Cheguei ao Teatro de Arena um pouco atrasado. A porta estava chaveada, e o ruído já estava à toda. Tive que chamar o porteiro através da janela encostada na escadaria do viaduto da Borges. Entrei, paguei e ganhei protetores auriculares, aqueles usados por pedreiros em construção pesada ou operários em fábrica de carro. Sentimos imediata necessidade de usar os protetores. Lá dentro estava em ação Abesta, fazendo um ruído extremo e praticamente não variável, de modo que fiquei encasquetado com o porquê de os catarinenses estarem mexendo sem parar nos potenciômetros dos pedais e aparelhos instalados em duas mesinhas. Havia um deles, depois fiquei sabendo que era o "agitador Zimmer", que usava um capacete de caveira e batia num gongo. E também um trumpetista que parecia estar entediado e que tinha participação modesta. O Teatro de Arena é bem bonito: pequeno e com uma arena quadrada, cercada em três dos lados por arquibancadas estofadas. Além de nós, das esposas dos artistas e da organização, quem estava na platéia eram dois integrantes dos Massa - Diego e Kiko - e o trio da Wonkavision, fato que me deixou também confuso: o pop extremo interessado no ruído extremo? Acabada a única e longa música - todos os artistas que vimos (e perdemos o primeiro, do Edith10sdat) tocaram uma única e longa "música" - o show seguinte foi do gaúcho Cine Victoria (a.k.a. Guilherme Darisbo) com o recém radicado aqui Lavajato (a.k.a. D). O meu preferido, principalmente porque a performance do D foi a mais humana, experimentando com voz e dois pedais colados com fita crepe à coxa. Não gostei tanto da parte teatral de ele estar com um saco plástico asfixiante grudado em volta da cabeça e da cara. Depois, veio o "dark ambient" do carioca (dell.tree) (a.k.a. Marcelo Mendes) que tinha muita aparelhagem, muita mesma, mas o som continuava abstrato demais para mim. Preciso de repetição. Ritmo. Alguma melodia. Então comecei a engatilhar alguns escambos. Acabei com dois discos do (dell.tree), um com capa artesanal genial e o outro é um daqueles micro-CDs; um disco de "músicas inacabadas" para serem usadas por outras pessoas e transformadas em música pronta, do Cine Victoria; um disco do Cinedia (Cine Vicoria + O Dia); e um CD e dois vinis da catarinense Migué Records - mais para o lado do rock tradicional.
Balanço.
Foi um evento histórico em Porto Alegre, não-acostumada a vanguarda no rock (noise eletrônico acho que pode ser enquadrado em rock de vanguarda). O equipamento de som era perfeito, e o lugar também. O público era pequeno, mas suficiente para uma troca de figurinhas, que é um dos motores dessa cena noise brasileira. Eu ainda sinto falta do meio termo: no Brasil, ou há bandas tradicionais, ou projetos experimentais demais, que dão a impressão aos ouvintes de que não é necessário talento especial. (E eu acho que é isso mesmo que muitos deles querem passar, mas, você sabe, eu sou aquele exigente de sempre.) É mais fácil ficar juntando ruídos apenas de forma caótica, do que planejar estruturas, sejam elas complexas ou não. Mas já é um começo, e começos são sempre incipientes. Se não houvesse um começo, nunca haveria um desenvolvimento. O pouquíssimo público deve ser sinal de que muito poucos porto-alegrenses estão interessados em ousar e conhecer a ousadia, e eu percebo isso no dia-a-dia.
Já a Noisy estava bem animada do início ao fim, não houve discotecário prejudicado e não teve atrolho. Acredito que a apoteose catártica coletiva tenha sido Vitalic, dos Chemical Brothers, disparada pelo Tony. A ordem foi Éverton, eu, Tony e João. Meu setlist foi exatamente o seguinte.
Super Furry Animals - Northern lites*
Iggy And The Stooges - Search and destroy
Radiohead - Idioteque
Pulp - Like a friend*
The Fall - Oh! brother*
Man... Or Astro-man? - Interstellar hardrive
The Chemical Brothers - Block rockin' beats
Beck - The new pollution
Butter 08 - 9mm*
Nirvana - Bleed* [cantada em uníssono!]
Spacehog - Spacehog
Madonna - Into the groove
Sparklehorse - Ghost of his smile
Pearl Jam - Brain of J*
The Smashing Pumpkins - 1979
Gang Of Four - Damage goods
PJ Harvey - Long snake moan*
input_output - Joelho
* Músicas em que pessoas vieram me perguntar qual era.
- Tu tem 'The Unbelievable'?
- Não.
- O que é isso?
- Pearl Jam.
- Pearl Jam? É dos últimos?
- É do Yield.
- Os últimos são melhores, né?
- [Tive preguiça de responder que "os do meio".]
- Tem Prodigy?
- Não.
- Tu não vai ter nada do que eu pedir, né?
- Eu só trouxe isso. E da outra vez eu toquei Prodigy, hoje toquei Chemical Brothers.
- O que é isso? Soundgarden?
- PJ Harvey. [Mostrei a capa.]
- Eu sei. Tenho aquele from the city. Aquele é o melhor.
João tocou o Prodigy com a Juliette Lewis no vocal.
- Ó, tu tinha pedido o Prodigy.
- Tu vai tocar depois?
- Não, é essa que tá tocando. Com a Juliette Lewis no vocal.
Ele fez cara feia.
Chato.
***
"A Poa Róque Town e o Clube de Cinema de Porto Alegre fazem a festa oficial de encerramento do I Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre, no sábado 22, a partir das 23h, no Beco. Dani Hyde (Róque Town) convida Antonio Xerxenesky, André Kleinert (cineclubistas), e Pedro Sevante, todos amantes fervorosos da sétima arte, para comporem a trilha sonora da noite (...)".
Poa Róque Town apresenta
Festa de encerramento do
I Festival de Cinema Fantástico de Porto Alegre
22 de outubro, sábado, 23h
Beco (João Pessoa, 203)
R$ 5 ingresso + R$ 5 consumo
Estacionamento no local, gratuito, com segurança
***
A teoria do caos é descrita como sensibilidade extrema às condições iniciais. Diferenças mínimas das condições iniciais levam o mesmo sistema a gerar resultados diversos.
O caos psicológico não é muito diferente do caos em termos de física. Apenas acrescenta-se o componente humano. O caos questiona a possibilidade de fazermos previsões de longo prazo de qualquer sistema.
Isso nos leva à teoria do efeito borboleta. Uma cadeia de eventos aparentemente sem importância que muda os acontecimentos através do tempo e nos leva a um resultado imprevisível. Tudo na vida é imprevisível, mas o que é um evento sem importância?
Na teoria do caos a infinidade de eventos nos impede de dizer que como sua mãe fez isso a você quando você era criança ou como você aprendeu a usar penico aos 2 anos, o efeito é esse. O efeito não é linear. Seria fácil tratar da teoria do caos com psicoterapia se fosse linear, mas não é. Tem a ver com um número infinito e complexo de eventos dentro do sistema que aconteceram na época para qual a pessoa regride.
"Now that science is looking, chaos seems to be everywhere." (James Gleick)
Sem dúvida o caos é o estado natural dos seres humanos. Nos referimos muito ao controle de nossas vidas. O existencialismo reza que não nascemos somos atirados num mundo bastante caótico. Refiro-me ao caos em termos leigos. Não à Teoria do Caos. Somos atirados num ambiente caótico difícil de administrar. Precisamos exercer opções a toda hora para que o caos onde estamos faça algum sentido. [É a sensação de controle. A arte é tão fascinante ao artista também porque a obra é um mundo fechado, totalmente criado e controlado pelo autor.]
O caminho do nascimento à morte é uma trajetória. É definido como imprevisível. Não há garantia de nada. As coisas dão errado. Enfrentamos ações maliciosas. Coisas maravilhosas acontecem. Como lidamos com isso reflete o que somos e o que nos tornamos. Essa é a trajetória.
Como se pode fazer previsões de longo prazo em vista dos componentes finitos de um sistema em vista da complexidade do ser humano. Um entende de um jeito, outro reage de outro modo. O efeito de uma pessoa em outra são infinitos. Não podemos fazer previsões de longo prazo.
"Chaos and order are not enemies, only opposites." (Richard Carriott)
Querer levantar informação que evitamos saber a vida inteira porque temos medo que altere o sistema que estabeleça o caos nos sistemas é um desafio muito atraente.
Somos impactados por muitas pequenas informações que nem sempre vemos. Mas se você estiver ligeiramente deprimido ou feliz se pensar, verá que está assim por causa de um pequeno evento. Pode ser algo muito bonito que você viu e tal faz com que você se sinta bem. Somos muito sensíveis. Eu diria que somos caóticos.
Se eu sentir medo de ser assaltado quando andar nas ruas de Nova York vou me tornar muito defensivo. Ao me tornar defensivo, eu me torno um alvo e portanto passo a atrair aquilo que tenho medo. O caos e o medo do caos, atraem mais caos.
"Chaos was the law of nature; order was the dream of man." Henry Brooks Adams
Todos nós queremos controlar nossas vidas para podermos nos sentir seguros. Com sorte tomamos decisões boas sobre o que é seguro escolher parceiros que nos façam sentir seguros e confiantes e que nossas decisões nos façam sentir segurança e confiança. Fora isso aperte o cinto. Preste atenção. Saiba quem você é e qual é o sentido de tudo: eu penso, sinto, dou valor. E apronte-se para crescer.
Será que o caos é ruim? Se vivermos em uma sociedade que entende e convive com o caos estaremos tratando do conceito psicológico de espontaneidade conseguir viver o momento poder conviver com a realidade e não tentar controlar os fatos. Se pudermos viver o momento, conviver com o atual que é outro termo psicológico. Se pudermos aceitar os fatos não seria tão necessário tentar controlar o que o futuro pode trazer.
"Chaos is a friend of mine." (Bob dylan)
Ao se tornar defensivo, você acaba por se tornar um alvo e por tanto passa a atrair aquilo que se teme. O caos e o medo do caos atraem mais caos.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2005
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