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sábado, 3 de setembro de 2011

Eu & Krishna Das
(para Gabriela, também fã dele e que me perguntou)


Vi o filme 'Un buda', em que Diego Rafecas escreve, dirige e atua, por indicação do Muriel Paraboni. (Rafecas tem a produtora Zazen, parceira nos filmes 'Tropa de elite'.) Não lembro se é a música de abertura ou é a de fechamento do filme que é cantada pelo Krishna Das, e foi assim que eu conheci esse músico/cantor. Adorei a voz dele e a sonoridade das músicas, que depois eu vim a saber que eram mantras.

Numa leitura desatenta da wikipédia, por anos eu achei que Krishna Das fosse Richard Alpert, parceiro de Timothy Leary no departamento de psicologia de Harvard e padrinho dos filhos dele. Até porque fiz a conexão com a lembrança da minha leitura do livro 'Flashbacks', do Leary, em que se relata que Alpert viajara para a Índia e, lá, fora rebatizado de Baba Ram Dass.

Cheguei ao ponto de gravar, como input_output, um cover de 'Jaya baghavaan', se não me engano, o mantra do filme 'Un buda' - no Brasil traduzido para 'O Buda'... Nas minhas férias mais recentes, eu e a Angela Francisca fomos para a Pousada do Engenho, em São Francisco de Paula. Na cabana, havia CDs temáticos para o hóspede escutar. Separei um que dizia "oriental beats". Adivinha o que era? Krishna Das.

Mais uma coincidência (?) do destino, minha colega de trabalho estava tentando convencer os outros colegas a irem com ela num show de mantras, em Porto Alegre, na Sociedade 25 de Julho. Show de quem? Krishna Das. Soube que ele tocou na cidade várias vezes, mas sempre ficava sabendo do show depois que ele já tinha acontecido. Ele deve vir todo ano para cá. Este ano, então, pensei, era a hora de eu vê-lo.

Fui saber o valor do ingresso, era 50 reais. Demorei para ir até um dos locais de venda, que era o restaurante Suprem, e quando fui desisti de comprar porque naquele momento achei caro 100 reais, para mim e para a Angela. Mas quando a Roberta fez aquele movimento lá no trabalho, me empolguei e disse que queria ir junto, ela perguntou se eu queria que ela comprasse os ingressos, e um impulso me fez dizer que sim, então ela comprou.

Comprou cinco ingressos: para ela e a mãe dela, para mim e a Angela e para a nossa chefe e um acompanhante. No dia do show, ela e a mã dela estavam gripadas e não foram, e a chefe iria receber visita e não foi. No fim das contas, o movimento todo serviu unicamente para que eu de fato visse o Krishna Das desta vez, este ano, depois de um desânimo inicial.

Chegamos de táxi e descemos na avenida Cristóvão Colombo, esquina com a rua Germano Petersen Júnior, onde logo em seguida fica o 25 de Julho. Uma fila grande ia até a esquina, e as pessoas estavam todas segurando um travesseiro ou uma almofada!, o que era solicitado no ingresso. Quando entramos no salão do clube, ele estava completamente lotado, o que foi uma surpresa.

Mesmo assim, bem na frente do palco as pessoas talvez não quisessem ficar para não ver o show olhando para cima ou porque seria uma passagem. Achamos que não haveria problemas e ficamos ali, na primeira fila, bem no meio - no melhor lugar do "show". Sendo padrinho dos filhos do Timothy Leary, Krishna Das também teria alguma relação com a Miranda July, que é afilhada do Leary. Eu estava prestes a ver o cara que escreveu o livro 'Be here now', que inclusive inspirou o título do terceiro disco do Oasis.

O show foi arrebatador, até porque não era apenas ou show, era um kirtan - nome dado às sessões coletivas de meditação com mantras "call and response". Pessoalmente, Das não é a pessoa que eu imaginava ser, não é um guru, não é carismático. No final de suas frases, quando ele pausava para a tradutora repetir em português, ele rachava o bico (como diz o Oscar Schell) no estilo blasé do Lou Reed. Num momento pareceu até convencido, dizendo que estava "qualified" para fazer o que estava fazendo, depois de muitas histórias sobre "um tempo atrás na Índia".

Durante e após o kirtan, a tietagem, principalmente feminina, era reveladora de espiritualidade encenada, como forma de tribo tal qual os emos, por exemplo, e do chamado materialismo espiritual. Garotas atrás de nós conversavam e davam risadinhas, e uma delas olhava para o percussionista (norte-americano como Das), que num momento piscou para ela. Tive de me concentrar em mim mesmo e na música e na relação entre mim e a música para voltar ao estado meditativo, e isto não foi difícil com Krishna Das no palco.

Os mantras entoados repetidamente caracterizam-se como minimalistas (eu adoro minimalismo, talvez até pela sua função mântrica) e como refrões grudentos, poderosíssimos, daqueles que a gente não consegue mais parar de cantar, na cabeça ou com a voz. Foram três horas de kirtan e não se vê o tempo passar, ou melhor, percebe-se a verdade objetivada, que é que o tempo não existe. Saímos felizes de lá, apesar de no banheiro eu ter me deparado com o seguinte diálogo:

- Ah, que coisa boa se aliviar!
- Sim! Que ele não me ouça, mas esta foi a melhor hora do show.

Chegando em casa, pesquisei de novo Krishna Das no Google. Foi então que descobri que o então vocalista de rock conheceu Baba Ram Dass (Richard Alpert) nos Estados Unidos e viajou com ele para a Índia, para aprender com o mesmo guru, Maharaj-ji. Em entrevistas, Das diz que foi uma criança infeliz e que na adultez ele estava perdido, deprimido. Diz que foi para a Índia e lá continuou deprimido, mas sabendo que estava indo na direção certa.

Ou seja, ele de fato não é um guru, não é um mestre, apesar de aproveitar seus kirtans para passar alguns ensinamentos entre um mantra e outro. E quanto a isso tudo ele é bastante honesto, sempre falando que ainda está à busca de algo. Na Índia, o vocalista de rock (não lembro o nome agora e não é importante e existe o Google) foi rebatizado de Krishna Das, por ter ido com o outro Dass, o que significa, segundo o que ele disse para o Serginho Groissmann nas Altas Horas, "servant of love". E parece que no meio dos anos 90 ele decidiu que para sair da depressão ele deveria cantar para os outros, o que faz divinamente.

Om namo baghavate vasudevaaya!

Um comentário:

MARDUCHA disse...

Acabei de ver o filme "Un Buda" e adorei o mantra do inicio e final do filme!! Graças ao seu comentário encontrei agr o mantra no youtube...o engraçado é que tb já conhecia o Krishna Das a recitar mantras e eu que adoro mantras e meditação com mantras, nao gostava muito dele a cantar...Até AGORA!!! Este mantra é lindo..
Obrigado pelo seu testemunho..