A memória é o meu maior trunfo, eu costumo falar isso. Ela é o Super Trunfo: aquela carta do baralhinho que ganhava de todas as outras. Eu Tenho o poder de supervalorizar um momento, uma sensação, um sentimento. Potencializar, intensificar. A memória. Colecionando memórias intensas por meio do desfrutamento intenso do agora, eu acabo tornando a minha vida sagrada, fazendo dela a minha religião - eu não estou fazendo nada na vida além de viver. Domingo, uma nostalgia manifestando-se plenamente em mim provocou algo indizível, uma espécie de transcendência única, uma experiência primeva na minha vida. Foi uma visita ao colégio onde eu estudei pelos dez anos mais importantes de formação da minha personalidade, do meu repertório de emoções e imaginações. Dez anos depois da última vez. Quando eu e o Muriel, que foi meu colega desde a terceira série, avistamos o pátio, da janela do corredor, as lágrimas tomaram os olhos e um arrepio absurdo tomou os póros dos braços. Pela visão em si e pela consciência de que abalos maiores ainda iriam acontecer em nós naquele final de tarde. Descer até o pátio foi mágico. Fui em direção a uma escada que lembrei que servia de assento para eu tomar o meu toddynho ou comer o meu pingo d'ouro. Sentei, sozinho, exatamente onde eu sentava, e então veio a tempestade cinematográfica interior: um choro desesperado, uma percepção devastadora. Eu me senti sendo eu naquele momento e sendo eu em todos os momentos anteriores em que estive sentado ali, naquele degrau. Tive a percepção de toda a minha existência. Dei-me conta de que eu sou um novo homem sem deixar de ser quem eu sempre fui. Todas as transformações ocorrem de acordo com as potencialidades da minha alma. Está tudo aqui dentro, é só puxar mais este lado ou mais aquele outro. Posso eu mesmo puxar; pode outra pessoa puxar. Chorei pela impotência de não poder voltar mais àquele meu tamanho que fazia tudo parecer maior do que hoje parece. Chorei de felicidade por eu ter feito o meu caminho, e não há nada mais bonito do que fazer o próprio caminho. Chorei por eu ainda ser aquele menino, ainda sentar e caminhar e me mexer do mesmo jeitinho. Chorei por todos os temporais e por todos os sóis, e principalmente pelo sol que agora me ilumina. O choro foi convulsivo mesmo. Foi extasiante. Levantei, com os olhos inchados e vermelhos, e caminhei por todos as escadas e trilhas daquele colégio, reconhecendo cada detalhe, de cada ângulo. Eu lembrei exatamente de todos os cantos. Que coisa louca! Estava escurecendo. Eu, o Muriel, o Suzin e o Pituca - os quatro visitantes - fomos até a sala onde fizemos o terceiro ano. Puta que pariu. Sentei na minha classe e lembrei onde sentava cada colega meu. Havia dois espelhos de classe na parede da sala: o da turma da manhã e o da turma da tarde, ambas de sexta série. Escrevi no quadro-negro: Juliana e Augusto: eu sentava no lugar de vocês em 1993. douglasdickel@...
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