Tudo o que é demais enjoa - já diziam os pais, e eles estavam certo. Você tanto pode enjoar de uma comida boa comendo-a demais de uma vez só como a comendo por muitos dias seguidos. Matematicamente, poder-se-ia visualizar esses dois tipos de enjôo como vertical e horizontal.
Não existe um padrão de comportamento, unânime, que possa ser adotado com todas as pessoas. O verdadeiro respeito e a verdadeira inteligência em termos de relações humanas é, antes de qualquer coisa, testar a interação, observar como a outra pessoa é e como ela reage a cada tipo de comportamento seu. Por causa disso é que se pode dizer que não existe uma personalidade apenas, mas uma subpersonalidade para cada pessoa diferente com que se interage. Cada combinação de pessoas é praticamente uma nova e diferente pessoa.
A solicitude em demasia, e agora estou chegando ao objetivo desse meu raciocínio todo, é desrespeitosa, uma vez que extrai a liberdade do outro e lhe provoca desconforto. O outro fica sem ação, petrificado, porque o solícito é que faz tudo por ele. Solicitude em demasia é sinal claro de egocentrismo, porque o demasiado solícito não enxerga o outro, ou melhor: enxerga, no outro, ele próprio. A simpatia excessiva revela uma não-sinceridade, porque não pode ser verdadeira uma interação às cegas, sem a obesrvação da recíproca, o ajuste das energias e sintonias mútuas. Atendimento bom é um atendimento econômico, sem se esforçar. É isso: a naturalidade termina quando há um esforço para ser agradável.
Não tenho como me sentir um ser livre e confortável num restaurante em que a dona não me deixa abrir a tampa da panela do buffet, só para dar uma noção do fato prático que me levou a escrever isto aqui. E ontem eu cheguei no local, e duas amigas já estavam lá, com picadinhos de queijo e pepino. Cheguei espetando o palitinho, porque estava com muita fome. E, mesmo se não estivesse, eu tinha o direito, por ser amigo das duas e porque iríamos jantar todos juntos, de beliscar aquele tira-gosto. Mas a dona, intencionando ser simpática, e foi apenas o nosso segundo encontro (mesmo ela tendo dito, acreditando, que eu e a Manuela vamos SEMPRE lá), largou um "Já chegou com fome, né?" e bateu nas minhas costas.
(Tem gente que não se incomoda, e, pelo contrário, até gosta desse tipo de simpatia. Eu sairia correndo, se não fosse pelas outras pessoas que estavam comigo. Pretendo não voltar lá, mesmo a comida sendo boa como ontem foi.)
Acredito que eu tenha me feito entender, e que isso tudo poderia estar escrito na revista Vida Simples.
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