Eu fico muito satisfeito por ter herdado do meu vô um casaco(-de-vô), dois abajures que ele mesmo fez - um com um lampião achado no lixo e o outro com uma garrafa que originalmente era arapuca de mosquito. Na última semana eu e a Manuela ganhamos mais dois itens preciosos: as poltronas em que o meu vô e a minha vó sentavam para olhar televisão, sempre sintonizada na TVS, SBT, canal 5. Meus pais saíam nos sábados à noite e eu ficava com meus dois queridos, assistindo o Viva A Noite sentado numa das poltronas ou deitado numa cama de campanha, que eu acho que quem herdou foi o Leandro, baterista do Lida Campeira, o integrante da minha então-banda gaudéria mais querido pela minha vó. Era lá que eu via o Spectreman, também. Digo meus dois queridos porque eles sempre foram meus segundos pais, pela corujice e pelo amor mesmo, e o deles era incondicional, em todo o sentido que a palavra pode ter. Eu já devo ter dito que aqui que a minha vó chorava e se trancava no quarto quando minha mãe queria me bater. O meu vô parecia ser - deveria ser - a calma em pessoa. Eu nunca o vi brabo, nem seco. Ele era macio. Eu adorava beijar a cara dele com barba-por-fazer, assim como a do meu pai. Ele me incentivou a jogar futebol, uma vez dando uma bola uruguaia que ele achou no lixo e um par de luvas de goleiro para mim. Aliás, as tais poltronas ele também encontrou no lixo. Assim como o compacto The Final Cut, do Pink Floyd, mais uma bela herança do Edvino Cristiano Dietrich. Eu ainda me lembro e sempre vou me lembrar do cheiro dele, quando ele me chamava para deitar um pouco com ele, depois que a minha vó levantava da cama, ou quando ele passava nos seus machucados de futebol uma mistura curativa também feita por ele, com mistruz, álcool e nem sei mais o quê. Ele era verdureiro em Estância Velha e tinha uma DKV, quando eu não tinha nascido. O Edvino e a Selvina acompanharam a minha família quando foi, ainda sem mim, para Juiz de Fora e, depois, comigo, para Pelotas. De volta a Estância Velha, tornou-se motorista do caminhão do lixo - e ganhou um volkswagen gol numa rifa de igreja, podendo substituir o chevette bege dele. Todos os dias, assim, ele passava na rua e podia dar uma buzinada e uma abanada para a minha vó ou para mim, se eu estivesse lá na casa deles. Até hoje a minha vó chora de saudade dele, passados 13 anos do acidente estúpido. E eu também, às vezes. Agora, por exemplo, deu vontade.
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quinta-feira, 8 de abril de 2004
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