Alguém que parte, alguém que fica
Em Elena, a diretora estreante Petra Costa reconstitui a trajetória
da irmã, que queria ser atriz em Nova York e se suicidou.
(Nina Rahe/Bravo)
Alguns anos depois da morte de Elena, você se deparou com um diário dela. Gostaria que comentasse um pouco sobre esse episódio. As anotações fizeram com que a enxergasse de maneira diferente?
Sim, totalmente. Nos diários, Elena escrevia sobre coisas que eu também sentia. Eu tinha 17 anos quando os encontrei, a mesma idade que minha irmã tinha quando os escreveu. Tive a sensação de estar lendo um diário meu que não me lembrava de haver escrito. E o trecho que mais me encantou foi um em que ela dizia que na vida sentia que era sempre duas: uma Elena observadora e uma Elena realizadora. A observadora sempre censurando a outra, que era a que tentava viver. Eu até então nunca tinha encontrado palavras para expressar essa sensação tão presente também na minha vida. O que Elena buscava na arte, ela dizia, eram os momentos em que se tornava uma só. Era assim quando ela dançava, por exemplo. Me identifiquei com muitas passagens... Foi hipnotizante e, ao mesmo tempo, angustiante perceber que tínhamos tanto em comum. Começou a crescer em mim o medo de que o que havia acontecido com ela também pudesse acontecer comigo. Foi como achar um livro secreto sobre meu próprio destino. Até ler aqueles diários, o que eu tinha com Elena era a relação com uma lenda, com alguém muito diferente de mim. Pela primeira vez, notei o quanto tínhamos coisas em comum.
Quais foram as principais dificuldades e as principais surpresas ao remexer nas memórias da família para contar a trajetória de sua irmã?
Ler os diários e as cartas, assistir a vídeos gravados por ela, entrevistar cerca de 50 pessoas que conviveram com minha irmã, tudo isso fez com que Elena tomasse forma, ganhasse corpo, renascesse um pouco pra mim. Ganhei uma irmã que eu nunca tinha conhecido com tamanha profundidade. Mas logo percebi que não era real, que ela nunca mais iria voltar. Foi um processo de ganhá-la e perdê-la repetidamente, inúmeras vezes. Algo ao mesmo tempo prazeroso e devastador. É como ver a pessoa, querer tocá-la, para no instante seguinte perceber que ela é um fantasma.
Para fazer o documentário você recorreu a uma série de vídeos. Você já os tinha visto antes da decisão de fazer o longa?
Esses vídeos estavam mofando na casa da minha mãe, na garagem, misturados a diversos VHS antigos, entre filmes da Shirley Temple e da Jane Fonda, completamente esquecidos. Sabia que eles existiam e cheguei a ver duas ou três cenas em diferentes momentos da minha vida. O que eu não tinha era a dimensão do volume de imagens que havia ali. Foi uma surpresa enorme me deparar com quase 50 horas de vídeos caseiros, dos quais pelo menos 20 horas tinham sido gravadas no ano em que nasci, o mesmo ano em que Elena ganhou sua primeira câmera. Foi uma possibilidade de viajar no tempo e voltar para o começo dos anos 80, quando minha família vivia momentos dourados, extremamente felizes. E pude conhecer muito da minha irmã por meio dessas imagens, porque ela gravava muito, o tempo todo, dos 13 aos 15 anos. Esse acervo foi fundamental para a realização do filme.
O que as imagens lhe trouxeram e de que forma fizeram você entender o que havia acontecido?
Essas imagens não ajudaram muito na compreensão do que aconteceu com Elena porque elas foram interrompidas muito tempo antes. Elena praticamente parou de filmar quando tinha 15 anos. Depois disso, não há mais cenas de família, nenhuma filmagem da intimidade, apenas um teste de elenco e uma ou outra cena de viagem. O que me ajudou a compor o cenário da tristeza e da depressão de Elena, na fase em que ela tinha de 19 a 20 anos, foram os diários que ela gravava em fitas cassete. De qualquer maneira, os vídeos me ajudaram a construir um perfil muito oportuno da minha irmã. Me mostraram uma Elena extrovertida, eufórica, criativa. Também revelaram o carinho que tinha por mim, nas diversas cenas em que ela aparece comigo, me embalando, brincando, dançando comigo.
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
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