O (meu) problema com tatuagens.
1. FILOSÓFICO
1.1. Nada é eterno a não ser no exato momento presente. Tudo se transforma, muda - já dizia o Lavoisier. Há músicas que você ouve há bastante tempo, há frases que você cita há bastante tempo, mas a maioria das coisas que são importantes para você neste momento são coisas que você descobriu há pouco, no curso da sua evolução pessoal. Talvez aqui os mais jovens tenham maior propensão a tatuar, porque não têm essa noção ainda de que a transformação é contínua. Então, mesmo que seja tatuado um signficado que dificilmente vai se alterar na sua vida, ainda assim existe o risco de ele se alterar. Não se brinca com o acaso. A qualquer momento pode acontecer algo terrivelmente negativo que se relacione diretamente com a coisa tatuada, e está feita a marca.
1.2. Digamos que não existisse o item acima, haveria o problema filosófico do autor da tatuagem. Por que, dentre os infinitos artistas visuais do planeta, aquele tatuador da cidade, que não deve ser propriamente um artista plástico (que pesquisa arte), é o escolhido para fazer a marca física eterna na sua pele? E mesmo que fosse contratado o Stanley Donwood para tatuar, ele uma relação com você insuficientemente íntima para um desenho fisicamente eterno. No caso de frases, costuma-se escolher frases em inglês, principalmente entre os indies, que pinçam trechos de letras musicais. A questão do inglês é um primeiro problema e a questão da não-proximidade (e da popularidade) do autor da letra é o segundo. Dessa forma, considero as tatuagens do Leonardo Fleck as menos problemáticas, pois foi ele mesmo que desenhou, ele mesmo que criou a frase e ele mesmo que escreveu (a caligrafia da tatuagem é dele). Ele é um raro cara original. Tatuagem é arte, uma vez que exposta na sua pele, sua pele é a exposição. E sua pele não pode ser uma exposição dos outros.
2. ERÓTICO - No sexo, os cinco sentidos são estimulados. O tato na química da pele com a pele, do toque, dos encaixes, dos carinhos, dos apertos, da pressão e da não-pressão, do peso e do não-peso; o olfato, mais inconsciente mas não menos importante, cheira-se tudo e não se sabe dizer qual é o cheiro, mas é maravilhoso cheirar; a audição, ouvindo os movimentos do corpo, a respiração, os sons emitidos pela voz, as palavras propriamente ditas, a cama ou o outro lugar que esteja servindo de apoio para a ação da gravidade; o paladar, por meio das lambidas, as mais diversas; e a visão. Para o mais observador, cada detalhe e cada movimento da mulher, principalmente da amada, é um espetáculo, "uma porta de acesso eón dos deuses". Felizmente (e só se pensa assim porque existe um desejo da ciência ou da inveja de que o contrário pudesse acontecer) cada mulher é uma complexidade completamente diferente da outra, então a pele é um atrativo à parte, descobrir cada veia à mostra, cada sinalzinho marrom, cada pêlo e cabelo, cada dobra e cada curva e cada cicatriz (naturalmente provocada). Então, para mim é inadmissível que um trecho dessa cultuada pele seja escondido para sempre por uma porção de tinta. Tiramos a roupa para transar porque queremos ver o animal como ele é, queremos ver a pele por debaixo das blusas, calças, saias, calcinhas e sutiãs. Nesse sentido, a tatuagem é uma roupa que não sai. E mais: é uma roupa que tem uma densidade de signficado, o qual é bombardeado para quem o pode ver. Seria como fazer sexo olhando para um cartaz ou um adesivo colado na outra pessoa. Lembrei-me de uma piada maldosa. Uma estagiária havia tatuado o nome do namorado. Eu brinquei, com alguns colegas, que, se a tatuagem fosse acima da bunda, seria a glória do amante comê-la por trás vendo o nome do namorado e rindo da cara dele.
3. QUANTO À SAÚDE - Ver uma tatuagem cicatrizando é uma das coisas mais enojantes que existe, porque é uma ferida feia (e eu não gosto de ver feridas e sangue) e porque foi o ferido quem escolheu ferir-se. Depois de cicatrizada, tem os cuidados excessivos com o sol e o risco de ter contraído hepatite.
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sexta-feira, 5 de outubro de 2007
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