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sexta-feira, 17 de setembro de 2010


Pierre Boulez


FOUCAULT, Michel. Michel Foucault/Pierre Boulez - A música contemporânea e o público. In: ____. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Ditos & Escritos III. Rio de Janeiro: Forense.

Michel Foucault - Tenho a impressão de que muitos dos elementos destinados a dar acesso à música acabam empobrecendo a relação que se tem com ela. Há um mecanismo quantitativo em jogo. Uma certa eventualidade na relação com a música poderia preservar uma disponibilidade da escuta, e uma flexibilidade da audição. Mas, quanto mais essa relação é frequente (rádio, discos, cassetes), mais familiaridades se criam; hábitos se cristalizam; o mais frequente se torna o mais aceitável, e rapidamente o único admissível. Produz-se uma "facilitação", como diriam os neurologistas. Evidentemente, as leis do mercado acabam por se aplicar facilmente a esse mecanismo simples. O que se põe à disposição do público é o que ele escuta. E o que de fato ele acaba escutando, porque é o que é lhe proposto, reforça um certo gosto, estabelece os limites de uma capacidade bem definida de audição, delimita cada vez mais um esquema de escuta. Será necessário satisfazer essa expectativa etc. Assim, a produção comercial, a crítica, os concertos, tudo o que aumenta o contato do público com a música tende a tornar mais difícil a percepção do novo. Certamente, o processo não é unívoco. E também é verdade que a familiaridade crescente com a música amplia a capacidade de escuta e dá acesso a diferenciações possíveis, mas esse fenômeno tende a se produzir somente à margem; em todo caso, ele pode permanecer secundário em relação ao grande reforço do adquirido, se não houver um reforço para vencer as familiaridades. Não defendo, e isso é evidente, uma rarefação da relação com a música, mas é preciso compreender que o dia-a-dia dessa relação, com todas as injunções econômicas que a ela estão associadas, pode ter esse efeito paradoxal de enrijecer a tradição. Não é preciso dar acesso à música mais rara, mas a uma convivência com ela menos determinada pelos hábitos e familiaridades.

Pierre Boulez - Progressivamente, os elementos asseguradores da música, como o vocabulário baseado em acordes "classificados", os já nomeados, desapareceram da música "séria"; a evolução se deu no sentido de uma renovação sempre mais radical tanto na forma das obras quanto em sua linguagem. As obras tenderam a se tornar acontecimentos singulares que têm certamente seus antecedentes, mas são irredutíveis a qualquer esquema condutor admitido, a priori, por todos., o que cria, certamente, um entrave para a compreensão imediata. Espera-se que o ouvinte se familiarize com o percurso da obra, e que para isso ele deva ouvi-la um certo número de vezes; tendo o percurso se tornado familiar, a compreensão da obra, a percepção do que ela quer exprimir podem encontrar um terreno propício ao seu desabrochar. Há cada vez menos chances de que o primeiro contato possa despertar a percepção e a compreensão. É possível haver uma adesão espontânea, pela força da mensagem, da qualidade da escrita, da beleza sonora, da legibilidade das marcas, mas a compreensão profunda só pode vir da repetição da leitura, do percurso refeito, dessa repetição tomando o lugar do esquema aceito tal como outrora ele era praticado. Os esquemas - de vocabulário, de forma - que foram banidos da música dita séria, se refugiaram em certas formas populares, nos objetos de consumo musical. Ali, ainda se cria de acordo com os gêneros, segundo as tipologias admitidas. O conservadorismo não é necessariamente encontrado onde é esperado; é inegável que um certo conservadorismo de forma e de linguagem se encontra na base de todas as produções comerciais adotadas com grande entusiasmo por gerações que de alguma forma se consideram conservadoras.

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