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terça-feira, 12 de maio de 2009

Nem a pergunta quando parares de rir
(Juarez Guedes Cruz)

Considerando que o meu computador (e o de todo mundo) tem uma memória quase absoluta, eu o chamo de Funes. Pois bem, eu anoto no Funes algumas coisas que penso sobre o que me acontece durante o dia e, numa certa hora, eu escrevo um conto como esse que vocês vão ler e que, aviso para os desmemoriados, começa com a frase Considerando que o meu computador (e o de todo mundo) tem uma memória quase absoluta, eu o chamo de Funes, e termina (já vou avisando para os mais apressados, que vão direto para a última linha) com a frase Deixando em quem escreve a sensação muito dolorosa de que não precisava ter lembrado nada disso.

E o anotado ontem, já na madrugada, foi que o correto, em bom português, seria perguntar quando parares de rir queres dançar comigo? Porém o que ele, tímido e gaguejando, perguntou foi quando tu parar de rir vamos dançar? Mas o melhor foi a resposta dela — mulher tão linda, que ele, quando falou com ela, já achava que não a merecia e que ela iria virar a cara — o que ela disse (tão linda que era) foi então vamos dançar agora, porque eu não vou parar de rir tão cedo. E, desse momento até o cartório, à igreja, o nascimento dos filhos, são coisas de anos, mas o que interessa é esse instante, esse primeiro minuto em que ele perguntou desajeitado se ela queria dançar com ele depois que parasse de rir e ela respondeu que deveriam começar a dançar logo porque ela não pararia de rir tão cedo. O que interessa é esse primeiro minuto, esse primeiro dia e, até, as horas que antecederam essa pouco gramatical pergunta e tal encantadora e já citada resposta, então vamos dançar agora. Interessam as horas que antecederam esse encontro que, eles não sabiam, seria um encontro pelo resto da vida, com filhos e netos, mas isso fica pra depois, porque interessam as horas que antecederam o encontro, horas nas quais ele passara por outras três festas em outras faculdades. Festas que, nos anos sessenta, eram chamadas de reuniões dançantes. Ele havia passado por três outras reuniões dançantes, como se dizia na época, e nada de bom a não ser a cuba libre, mas nenhuma mulher que lhe chamasse a atenção. Ia embora para casa, e teria ido embora para casa se não fosse o amigo chamado Mauro, que depois se tornou pediatra mas, na época, era apenas um adolescente que jogava futebol de salão e quando jogava brigava com todo o time adversário, com o juiz e, até com os próprios companheiros quando erravam passe. Mas esse amigo Mauro insistiu (ele devia estar iluminado por Deus), insistiu que fossem a uma quarta festa, instalando, em plena Porto Alegre, uma movida quando, em Porto Alegre, nem havia movida. E tendo ido, para felicidade sua, a esta quarta festa, aconteceu a visão da mulher linda e vestida de azul e a súbita e desajeitada pergunta e a resposta encantadora, ou seja, aconteceu o decisivo episódio que está relatado nas primeiras linhas desse que se pretende conto. Aliás, esse amigo, Mauro, jamais teve conhecimento da importância do gesto. Nem soube que casaram e tiveram filhos aqueles dois que ele, sem saber, uniu. E também sem saber ficou que, passados alguns anos, nem a pergunta quando parares de rir queres dançar comigo, porque nem riso mais havia, havia era a alma despedaçada e nem havia mais música para dançar e nem mesmo a disposição de fazer a pergunta e, se fizesse a pergunta, por mais gramatical que fosse, a resposta não seria então vamos dançar agora, porque as lágrimas não deixariam falar e tudo conspiraria para instalar entre os dois a mesma sensação que invade, agora, este que se pretendia conto, ou seja, de que deveria ter parado na página anterior e não poderia de modo algum ter prosseguido até esse tempo onde a alma já está despedaçada, deixando em quem escreve a sensação muito dolorosa de que não precisava ter lembrado nada disso.


Tarântulas
(Juarez Guedes Cruz)

- O senhor acredita, Meritíssimo, que uma frase pode destruir a vida de um homem? Pois eu acredito e adianto que isso aconteceu comigo. Eu vivia de uma pensão desde os meus trinta e cinco anos, por causa do acidente que deixou essa mão esfacelada e o rosto deformado, como o senhor pode ver. Tornei-me um sujeito solitário. Passava quase todo o tempo nos cinemas, mais para me esconder do dia e das pessoas. E em livrarias, nos sebos principalmente. Buscava algo que desse um rumo para a existência. Procurava textos de religião ou do tipo ajuda-te a ti mesmo. Em fevereiro do ano passado, folheando livros ao acaso, encontrei um volume de contos eróticos. O azar é que abri em uma página onde havia um conto de uma só frase, intitulado Carícia perfeita. Foi escrito por uma jornalista cujo nome não recordo... o sobrenome era Shua. Pois ela teve a capacidade de escrever assim: Não há carícia mais perfeita do que o leve roçar de uma mão de oito dedos, afirmam aqueles que, ao invés de escolher uma mulher, optam por entrar, sós e nus, no Quarto das Aranhas. Quando terminei de ler essas palavras, senti um soco na barriga e elas não me saíram mais do pensamento. Eu me via na situação que a desgraçada inventou, sei lá de que jeito, na cabeça dela. Imaginava-me nu, entrando em um quarto escuro, sabendo que, lá dentro, estavam as aranhas. Aí eu me deitava - tudo isso na minha imaginação, Meretíssimo -, me deitava e elas começavam a caminhar por cima do meu corpo. Sentia cócegas, aquele roçar das patas na pele. Pensava que uma delas poderia me envenenar e imaginar tal coisa era muito excitante. Eu gozava sem ter que me tocar. O problema é que essa visão não me largou mais e me desinteressei por sexo normal. Normal? Isso de um homem e uma mulher fazendo aquelas coisas que, perdoe a intromissão, o Meretíssimo deve fazer com sua esposa. Porque não acredito que na cabeça do Meretíssimo e de sua senhora passem idéias parecidas com as que andam pela minha cabeça. Comecei a me assustar comigo mesmo e procurei um médico. Na consulta, ele me mostrou o livro de um cientista alemão, Krafft-Ebing, sobre perversões sexuais. Falava de coisas tão horríveis que sua primeira edição teve que ser em latim, para que só os doutores pudessem ler. Isso porque, imagino, a cabeça dos doutores não deve, ou pelo menos não deveria, ser influenciada por essas baixezas. Mas saber desse livro não adiantou nada. Tem duzentos e trinta e oito casos de taras de tudo que é tipo mas em nenhum aparece isso de o sujeito ficar se imaginando acariciado por aranhas. E mais raiva me deu da mulherzinha que pensou logo uma coisa assim. E me fez pensar, eu que toda vida fui um cara supernormal e direito. Dei, então, de ver filmes como O colecionador, Ata-me, Estranha obsessão e outros do gênero. No início, achava que era para me satisfazer com as cenas. Ficava me enxergando trancado com uma mulher que, ao mesmo tempo, me desejasse e odiasse. Inventava que o quarto estava cheio de facas e eu ali, sem saber se ela iria me amar ou matar. Então, Meretíssimo, começou a acontecer aquilo que me apavorou: pensei em seqüestrar uma mulher e fechá-la em uma peça escura. Depois entrar alí, só e nu, e me deitar perto dela, sabendo-a revoltada comigo. Só então compreendi: os filmes serviam para organizar melhor meu plano. Por isso estou aqui: para pedir que não permita uma loucura dessas. Sinto-me mais um animal, desses loucos furiosos, do que um ser humano. E o melhor é eu ficar trancafiado numa cela. Para quem tem pensamentos como os meus, Excelência, a cabeça já é uma cela. Só não me mande para um lugar escuro e pequeno, porque aí eu fico com medo das aranhas que aquela infeliz imaginou para enlouquecer minha cabeça. Eu lhe peço, Meretíssimo, me condene e me vigie. Antes que eu magoe alguém. E não se preocupe: eu só tranquei sua mulher e sua filha no banheiro para que a gente pudesse conversar em paz. Agora que o senhor me ouviu, pode soltá-las e até ficar com o revólver. Mas, por favor, não fique me olhando assim, com esses múltiplos olhos de Juiz. Tenha piedade, Meretíssimo, não me toque com essa sua pata enorme. Peluda.

Um comentário:

Antonio C S Xerxenesky disse...

Juarez é gente boa.