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domingo, 15 de dezembro de 2013

Julgamento da banda Pussy Riot revela proximidade perturbadora entre Igreja e Estado na Rússia
(Benjamin Bidder/Der Spiegel, 09/08/2012)

Yekaterina Samutsevich, 29 anos, é artista formada pela Rodchenko Moscow School. Maria Alyokhina, 24, é poeta, mãe e estudante de jornalismo na capital russa. A bela Nadezhda Tolokonnikova, 23, é artista, estudante de filosofia e mãe também.

Houve alegações na sala do tribunal de que as rés estavam vestindo roupas “obviamente contrárias às regras gerais da Igreja”. Foi até mesmo sugerido que as mulheres estavam possuídas pelo diabo, tendo “se contorcido e pulado satanicamente, erguido suas pernas, rodando suas cabeças e proferido palavras insultantes e blasfemas”.

Mas lentamente, tanto a comunidade ortodoxa russa quanto o Kremlin começaram a perceber que podem ter prestado um desserviço a eles mesmos com este processo impiedoso e bizarro contra as integrantes da banda anti-Putin. Um veredicto duro não servirá como dissuasor, alerta o clérigo e intelectual ortodoxo Andrei Kurayev. Pelo contrário, a Igreja está provocando crimes de imitadores e encorajando uma radicalização da oposição, ele diz. “Nunca houve escassez de jovens extremistas” na Rússia, acrescenta Kurayev.

Konstantin Sonin, um colunista do jornal de negócios “Vedomosti”, até mesmo falou em “o pior erro da Igreja desde 1901”. Naquele ano a Igreja Ortodoxa Russa excomungou o escritor idoso Leon Tolstói.



Após o protesto na catedral, as cúpulas douradas do templo ortodoxo estremeceram. "É uma blasfêmia. O diabo está rindo de nós", declarou o patriarca Kirill. Putin também deve ter ficado putin, pois mandou um batalhão atrás das moças. Foi feito um relatório de 2.800 páginas. Putin promulgou uma lei que pune manifestações não autorizadas com multas estratosféricas. "O totalitarismo russo lembra a Inquisição medieval. A internet é a última zona livre para nós", diz o filósofo Alex Plutser-Sarno, ideólogo do Voina ainda em liberdade. (Juliana Sayuri/Estadão)




André Forastieri:

O problema é que a maioria dos russos, e dos seres humanos em geral, aplaude a democracia só quando todo mundo se comporta conforme padrões supostamente aceitáveis de comportamento. Esse é justamente o ponto do protesto do Pussy Riot: deixar claro que inaceitável é justamente respeitar um presidente, quando ele se arvora em ditador.

Ou uma igreja, quando ela apoia um regime autoritário. Mais que isso, dizem as punks: a única coisa certa a fazer é desrespeitar Putin e a Igreja Ortodoxa. Respeito se conquista, não se impõe.

A prisão das meninas é previsível, e serve para explicitar os limites bem claros do regime russo. A Rússia escorregou dos czares aos bolcheviques a essa pseudodemocracia imperial-mafiosa. Tem uma história emocionante, de grandes momentos de libertação. Nunca foi uma democracia liberal, modelito ocidental. Nem a maioria dos países. Nem o Brasil.

Dilma não é Putin e brasileiro não é russo. Dilma manda menos. Nós somos bem menos educados e liberais que os russos. Com toda a famosa malemolência brasileira, sabemos ser bem intolerantes. Desconfio que no Brasil a cana para o Ataque da Buceta seria pior do que para o Pussy Riot na Rússia. Isso se as meninas escapassem de um linchamento ali no ato mesmo, ou de serem torturadas pela polícia, ou estupradas na cadeia.

Liberdade religiosa só é possível quando é possível liberdade da religião. Portanto, em uma sociedade laica. Liberdade de expressão é a liberdade de quem discorda da gente. É premissa da vida inteligente, e pedra angular da nova civilização que precisamos construir.

Voltaire resumiu bonito, há séculos: "discordo de tudo que dizes, mas defenderei até a morte a liberdade de dizeres". Salman Rushdie, que foi perseguido por fundamentalistas, elaborou: "sem a liberdade de ofender, não há liberdade de expressão". Minha própria versão é menos elegante e mais na sua fuça: liberdade de expressão é sempre a liberdade de alguém que você odeia defender algo que você despreza.


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