Krishnamurti:
É importantíssimo, para todos nós, descobrirmos como operam as nossas mentes, o que significa ter autoconhecimento. Se não conhecemos as peculiaridades do nosso pensar; se não estamos cônscios das nossas reações e de como está condicionado o nosso pensamento; se a mente não investigar a fundo as bases de seu funcionamento (background, ou seja o 'eu', o 'ego'), então não há dúvida de que todos os conhecimentos serão prejudiciais e maléficos. (…) O autoconhecimento não se baseia em ideias, crenças ou conclusões. Deve ser uma coisa viva, porque, do contrário, não é autoconhecimento, e sim mero conjunto de conhecimentos. Há diferença entre o conhecimento de fatos, que é saber, e a sabedoria, que é o conhecimento dos processos dos nossos pensamentos e sentimentos.
Quanto mais uma pessoa se conhece, tanto mais clareza existe. O autoconhecimento é infinito; nunca se chega a um arremate, (…) a uma conclusão. É um rio sem fim. Estudando-o e penetrando-o mais e mais, encontramos a paz.
Para nos compreendermos completamente, torna-se necessário certo percebimento, o percebimento de nós mesmos tais como somos; e não podemos ter esse percebimento se condenamos ou justificamos o que vemos em nós. O percebimento é um estado de atenção sem escolha. Todos os problemas humanos emanam desse centro extraordinariamente complexo e vivo que é o 'eu', e o homem que deseja descobrir seus sutis movimentos tem de estar negativamente cônscio, observando sem escolher. Todo esforço para ver desfigura o que se vê. Uma percepção alerta e sem opções implica dar conta de tudo, tanto exterior como interiormente, sem preferir coisa alguma. Simplesmente perceber as árvores, as montanhas, a natureza - só perceber. Não escolher, dizendo: 'Gosto disto', 'Não gosto daquilo', ou, 'Desejo isto', 'Não desejo aquilo'. É observar sem o observador. O observador é o passado, o qual se acha condicionado e sempre está olhando a partir desse condicionado ponto de vista; em consequência, há agrado, desagrado etc.
A capacidade de compreender a vida só se realiza ao compreendermos a vida de relação. A vida de relação é um espelho. Ela deve refletir não aquilo que desejamos ser, ideal ou romanticamente, mas, sim, o que na realidade somos; e é muito difícil percebermos a nós mesmos tais como somos realmente, porque estamos habituados a fugir daquilo 'que é'. É difícil perceber, observar em silêncio 'o que é', porque estamos afeitos a condenar, a justificar, a comparar e a identificar. E, nesse processo, aquilo 'que é' não pode ser compreendido. Só na compreensão do 'que é' podemos ficar livres do 'que é'.
"Em geral, ou ouvimos só as palavras, concordando ou discordando, intelectualmente, ou ouvimos com a mente ocupada em interpretar, traduzindo desse modo o que ouvimos em conformidade com nossos preconceitos pessoais. Escutamos comparando com o que já sabemos. Em geral nós escutamos de maneira casual, ouvindo apenas o que desejamos ouvir; não damos atenção ao que é penetrante ou perturbador, e prestamos ouvido unicamente às coisas que são agradáveis, que nos satisfazem. Essa maneira de ouvir nos impede de escutar. Mas se, ao contrário, escutarmos sem condenar nem aceitar, com certo grau de atenção, assim como escutamos o murmúrio do vento entre as folhas; se escutarmos com todo o nosso ser, nosso coração e nossa mente, então talvez possamos estabelecer entre nós um estado de comunicação. Teremos então a possibilidade de entender-nos mutuamente, de maneira muito simples e direta. É uma verdadeira arte o escutar sem preconceito, sem defesas; deixar de lado todos os nossos conhecimentos adquiridos, nossas idiossincrasias e pontos de vista, com o intuito de descobrir a verdade contida em cada questão.
Não sabemos escutar para descobrir o que é; queremos impingir a outro as nossas ideias e opiniões, forçar o outro no molde do nosso pensamento. Nossos pensamentos e juízos são muito mais importantes, para nós, do que o descobrimento do que é. Para escutar, devemos estar livres. Devemos estar livres para ficarmos silenciosos, porque só então há possibilidade de escutar.
Só há uma única maneira de escutar realmente, que é escutar sem a tagarelice de nosso próprio pensamento.
É essencial ter uma mente tranquila. Quanto maior for o seu interesse por alguma coisa, quanto maior a sua intenção de compreender, tanto mais simples, clara e livre estará a mente. Cessa, então a verbalização. Afinal, o pensamento é a palavra, e a palavra é que perturba. É a cortina de palavras, a memória, que se interpõe entre o desafio e a resposta. Assim sendo, a mente que vive a tagarelar, a verbalizar, não pode compreender a verdade - a verdade nas relações. Mas quando você percebe que sua mente está tagarelando e enfrenta isso, se fixa nisso, então você verá o que acontece. Você diz: 'Está bem: tagarele'. Você está atento, o que significa que não está tentando tagarelar; está apenas atento a essa tagarelice. Se você o fizer, verá o que acontece: sua mente fica lúcida e provavelmente esse é o estado de um ser humano 'normal', saudável.
Uma sociedade baseada no USO mútuo é a raiz da violência. Quando fazemos uso de outrem, só temos diante dos olhos o fim que desejamos conseguir. O fim, o ganho, impede as relações, a comunhão. A vida diária, tal como a conhecemos, é uma batalha constante, uma aflição, uma confusão interminável, com ocasionais lampejos de alegria, de íntimo prazer. Assim, a menos que ocorra uma revolução fundamental em nossas relações, a batalha prosseguirá e, por esse caminho, nunca se achará solução alguma. A verdadeira revolução não é realizável pelos movimentos coletivos, e sim por uma interior reavalização das relações - só isso constitui verdadeira reforma, revolução radical. Ora, precisamos começar a resolver o problema em escala pequena, e essa escala pequena é o 'eu' e o 'tu'. Quando compreendo a mim mesmo, compreendo a ti, e dessa compreensão nasce o amor.
A realidade é o imensurável, o desconhecido. Se a pudéssemos medir, ela não seria a verdade. Porque, nada do que havemos aprendido nos livros, ou por afirmações de outros, é real; é mera repetição, e o que se repete não é mais a Verdade. Só os indivíduos amadurecidos encontrarão a Verdade. Aquele que alcançou a madureza não segue caminho algum. O homem que foi posto num caminho não está amadurecido e não encontrará, jamais, o Eterno, o Atemporal. Assim, parece que a primeira ilusão em que estamos aprisionados é o desejo de segurança, de certeza, essa indagação de por qual caminho poderemos atingir a meta desejada. Mas a verdade não é para ser entendida por meio de algum sistema. Estar buscando uma meta, um fim estático, indica que a nossa mente está procurando segurança, certeza. Estamos, ao invés disso, entrando num mar desconhecido, e cada um tem de ser seu próprio capitão, piloto e marujo. Cada um, por si, tem de ser tudo. Não há guia, e essa é a beleza da existência. Se você tem companheiros e guias, nunca viaja sozinho e, portanto, não está fazendo viagem nenhuma. Essa viagem é um 'processo' de autodescobrimento e, se começar a compreendê-la, verá a extraordinária relação que ela tem com sua presente existência. Fora de você não existe nenhum Salvador; você mesmo tem de transformar-se e, por conseguinte, cabe-lhe aprender a observar e a conhecer-se. Esse aprender acerca de si próprio é uma atividade fascinante, proporcionadora de grande alegria.
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