado, e eu fui para o outro, e ele pareceu segui-la, e eu gritei "Manu!", só que ele viera era para o meu lado, tanto que ela deve ter entendido o chamamento como um aviso de que ele decidira acompanhar a mim. Eu e ele, felizes, esperamos para atravessar a rua. Quando o sinal fechou, eu disse "Agora!". E ele atravessou comigo. Num momento ultrapassou-me, mas logo olhou para trás, meio que apavorado para ver se eu continuava com ele, e ele comigo. No canteiro, fez cocô. Foi então que descobri que não era o Húmus, mas a Húmus. A Humas. Cada vez mais se aproximava, com a nossa movimentação constante, a porta em que deveríamos nos despedir, a porta do prédio do meu trabalho. Chegando quase na escada, percebi uma distração da Humas e saí correndo. No elevador, olhei para a direção da porta e ela estava lá, cheirando o meu cheiro no chão e olhando para todos os lados do saguão, tentando me encontrar. Resolveu farejar no sentido inverso, e se foi me procurar não sei até onde.

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