
Pois. Assisti à encenação de 4.48 Psychosis, da Sarah Kane, no Porto Alegre Em Cena, por uma companhia londrinense. [O título da peça eu já conhecia desde que conheci a música homônima dos Tindersticks, de um disco de 2003.] Por causa do primeiro texto que colo aqui embaixo, lido no fôlder introdutório, identifiquei-me vertiginosamente com a dramaturga depressiva que queria se matar por não enxergar saída, aos 28 anos. Eu enxerguei Sarah Kane, mesmo que digam que a peça não é uma biografia, eu a enxerguei numa clínica ouvindo as vozes do surto psicótico. Eu fui Sarah Kane. (Mesmo não gostando da montagem, que tem uma boa porção de antiexemplos, na opinião minhas e de outros lehmannianos, defensores do teatro pós-dramático.)
O que estas peças dizem sobre nós
David Greig
"Sarah Kane tornou-se conhecida pelo modo como a sua carreira começou, com a extraordinária polêmica que provocou sua peça de estreia, Blasted, e pelo modo como acabou: o suicídio e a encenação póstuma de sua quinta e última peça, Psicose 4h48. Ambos foram momentos chocantes e bem definidos do teatro inglês recente e as suas sombras irão pairar sobre qualquer leitura que se faça sobre sua obra. Blasted, O Amor de Fedra, Purificados, Ânsia e Psicose 4h48 formam um corpo de trabalho que expandiu imprudentemente as fronteiras naturalistas do teatro inglês. Kane foi perseguida a vida toda por acessos depressivos. A cada nova ocorrência esses acessos a tornavam mais debilitada, até finalmente a levarem ao suicídio em fevereiro de 1999, aos 28 anos de idade, com o cadarço do tênis, no banheiro da clínica psiquiátrica. No texto, não existem vozes delineadas e nenhuma indicação no texto sobre o número ou sexo dos personagens. A mesma fragmentação do eu, o perder de limites que a mente psicótica experimenta é refletida literalmente na estrutura da peça. Toda a peça descreve a paisagem interior de uma mente suicida. O suicídio coloca sempre uma questão, e o suicídio de um escritor deixa material que os vivos podem apenas ler atentamente à procura de respostas. Inevitavelmente, a sombra da morte de Kane recairá sobre suas peças. Mas o desafio para o leitor das últimas peças de Kane não é descobrir a autora que está por detrás das palavras, mas sim, atentar sobre o que há de nós por detrás dessas peças."
4.48 PSYCHOSIS
Sarah Kane
[Algumas colagens selecionadas por mim da tradução portuguesa.]
- Fizeste planos?
- Tomar comprimidos, cortar os pulsos, depois enforcar-me.
- Tudo ao mesmo tempo?
- De certeza que não podia ser reconstituído como um grito de ajuda.
(Silêncio.)
- Não ia resultar.
- Claro que ia.
- Não ia resultar. Sentias-te sonolenta dos comprimidos e não tinhas energia para cortar os pulsos.
(Silêncio.)
- Se ficares sozinha achas que podes fazer mal a ti própria?
- Acho que sim e isso assusta-me.
- Pode ser uma espécie de protecção?
- Sim. É o medo que me afasta da linha do comboio. Só espero, por amor de Deus, que a morte seja a merda do fim. Sinto-me com oitenta anos. Estou cansada da vida, a minha mente quer morrer.
- Isso é uma metáfora, não a realidade.
- É um símile.
- Não é a realidade.
- Não é uma metáfora, é um símile, mas mesmo que fosse, aquilo que define uma metáfora é ela ser real.
(Um longo silêncio.)
- Não tens oitenta anos.
(Silêncio.)
- Tens?
(Um silêncio.)
Ou tens?
(Um longo silêncio.)
- Desprezas todas as pessoas infelizes ou sou só eu em particular?
- Não te desprezo. A culpa não é tua. Tu estás doente.
- Não acho.
- Não?
- Não. Estou deprimida. A depressão é ira. Foi o que tu fizeste, quem lá estava e quem culpas.
- Quem é que tu estás a culpar?
- A mim.
- Epá, o que é que te aconteceu ao braço?
- Cortei-o.
- Isso é para chamar a atenção, que coisa tão infantil. Aliviou-te?
- Não.
- Aliviou-te?
(Silêncio.)
Aliviou-te?
- Não.
- Não percebo por que é que fizeste isso?
- Então pergunta.
- Aliviou a tensão?
(Um longo silêncio.)
Posso ver?
- Não.
- Gostava de ver, para ver se está infectado.
- Não.
(Silêncio.)
- Sabia que podias fazer isso. Há muitas pessoas que fazem. Alivia a tensão.
- Já alguma vez fizeste?
- ...
- Não. És sensível e são demais merda. Não sei onde é que tu leste isso, mas não alivia a tensão.
(Silêncio.)
Por que é que não me perguntas porquê?
Por que é que eu cortei o braço?
- Queres dizer-me?
- Quero.
- Então diz-me.
- PERGUNTA.
ME.
PORQUÊ.
(Um longo silêncio.)
- Por que é que cortaste o braço?
- Porque me sinto muito bem merda. Porque me sinto fantástica merda.
- Posso ver?
- Podes ver. Mas não toques.
- (Olha) Achas que estás doente?
- Não.
- Eu acho. A culpa não é tua. Mas tens de responsabilizar-te pelas tuas acções. Por favor não voltes a fazê-lo.
Não consigo estar sozinha.
Não consigo estar com os outros.
Diagnóstico: desgosto patológico.
Uma linha picotada na garganta
CORTE POR AQUI
Só sei
a neve
e um desespero negro
Cai neve preta

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