Dizem que seu novo disco [Kid A] é difícil, o que quer dizer que não se parece com o último e pode não vender tanto quanto se gostaria. Teve consciência disso?
Ninguém se senta para compor uma música pensando nesse tipo de coisa. Se fosse assim, eu já teria saído da banda há muito tempo. A gente tem um som na cabeça, ou uma melodia, uma palavra que precisa pôr para fora. E a gente põe para fora porque precisa passar isso, do contrário você entra em parafuso e some. Sua pergunta dá a entender que as pessoas não acreditam que os sons e as texturas possam, de alguma forma, exprimir emoções ou evocar algo, o que para mim é sinal de atraso e é também muito sintomático da falta de criatividade do tipo de música que predomina. Se você decide compor ou fazer um som com o objetivo de alienar as pessoas, saiba que isso também é capaz de atraí-las: sons radicais combinam com emoções radicais, ou será que essas coisas não existem? Será que minha função é criar papéis de parede para o nada?
A arte nem sempre procede daí. Ela pode provir de lugares menos sombrios e com menor carga de culpa. O humor é capaz de produzir arte, assim como a alegria e a felicidade. (...) Seu empresário disse que você vê a banda mais como um projeto de arte do que como um grupo de rock.
Eu nunca quis fazer parte de nenhuma banda de rock. Os Pixies não eram uma banda de rock. O R.E.M. também não era, nem o Sonic Youth e tampouco o Nirvana. Só porque gostamos de guitarras elétricas isso faz de nós um grupo de rock? O que é um projeto de arte? Um exercício? Um tipo de passatempo? Será que é a gente se juntar só para fazer o que a maioria gosta? Será que é dar-se por satisfeito com o car contemplativo da crítica? Não. (...)
Não estou empregando a palavra arte no sentido negativo e baixo astral. Na minha opinião, todas as grandes bandas são bandas de rock e projetos de arte ao mesmo tempo. Não dá para não ser. (...) Você diz que suas energias foram sugadas. A que você está se referindo?
Isso foi quando, depois de uma turnê, em 1997 ou 1998, eu havia perdido a confiança e a fé em mim mesmo. Não conseguia concatenar as coisas, fiquei sem entender nada. Tive um bloqueio mental que durou cerca de dois anos depois que saiu o OK Computer. Escrevi tudo o que estava me acontecendo e logo em seguida rasguei ou apaguei tudo. O que me devolveu a confiança foram as longas caminhadas que fiz pelas regiões agrestes da Inglaterra, debaixo de tempestades que me deixaram ensopado, e os abrigos que encontrava em construções abandonadas. Quando digo que fui sugado, o que quero dizer é que minha motivação para compor tinha desaparecido; ela havia se tornado propriedade de alguém [o público, que pressionava]. Nunca soube exatamente quem tinha feito isso, portanto não tinha a quem culpar (ou culpava todo o mundo). [Por isso que ele decidiu pelo "suícidio comercial", pela guinada da sonoridade!] Você acha que a Britney Spears tem esse tipo de problema?
De todas as suas motivações, quais são aquelas que mais o deixam em dúvida?
As motivações de astro do rock. O desejo de ser famoso.
(Entrevista do Thom Yorke para a Spin; tradução de Antivan Mendes para o Estadão.)
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segunda-feira, 1 de dezembro de 2003
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