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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Os proprietários do poder
(Maurício Puls)

De uns tempos para cá o PMDB se tornou o grande vilão da política brasileira. É acusado de se oferecer a qualquer governo, trocando votos no Legislativo por um punhado de cargos no Executivo. Além de corromper a administração pública, seu fisiologismo atrelaria o país a uma agenda mesquinha, impedindo transformações estruturais.

De onde vem esse poder maligno? Das urnas. É o partido que mais elegeu governadores, prefeitos e parlamentares desde a redemocratização do país. Ele espelha a vontade do eleitorado nacional – mas mostra o que esse eleitorado realmente é, não o que ele gostaria de ser.

Talvez por isso o PMDB tenha sido tão amaldiçoado nas manifestações de junho: a mão que vota é a mesma que apedreja. Tanto é assim que hoje a legenda lidera as eleições para governador em oito Estados, inclusive no Rio de Janeiro. O que explica esse ressentimento?

Bem ou mal, o PMDB entrega ao eleitor o prato de lentilhas que promete: leva prefeitos aos ministérios, propõe emendas destinando verbas aos municípios, inaugura escolas, postos de saúde, quadras esportivas.

Para entregar as lentilhas, precisa ter acesso ao Executivo – tanto para dirigir as ações governamentais como para liberar recursos para seus redutos. E tem acesso fácil ao Executivo porque está no centro do espectro político, o que lhe dá flexibilidade suficiente para fechar alianças à direita e à esquerda.

A esquerda quer promover a igualdade, e por isso aprova leis em defesa dos trabalhadores. A direita quer preservar as diferenças, logo adota medidas para beneficiar os empresários. Um partido de centro aceita conceder benefícios aos trabalhadores e incentivos aos empresários, desde que tudo fique como está.

No Brasil, o primeiro grande partido de centro foi o antigo PSD (1945-1965), "a voz do Brasil unido". E do PSD saíram os principais dirigentes do moderno PMDB, Ulysses Guimarães (SP) e Tancredo Neves (MG).

Qual é o substrato social de um partido de centro? A propriedade fundiária. Os proprietários fundiários não se identificam nem com os empregadores nem com os empregados, mas formam uma classe à parte. Suas fontes de renda não são impactadas diretamente por variações nos lucros e nos salários, daí sua plasticidade política.

Desalojados da Presidência pela Revolução de 1930, os proprietários fundiários se concentraram no Congresso – hoje os ruralistas representam mais da metade da bancada do PMDB. Como não têm mais força para comandar o país – há quanto tempo o partido não lança um candidato a presidente? –, eles procuram barrar, no Legislativo, todas as iniciativas que possam prejudicá-los.

Em geral conseguem. O PSD impediu a aprovação da reforma agrária no governo João Goulart, e o mesmo fez o PMDB na Assembleia Constituinte. Há dois anos, os ruralistas derrotaram o Planalto em todas as votações sobre o Código Florestal.

É difícil governar sem o centro: o PSD abandonou Getúlio em 1954, fez oposição a Jânio em 1961, rompeu com Jango em 1964. Sabotado pelo PMDB, Collor caiu em 1992.

Após a eleição, o presidente só tem duas opções: ter ou não ter maioria. Quem decidiu a parada foi o eleitor. Este reclama a todo instante que deseja mudar. Mas, quando é chamado a agir, prefere pedir outro prato de lentilhas ao fazendeiro.

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