Julian Schnabel lança documentário sobre o concerto 'Berlin'
No majestoso e sombrio filme que Julian Schnabel - diretor de 'O escafandro e a borboleta' - fez a partir do concerto 'Lou Reed's Berlin' (sem previsão de estreia no Brasil - veja o trailer), o roqueiro enverga a face impassível de um mestre zen que resistiu a um treinamento budista particularmente penoso.
Sua expressão não é de um monge feliz na volta de uma meditação nas montanhas. É o olhar divertido de um cronista voyeur que já viu de tudo, todos os rituais sadomasoquistas movidos a drogas nas soturnas esquinas das cidades que nunca dormem. Este é o mundo real, é o que Reed parece sinalizar, enquanto toca riffs minimalistas em sua guitarra e canta num tom monótono, funéreo.
Nas apresentações que fez de seu oratório-rock no St. Ann's Warehouse, no Brooklyn (onde o filme foi rodado), Reed tocou com um grupo de 35 músicos conduzido pelo guitarrista Steve Hunter, que participou do álbum 'Berlin' original, de 1973. O filme reproduz fielmente o som do disco, um fracasso comercial na época de seu lançamento.
Uma digressiva suíte de 10 cançções, 'Berlin' faz a crônica da desintegração de um relacionamento amoroso em Berlim Ocidental, antes que o muro que dividia Oriente e Ocidente fosse destruído. A esposa (ou amante) Caroline (interpretada pela atriz Emmanuelle Seigner, que aparece num filme mudo dentro do filme, rodado por Lola Schnabel, filha do diretor) é viciada em sexo e anfetaminas e despreza o parceiro por sua passividade e falta de masculinidade. E se locupleta na depravação até que as autoridades intervêm e levam embora seus filhos. Caroline acaba se suicidando, cortando os pulsos.
Tempestade de guitarras
Seu parceiro, Jim (Reed), narra a história usando o tom de um espectador indefeso, cuja raiva contida escapa esporadicamente, apenas para ser engolida quando ele retorna para sua atitude de estóico distanciamento. No número final, 'Sad song', Jim, ainda assombrado pela memória de Caroline, confessa, através do discurso entrecortado de Reed: "Achei que ela era Mary, rainha de Escócia/ Meu castelo, crianças e meu lar/ Tentei tanto/ Só mostra o quão errado pode-se estar".
O cenário imaginado por Schnabel para mostrar o decadente quarto de hotel de Jim e Caroline emprega projeções que criam um clima semi-abstrato, que reflete a agitação incessante descrita nas canções. As músicas estão entre as mais melodiosas e suaves da carreira de Reed. O disco original, produzido por Bob Ezrin ao estilo pomposo dos álbuns conceituais dos anos 70, se aproxima de uma ópera. Para o concerto, além da instrumentação básica, arranjos intensamente dramáticos com metais, violas e um violoncelo foram empregados.
Mas passagens mais contemplativas, a música parece flutuar, como se segurasse a respiração até o último segundo antes do irromper de uma tempestade. E quando ela irrompe, as guitarras se expandem em um uivo crescente, que evoca a passagem de um tornado.
Demônios cruzam as músicas, mas também anjos. As vozes do Brooklyn Youth Chorus dão ao concerto um fio de doçura sinistra. No momento mais evocativo, as vozes deslizam para baixo como anjos caídos, suspirando derrotados. No bis, três músicas que não são de 'Berlin': a calma assustadora de 'Rock minuet', 'Candy says', um dueto entre Reed e a voz etérea de Antony, do grupo Antony And The Johnsons, e o clássico 'Sweet Jane', do Velvet Underground.
Nas notas de produção, Schnabel descreve Berlin como a trilha sonora de sua vida. Hesito em imaginar o significado dessas palavras. Como conto moral, 'Lou Reed's Berlin' é um pronunciamento oficial que, por 85 minutos, prega "não às drogas". A força da música, entretanto, empresta a esse ignóbil melodrama a estatura de um clássico.

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