- Vou comprar um envelope.
- Você não é pobre. Por que não compra mil envelopes e os guarda num armário? - diz ela. Jill acha que está sendo racional. (...)
- Volto logo - respondo eu.
(...)
Da loja de revistas, ando um quarteirão na direção sul até a lojinha de conveniência dos correios onde estou secretamente apaixonado por uma mulher que atende atrás do balcão. Já enfiei minhas folhas no envelope de papel pardo. Escrevo o endereço e depois vou para meu lugar no final de outra fila comprida. Agora preciso de selos! Hum, que delícia!
A mulher que eu amo nesse lugar não sabe que eu a amo. (...)
Como trabalha sentada e em decorrência do balcão e da bata que usa, tudo o que vejo dela é do pescoço para cima. E isso basta! (...)
Sem enfeites, creio eu, seu pescoço, rosto, orelhas e em volta do pescoço. Às vezes, penteia o cabelo para cima. Às vezes, para baixo. Numa hora, ele está crespo. Noutra, está liso. E o que ela não consegue fazer com os olhos e os lábios! Um dia compro um selo da filha do conde Drácula! No dia seguinte, ela é a Virgem Maria.
(...) Afinal é pesado é pesado e selado pela única mulher na face da terra que poderia me fazer sinceramente feliz. Com ela, eu não teria que fingir.
Vou para casa. Adorei minha saída. Prestem atenção: nós não estamos aqui na terra a trabalho. Não acreditem em ninguém que lhes diga outra coisa!
(Kurt Vonnegut)
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