"Nossa alegria diante dum sistema metafísico, nossa satisfação em presença duma construção do pensamento, em que a organização espiritual do mundo se mostra num conjunto lógico, coerente a harmônico, sempre dependem eminentemente da estética; têm a mesma origem que o prazer, que a alta satisfação, sempre serena afinal, que a atividade artística nos proporciona quando cria a ordem e a forma a nos permite abranger com a vista o caos da vida, dando-lhe transparência. A verdade e a beleza devem ser postas em relação.
"Todas as vezes que Schopenhauer evoca o sofrimento do mundo, a lamentável angústia e a fúria de viver das múltiplas encarnações do querer (ele trata disso freqüentemente e com minúcias), sua já excepcional eloqüência e seu gênio de escritor atingem os cimos mais resplandescentes e mais gélidos de sua perfeição. Fala com uma veemência decidida, com o cunho da experiência, no tom de quem sabe, de quem com isso se aterroriza e é arrebatado pela sua verdade potente." (Thomas Mann)
"O tempo é a imagem móvel da eternidade." (Platão)
"Toda a nossa experiência do mundo está submetida a três leis e condições: tempo, espaço, causalidade. A concepção das coisas que nos chega em imagem, condicionada por essas três condições, se chama, pois imanente; transcendente seria a que poderíamos atingir se a razão, voltando-se sobre si mesma, se tornasse crítica da razão." (Kant)
"As coisas do mundo, ensinava o pensador grego [Platão], não têm existência verdadeira; sempre em 'devenir', jamais são. Não valem como objetos do verdadeiro conhecimento, pois só existe conhecimento que é em si, por si a sem mudança; ora, em sua multiplicidade a na relatividade de seu ser de empréstimo, que bem se poderia chamar um não-ser, jamais podem ser senão o objeto duma opinião provocada por uma sensação. São sombras. O que só é verdadeiramente, o que não cessa de ser, sem jamais se transformar nem se perder, são os arquétipos [mitos, diria Campbell], realidades a que essas sombras correspondem, são as Idéias eternas, os protótipos de todas as coisas. Ignoram estes a multiplicidade, porque, por essência, cada um deles é único, é precisamente o original, cujas cópias ou sombras não são mais que coisas ostentando o mesmo nome que ele, coisas isoladas, perecíveis e semelhantes. (...)
"Na verdade, é ele [o artista] quem, pleno de alegria sensual e pecaminosa, pode sentir-se preso aos fenômenos do mundo, às imagens do mundo, pois sabe que pertence ao mesmo tempo ao mundo da Idéia e do Espírito, porque é o Mago, graças ao qual podem estes nos aparecer através dos fenômenos. Surge aqui a missão mediatária do artista, seu papel de mediador nas encantações herméticas entre o mundo do alto e o mundo de baixo, entre a Idéia e o fenômeno, o espírito e a sensualidade.
"A sensibilidade, os nervos, o cérebro [para Schopenhauer] seriam a expressão da vontade num dado momento de sua objetivação e a representação resultante, igualmente destinada a seu serviço, não teria mais seu fim em si, mas constituiria um simples meio, um instrumento, que pertmitiria à vontade atender a seus fins, exatamente como outros órgãos como o aparelho sexual. (...) A inteligência - independentemente de sua tarefa, que consiste em projetar um pouco de luz na vizinhança imediata da vontade e em ajudá-la em sua luta pela existência num grau mais elevado - tem por única missão servir de porta-voz à vontade, justificá-la, provê-la de motivos 'morais', em suma, racionalizar nossos instintos.
"A dor é o elemento positivo; a alegria não é mais que sua interrupção, um elemento negativo pois, e logo se transforma em tédio.
"Contudo, pode-se salvar o mundo da miséria, do erro, do engano e da penitência que é a vida; e a salvação está ao alcance do homem, que realiza a mais alta e a mais evoluída objetivação da vontade, mas também, por esta mesma razão, a mais capaz de sofrer e a mais rica de sofrimento. Crê-se que isso possa ser a morte? Muito falta para tal. A morte pertence inteiramente ao domínio dos fenômenos e do empírico, à esfera da multiplicidade e da mudança; nenhum contacto tem com a realidade transcendente e verdadeira. O que morre conosco é unicamente a individuação; a vontade, que é vontade de viver e forma o núcleo de nosso ser, não é sequer atingida por ela; tão demoradamente quanto se afirma a si mesma, poderá sempre encontrar os caminhos que dão acesso à vida. Resulta daí, digamo-lo de passagem, que o suicídio é absurdo e imoral, pois nada conserta: o que o indivíduo nega e suprime, destruindo-se, é unicamente sua individuação, mas não o erro original, a vontade de viver, que, pelo suicídio, não fez mais que tender para uma realização mais feliz. A salvação, pois, de maneira alguma se chama "morte"; liga-se a condição muito diferente. Ninguém imagina a que mediador devemos eventualmente esta bênção. É à inteligência.
"Mas a inteligência não é o produto da vontade, seu instrumento, sua luz na escuridão, a serva que lhe foi reservada? É assim e assim continua. Nem sempre, porém, nem em todos os casos. Em circunstâncias particularmente felizes - oh! pode-se mesmo dizer bem-aventuradas - em circunstâncias excepcionais por conseqüência, esse criado que é o intelecto, esse pobre servente pode tornar-se mestre de seu mestre; pode pregar-lhe uma peça, emancipar-se, tornar-se autônomo e, ao menos durante algum tempo, estabelecer sobre o mundo sua soberania. (...)
"Há um único estado em que esse milagre se realiza: o conhecimento se separa violentamente da vontade, o sujeito deixa de ser um simples indivíduo, tornando-se, puro e sem vontade, o sujeito do conhecimento. Chama-se-lhe estado estético. É uma das maiores e mais profundas experiências de Schopenhauer. (...) O prazer estético seria puro, desinteressado, livre do querer. (...)
"O estado de artista, julgava ele, a parada diante duma imagem iluminada pela Idéia, não representaria a salvação definitiva. O estado estético seria apenas uma etapa; deveria levar-nos a estado mais perfeito, em que a vontade, que no primeiro não havia encontrado mais que passageira satisfação, seria para sempre submergida pelos raios do conhecimento, expulsa do terreno e aniquilada. 0 acabamento do artista seria o santo." (Thomas Mann)
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