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quarta-feira, 23 de julho de 2014
"Mais ainda, mostram como os indivíduos podem desempenhar diferentes papéis, mesmo os aparentemente mais contraditórios. Um médico pode ser pai-de-santo, um engenheiro ser adepto da astrologia etc. Eis aí um ponto interessante para contextualizar na cidade. Embora em nenhuma sociedade seja possível falar de um indivíduo desempenhando exclusivamente um papel, a grande metrópole contemporânea oferece características peculiares. Não estamos mais falando de 'urbano' em geral. Isto porque na cidade pré-industrial de Sjoberg, por exemplo, ou mesmo na pequena cidade contemporânea, embora as pessoas desempenhem papéis diferentes, estes são, em princípio, conhecidos pelo grupo social inclusivo. A rotina da cidade do interior consiste, exatamente, nisso. As expectativas são cumpridas cotidianamente. Sabe-se que o dono do armazém vai à igreja todo domingo, joga sinuca toda quinta-feira com as mesmas pessoas, é casado, tem tantos filhos etc. Mesmo suas atividades mais clandestinas são, basicamente, controladas. É difícil esconder, por muito tempo, de todos os conhecidos, uma ligação, um hábito etc. Sem dúvida, na metrópole existem pessoas que vivem dentro de esquemas semelhantes em áreas da cidade habitadas por grupos sociais cujo estilo de vida implique nesse tipo de rotina. É óbvio que nem todos os urbanitas têm as mesmas possibilidades de usufruir uma liberdade de ir e vir irrefreada, deslocando-se de meio social para meio social ao seu bel-prazer. Afinal de contas trata-se de uma sociedade estratificada com fronteiras internas bem marcadas. Mas o caráter altamente diferenciado da organização da produção nas grandes cidades da sociedade industrial, com o seu gigantismo paralelo, vai gerar a possibilidade de um anonimato relativo que parece ser peculiar. Seria ilusório atribuir esta característica ao fenômeno urbano em si. As cidades das sociedades escravocratas, feudais etc., não só pela menor diferenciação da organização da produção, como pelo tamanho, tipo de organização espacial, neste ponto não difeririam tanto da situação do campo. O que seria característico, então, da grande metrópole é a possibilidade de desempenhar papéis diferentes em meios sociais distintos, não coincidentes e, até certo ponto, estanques. Isto é o que seria anonimato relativo. Não seria absoluto, exatamente porque a própria mobilidade que, de um lado, favorece o deslocamento do indivíduo entre diferentes meios sociais, dificulta a existência de áreas exclusivas." (Gilberto Velho; Machado da Silva, 1977, p. 79-80)
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