De: "Muriel Paraboni"
Para: "Douglas Dickel"
Assunto: Sexta
Data: Sat, 24 May 2003 00:35:21 -0300
Essa é pro teu blog:
. . . por onde quer que eu andasse ou olhasse ao horizonte deste dia que passou o tempo todo brincando com as luzes, com as texturas, com as temperaturas e com as cores todas. Aqui dentro e lá fora. O tempo todo. A chave afinal tilintou seca na fechadura que abriria a porta do meu refúgio. A lufada que então senti no rosto era mesmo a mão quente de um longo e sensual afago de mulher. A pele macia. E morna. Lisa. E crua. Acamando-se pela superfície da pele e devagarinho penetrando por entre os poros que o dia cretino sujou. E assim quente e lentamente se foi o aconchego de minha casa delizando para dentro da alma e logo ela a alma já estava tomada pelo reconforto da paz. A partir daquele instante a ordem era deixar o dia lá fora. Lá longe. Lá fora. E aqui dentro, aqui dentro seria diferente. Puxei o aparelhinho de som pra dentro do banheiro. Peguei a luminária do quarto e apontei ela para o espelho. Apaguei as luzes. Só a luminária. E o reflexo. Do espelho. Liguei o chuveiro bem quente. E deixei esquentar por um tempo. Coloquei pra tocar a faixa três do "F# A# Do", deles mesmos, dos "Godspeeders", e embarquei então numa deliciosa odisséia espiritual por entre as rajadas quentes da água que caía redentora pelo corpo. Os poros pouco a pouco se foram abrindo, abrindo, abrindo, e purificando, purificando, purificando. Senti o ar entrando e renovando os pulmões. A vida regressanto à sua morada. Ar. Ar. Ar. Os músculos se iam relaxando. Aquela música magistral levava minha alma à passeio pelo espelho que no céu se fazia de minha própria figura. Pouco a pouco o coração aquietava. E aquietava. E aquietava. O alívio tomava conta do corpo. E tudo era leve como um sonho. Eu sentia a água quente massageando as costas, os ombros, a espinha dorsal do meu corpo, os nervos, as emoções. (...) E foi então que a Andréia chegou lá em casa. Outra imagem que me reafirmava que o tempo aqui dentro era outro e diferente daquele lá de fora. Outra prova de que as coisas agora haviam mesmo voltado ao normal. E estavam diferentes de antes, e do tempo e do dia lá fora. E estavam bem. Ela sorriu longamente. E em silêncio. Me olhando na penumbra da sala. Depois sentou. E então percebi que parte daquele sorriso era mesmo meu. A outra ela tirava de si mesma. Ela me narrou em pormenores como tinha sido a sexta-feira dela. (...)
(Muriel Paraboni - 23/05/2006) Partes selecionadas por mim.
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