- Vamos ver se não tem nada que quer ser encontrado? - disse o Suzin, simpatizante do Fatalismo.
Eu e ele nos separamos do Muriel, que foi trabalhar um pouco, e começamos a caminhar no 3º FSM. Cruzamos com uma menina que eu já tinha visto muitas vezes no caminho do Mercado até o Centro Administrativo. Ela é bonita, e ela sorria quando passava por mim e eu olhava para ela. Magra, um pouco alta, olhos azuis, suspeito de origem italiana. Não é o tipo de beleza que eu acho mais bonito, mas ela é bonita.
No fim, demos meia-volta e paramos onde verificamos, na ida, ser o centro da movimentação: uma apresentação de teatro tradicionalista gaúcho. Paramos. Não demorou muito e a menina e uma amiga pararam do nosso lado. Da esquerda para a direita: Suzin, eu, a amiga e a menina. Sem hesitar, ela disse para mim:
- Vocês não estão acampados aqui.
- Tem razão. Como é que tu sabe?
Ela me olhou de cima até embaixo e não disse mais nada. Eu e o Suzin estávamos limpos, calçávamos tênis, não estávamos com os pés descalços e empoeirados e não nos vestíamos como hippies. Mas, ela, sim. Apesar de deixar à mostra várias partes do apreciável corpo (principalmente as costas, os ombros e os braços), usava uma saia comprida riponga (bem diferente das suas roupas de cores escuras dos dias de semana), o que é sempre sinal de uma sexualidade meio mística, pouco sexual, de acordo com a minha tese.
- Tu trabalha na Borges mesmo? - perguntei. E ela ficou deslumbrada. Ou apavorada.
- Não, mas como é que tu me conhece?
- Eu passo por ti quase todos os dias.
- Ah, eu sou míope. De manhã ou de tardezinha?
- De manhã. Eu descendo e tu subindo.
Mais deslumbre. Ou pavor.
- E acho que na maioria das vezes foi embaixo do viaduto da Borges - detalhei.
Pavor! (Ou não.)
A amiga deu passos para trás; e a menina, para a esquerda. Ela notou minha camiseta recém-escrita, com trechos sobre o niilismo, do Nietzsche. Quis ler. Enquanto lia, segurei a mão dela, que ela havia movimentado na minha direção, altura da cintura.
- Eu também tenho camisetas escritas, mas fui eu que escrevi, essa tua deve ser comprada.
- Não. Fui eu que fiz. Ontem.
- Eu tenho 15 camisetas brancas. Agora 12, porque escrevi em três.
O nome dela pronuncia-se Léslei e ela é protagonista da peça Repulsa Ao Nexo (claro: repulsa ao nexo: mulheres...), em cartaz nesta quarta e quinta no Teatro Cia de Arte (Andradas, 1780).
|
|
http://soundcloud.com/input_output |
:: trabalho artístico :: projeto musical input_output | desenhos | fotografia instagram | fotografia flickr | pesquisa de discos | pesquisa de filmes | programa podcast musical ::
:: catarses musicais inativas :: hotel | blanched | o restaurante | homem que não vive da glória do passado ::
:: no pé da página :: currículo | discografia ::

Nenhum comentário:
Postar um comentário