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sexta-feira, 30 de maio de 2008

Hoje, na oficina de improvisação teatral, eu redescobri o Paulo Leminski. Eis três poemas geniais (e mais alguns acrescentados em 02/06/2008 às 00:02).

*

quem nunca viu que a flor, a faca e a fera
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz
na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse, nunca vai ser capaz.

*

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha

*

um bom poema leva anos
cinco jogando bola
mais cinco estudando sânscrito
seis carregando pedra
nove namorando a vizinha
sete levando porrada
quatro andando sozinho
três mudando de cidade
dez trocando de assunto
uma eternidade
eu e você caminhando juntos

*

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra

*

amor, então,
também acaba?
não, que eu saiba.
o que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
ou em rima.

*

merda é veneno.
no entanto, não há nada
que seja mais bonito
que uma bela cagada.
cagam ricos, cagam pobres,
cagam reis e cagam fadas.
não há merda que se compare
à bosta da pessoa amada.

*

quatro dias sem te ver
e não mudaste nada

falta açúcar na limonada

me perdi da minha namorada

nadei nadei e não dei em nada

sempre o mesmo poeta de bosta
perdendo tempo com a humanidade

*

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

*

escrevo. e pronto.
escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
ninguém tem nada com isso.
escrevo porque amanhece,
e as estrelas lá no céu
lembram linhas no papel,
quando o poema me anoitece.
a aranha tece teias.
o peixe beija e morde o que vê.
eu escrevo apenas.
tem que ter por quê?

Um comentário:

André Ramiro disse...

...é pra quem pode...hehe
saudações!