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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Conheço vários ateus teístas. Eles se apegam a um DISCURSO ateu, mas sua visão de mundo é baseada (sem que eles se dêem por isso) num modelo teísta de existência. Eles vivem como se o universo tivesse sido “criado”, como se tivesse sido “criado” por uma inteligência e, ainda, como se essa inteligência fosse similar à humana. Eles vivem como se fossem o centro de um mundo construído pra eles, por uma inteligência que se parece com a deles. E dessa confusão eles sequer tiram proveito ascético, uma vez que não vivem assim por fé, mas por desatenção e egoísmo, eu acho. Pensam “Deus não existe!” e pronto-acabou. Param de pensar. 
Não consideram o universo como algo além de um imenso enigma-caleidoscópio para maravilhar nossos prazeres ociosos e oferecer ensejo às nossas punhetinhas semióticas. Inventam, dogmáticos, o certo e o errado. O bom e o ruim; e o melhor e o pior e o mais-ou-menos e o bem melhor que o outro e quase lá e um-pouquinho-assim-inclinado-ali-pra-esquerda-aí-mais-um-pouquinho-vai-aí-tá-PERFEITO! E aplicam |justo| e |injusto| ao infinito aleatório do mundo, como se houvesse um velhote de barba branca ali por trás, pra ser condenado ou agradecido. Pensam no vazio como algo pejorativo, por tentarem observá-lo de longe sem coragem de penetrá-lo.  
Eu não sou teísta. Antes de saber que eu era zen budista, eu já não era teísta.
Antes de descobrir que era zen budista, eu me sentia isolado. E descobrir, no virar das páginas, que minha visão de mundo tinha uma escola para si – e que tinha sido estudada, praticada, aprimorada e teorizada por gerações e gerações de pessoas muito mais talentosas do que eu – foi e tem sido como encontrar um grande amor.  
Zen budismo não é uma religião, como a maioria das pessoas as entendem. É uma prática. É uma prática baseada em certa visão de mundo, com o intuito de atingir maestria em determinada habilidade que o ser humano pode desenvolver. É algo palpável, que você pode experimentar. Não é uma questão de fé – embora a fé também seja necessária no desenvolvimento dessa habilidade. O zen budismo te pede, às vezes, que dê o “Salto de Fé” do Indiana Jones. Há um buraco vazio e você deve dar um passo à frente. Em outras palavras, eles dizem que você deve entrar na caverna do dragão; na boca do tigre. É preciso ter fé pra dar aquele passo – mas depois de pular, você pode sentir no vazio o chão prometido. Não é como se ficássemos pra sempre acreditando que há um caminho no vazio, mas sem nenhum lugar pra pisar e confirmar. Zen budismo é andar no vazio – não é ACREDITAR que se pode fazê-lo. 
(Daniel Abreu de Queiroz)

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