A fala de ninguém: sobre a retórica de Aécio
(Saulo Dourado)
(...)
A razão defendida promove sim a análise mais fina da realidade, mas se utilizada a favor da realidade: ela também pode ser um modo de se estar fora, acima dela, e não tocá-la apesar de fingir com eficiência que sim. Quem confia tanto no poder do discurso, o que não vale apenas para os candidatos, talvez já tenha descolado as palavras das coisas e sabe que pode manusear as coisas por uma via de interesse, se as palavras apontarem para outra. Ou ter a justificativa pronta antes de qualquer acontecimento, a ponto de enquadrá-lo previamente no que se deseja. Pelo olhar triunfante, o meio sorriso, a ironia programada, que se repetem entre perguntas e respostas, tenho em Aécio a sensação de que as coisas mesmas não importam, só os fins. Até quando relatou uma história de sua avó, no debate da Globo, se comunicava como quem ensaia e sabe dos efeitos que vai causar, sem ter sequer a imagem do conteúdo entre os seus olhos.
A retórica é uma técnica antiga, dos gregos ainda, apropriada aos debates na ágora. Desde lá, sabe-se que o manuseio habilidoso pode convencer multidões em causa própria e que alguns homens, ditos os sofistas, eram capazes de defender tão bem quanto atacar um mesmo conteúdo. Votações inteiras, que diziam de assuntos reais, como guerras e condenações, poderiam ser decididas por jogos de palavras, onde nem as guerras nem as condenações entravam de fato, e sim as tendências e os interesses periféricos. Quem os denunciou foi Sócrates, com o ardil de desenvolver o seu próprio método, que conseguia colocar as palavras do oponente contra ele mesmo e provar o vazio do conteúdo. Dilma não é nenhum Sócrates: não sabe retirar o feitiço do oponente, evidenciar o jogo. Ela responde a Aécio como se ele de fato lhe estivesse falando, como se ele estivesse interessado nos temas e não nos impactos. Os recursos de Aécio ficam ainda mais em evidência neste vai-e-vem, e ele parece ainda mais habilidoso em dispor de qualquer ideia ante qualquer outra. Dilma assim ora acerta ora erra. No entanto, este “descuido”, que a faz parecer acreditar que o outro está presente, é o que a torna presente. A variação e a preocupação em conseguir alguma realidade ao expressar-se, ainda que equivocada, mostra o mínimo de contato, e é o contato que eu ao menos espero da política.
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sexta-feira, 17 de outubro de 2014
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