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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010



"A interpretação, baseada na teoria extremamanete duvidosa de que uma obra de arte é composta de elementos de conteúdo, constitui uma violação da arte. Torna a arte um artigo de uso, a ser encaixado num esquema mental de categorias.

"Quando reduzimos a obra de arte ao seu conteúdo e depois interpretamos isto, domamos a obra de arte. A interpretação torna a obra de arte maleável, dócil.

"De fato, não estou dizendo que as obras de arte são inexprimíveis, que não podem ser descritas ou interpretadas. Podem sê-lo. A questão é como.

"O cinema é uma forma de arte que se apresenta viva e passível de fugir à intepretação sem recorrer ao vaguardismo de experimentos formais.

"Em uma cultura como a nossa, baseada no excesso, na superprodução; a consequência é uma perda constante de acuidade da nossa experiência sensorial. Todas as condições da vida moderna - sua plenitude material, sua simples aglomeração - combinam-se para embotar nossas faculdades sensoriais." (Susan Sontag)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Quá quá quá.

Miranda July -- If you really love me let's make anal. Right here. Right now.
De um spam humorístico que está por aí.

1 – Se o Neymar participar do Big Brother Brasil e ele for eliminado... quem sai é o Pedro Bial.
3 – O inverno terminou porque o Neymar não gosta de frio!
4 – Neymar demitiu o Papa do Vaticano. Segundo Neymar, quem manda em Santos é ele.
7 – O Irã deixará de fabricar urânio após reunião com o Neymar!
8 – William Bonner agora começará da seguinte forma o jornal: "Boa noite, Neymar."
20 – Segundo Neymar, Mano Menezes não estará na lista de convodados do próximo jogo da seleção.

domingo, 26 de setembro de 2010

18 de agosto de 2010

A nova facada de Lukas Moodysson no estômago: 'Mammoth'.



Por que cantam as baleias...?
(Maico Silveira)


O homem usa o mundo a seu proveito. O homem produz canetas de vários mil dólares com restos de mamutes congelados. Enquanto uns lutam para fechar negócios, outros lutam para salvar vidas; e crianças tentam entender o mundo e o universo enquanto há gente lutando para tentar sobreviver. Lukas Moodysson escreve e dirige um dos filmes mais impactantes que vi nestes últimos tempos. Por que impactante? Talvez porque nos faz constatar o estado em que as coisas estão nesse mundo, "a que ponto chegamos" como humanidade. Mas talvez porque pessoalmente eu tenha me identificado com muitos dos personagens que ali estavam, como se de uma maneira ou outra esse filme estivesse contando como foram as relações pessoais nos últimos dois anos de minha vida. Claro que poderia fazer uma relação pessoal direta com o personagem de Gael - Leo - por motivos óbvios, mas não é só isso: são outras redes, outras frases, vindas de outros personagens e que podem facilmente ser aplicadas. Aí me pergunto: só pra mim? Claro que não. Acho que aí está o impactante: é um filme que proporciona essa identificação sem cair no lugar-comum, mostra as coisas como elas são, sem dizer se é certo ou errado, sem apontar culpados ou inocentes. A vida em cadeia, uma coisa como consequência de outra, a famosa busca da felicidade desde vários pontos de vista. Por que busco isso? Por que busco aquilo? Posso ter tudo e não ser feliz. Posso ter a geladeira cheia, mas não conseguir conquistar a atenção de quem quero bem. Posso viajar a trabalho com tudo pago e me entediar. Posso descobrir um outro eu, que existe, e que estava guardado em algum canto por algum motivo. Posso. É humano.

No fundo, fica essa sensação de que o que vale são as relações, os contatos pessoais, as experiências. A última cena do filme, a última imagem, aquela antes que baixe a tela negra, é dessas que nos fazem deixar cair uma lágrima solitária simplesmente porque quase se chega a compreender a vida. Quase. Logo acordamos, saímos do cinema e nos damos conta de que tudo continua e que não, o equilíbrio ainda não foi restituído: seguimos vivendo em desmedida a nossa tragédia quase clássica de cada dia. E não importa em que ponto do globo estamos: somos humanos e isso basta.

A resposta para a pergunta-título desta postagem é dada por um dos personagens em um dos momentos cruciais do filme: "pelo de sempre, para dizer 'oi', 'como estás?' 'tenho saudades', etc."


Cecília Barroso:
(que já escreveu 784 artigos no Cenas de Cinema)


Uma mãe cirurgiã bem sucedida, um pai nerd que ganha muito dinheiro criando jogos eletrônicos e uma filha que se identifica mais com a empregada, imigrante filipina, do que com eles. Este é o núcleo da trama de Corações em Conflito, que de forma batida trata do tema preferido do diretor Lukas Moodysson, a infância.

Crianças criadas por babás; mães que deixam os filhos em segundo plano para conseguir vencer na carreira e/ou para melhorar a vida da família; mães que querem se ver livre do problema; crianças que são obrigadas a vender seus corpos para sobreviver; trabalho escravo infantil e outras mazelas que precisam ser discutidas são, ou parecem ser, os motivadores deste drama.

Cheio de boas intenções, o filme até faz pensar, mas não consegue cumprir seu objetivo por ser tão quadrado e ao mesmo tempo artificial. Relações superficiais e mal desenvolvidas reforçam a impressão de que nada daquilo possa acontecer ou já ter acontecido de verdade.

Personagens estranhos e deslocados, como o pai, têm mais espaço do que precisam e outros, secundários, passam pelo máximo de situações apelativas possíveis, como se estivessem ali para tentar fazer o público chorar. Como se a temática precisasse de clichês para isso.

A falsidade do resultado acaba deixando o público alheio ao que acontece na tela e a sensação de tempo perdido acaba prevalecendo. (...)

Comprovando que cinema é uma arte subjetiva, o filme foi indicado ao urso de ouro no Festival de Berlim, ou seja, talvez outras pessoas gostem mais do que vão ver.


Eu:

O filme não é sobre os problemas que você enumera, nem sobre o drama deles, mas sobre o que está por trás, sobre o esqueleto daquilo tudo. É que o filme é sutil. A mente humana sempre busca símiles pra interpretar aquilo com que se depara. (Pessoas aqui na internet já mencionaram 'Babel' e 'Lost in translation', e eu inclusive poderia acrescentar 'Paris, Texas'.)

Mas 'Mammoth', sutil (inclusive tem título sutil, ao contrário do didático nome em português), é sobre ESCOLHAS e sobre a SOLIDÃO decorrente de certas escolhas dos seres humanos de agora. Sobre o valor do TRABALHO e o valor do DINHEIRO. A caneta de mamute é vendida por 30 dólares, com mais dois relógios, sendo que ela "custa" (para quem??) 12.500 reais; Leo compra tudo o que quiser; a médica compensa a filha com uma luneta cara; os dois trabalham sem parar para, no final, reafirmarem suas escolhas, enquanto que a babá decide mudar a vida; as pessoas esperam desastres pra tomarem decisões.

Lukas Moodysson é um dos melhores diretores da atualidade. Mesmo se fosse exatamente o mesmo tema batido, porque não é, o cienasta sueco constrói os personagens de modo que sejam EXTREMAMENTE humanos, TODOS, coisa que é difícil fazer - e encontrar - no cinema e na arte em geral.



"Desde 2001, a multinacional de produtos de papelaria Faber-Castell tem procurado mostrar ao mundo que faz mais do que lápis de cor. Numa estratégia de concorrência com a alemã Montblanc, tem lançado produtos cada vez mais sofisticados. É o caso da caneta Graf von Faber-Castell, da qual, a cada ano, é lançada uma edição diferente. Da coleção de oito peças já produzidas, fazem parte canetas de materiais insólitos, como marfim de mamute fossilizado. A edição 2008 foi produzida com uma madeira indiana chamada cetim e arrematada com detalhes de ouro e quartzo. Para vender o produto no Brasil - apenas dez unidades foram trazidas ao país, por 12 500 reais cada uma -, a Faber-Castell tem procurado eventos com grande potencial de atrair consumidores de alta renda (...)". (Caput Consultoria)


Juca Kfouri:

Uma batalha.

Uma verdadeira batalha o jogo do Beira-Rio.


O Inter simplesmente não deixou o Corinthians jogar durante todo o primeiro tempo, até que Tinga, por ironia, o pivô do pênalti não marcado em 2005, fez, aos 29, o gol colorado em bola perfeita de D’Alessandro.

Tinga se machucou no lance e deu lugar para Edu.

Aí, a partir dos 30 minutos, o Corinthians, passou a jogar.

Uma vez, no primeiro chute a gol, Jorge Henrique exigiu boa defesa de Renan e, em seguida, em cobrança de falta inexistente, Bruno César mandou no travessão gaúcho.

O segundo tempo foi muito melhor.

Com Guiñazu parecendo cinco, o Inter criava chances para ampliar, mas o alvinegro ameaçava empatar.

Até que empatou.

Empatou com Jorge Henrique em passe de Jucilei, aos 19.

Era, digamos assim, àquela altura, um empate de campeão.

Que quase virou virada quando Edu, que substituira Roberto Carlos, deu para Bruno César acertar outra vez o travessão.

O jogo ficou franc0, com qualquer um dos dois podendo desempatar.

Mas foi Alecsandro, em seu primeiro lance depois de entrar no lugar de Leandro Damião, quem fez o gol, porque quem tem estrela tem tudo.

E quase fez mais um um minuto depois, impedido por Júlio César em grande defesa.

O Corinthians perdia a liderança para o Fluminense e o Inter voltava à luta pelo tetra.

Mas, aos 43, Nei meteu a mão na bola na linha fatal em cabeçada de Paulo André e foi expulso.

Bruno César empatou 2 a 2 aos 45 e ninguém pode dizer que não tenha sido justo.

Não devolvia a liderança, mas mantinha a confiança de um time perto do pentacampeonato.

Mas Paulo André também foi expulso ao fazer falta em Alecsandro, aos 46.

E Andrezinho, que entrara no lugar de Giuliano, bateu a falta, a bola desviou na barreira, bateu na trave e entrou: 3 a 2.

Fim de jogo, corações disparados.

Uma vitória memorável do Inter que enlouquece o campeonato.


O disco que mudou minha vida.
"O que torna uma mulher bela não é exatamente a beleza que o outro vê, mas qualquer coisa de estranho e de esquisito que dá um toque desconcertante à harmonia dos traços e faz dessa beleza insuportavelmente bela. Uma mulher pode ser bela para muitas pessoas em concordância, mas a beleza que é fatal só o é para aquele que é afetado de maneira muito particular. O ver da beleza fatal não é o mesmo da contemplação, é um ver que não se contenta apenas com o que se vê, é um ver que se vê com todas as vísceras. Essa beleza não se explica pelo espiritismo da perfeição, e pode acontecer lá onde a delicadeza se mistura com tonalidades de maldade, um olhar doce e ao mesmo tempo flamejante, um detalhe de sombrancelha que escorre ironia e aponta para o perigo, os labirintos abismais de um olhar estrábico, uma voz aveludada e venenosa... há qualquer coisa de incompreensível nessa beleza que é fatal, e que como um raio atravessa o corpo daquele que o percebe como tal e leva os pensamentos a disputarem entre si o privilégio do suicídio: não se fica sem pensamento, mas com pensamentos que se suicidam desenfreadamente. Esse homem arrancado de si por um detalhe bem particular de um monumento feminino, tem seu corpo em chamas enlouquecido por essa beleza que ele mesmo criou sem saber como, e só ele está condenado a se resolver com a beleza elevada em seu mais elevado grau de crueldade. Só ele? Provável que sim, pois em geral o outro não vê mais do que feiura no que é encanto para o singular, ou apenas beleza, mas somente a beleza que é bela por não desagradar aos olhos, ao contrário da beleza que entra rasgando pelos olhos, deixa-os paralisado e explode nos nervos. As coisas não são belas nem deixam de ser belas, só há beleza para o expectador humano. Contudo, não é nenhum incompreensível imaginar que um homem possa ir à forca ou ascender a novas galáxias pela beleza extraordinária que viu em uma mulher; não é nenhum incompreensível compreender que a beleza pode ser de um horror que desespera, o desespero de querer eternizar o instante em que se é capturado e enfeitiçado por essa espécie de absurdo." (Adriel)

sábado, 25 de setembro de 2010

Phoenix & Gallo


Clinic e Walkmen. Duas bandas que eu conheci na mesma época, no início da banda larga e do soulseek. Os Clinic surgiram em 1997 na cidade dos Beatles. Os The Walkmen surgiram em 2000 na cidade dos Velvet Underground. Clinic e Walkmen têm seis discos cada um. Não há nenhum disco fraco e, embora não haja nenhum que se destaque enormemente, todos são acima da média, graças à sonoridade particular, constante e acima da média das duas bandas.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

"A música [dos Mécanosphère] fica a cargo de Benjamin Brejon, onde os beats, os loops, os estilhaços e as violações sonoras são evidentes, criando uma ruptura com as sonoridades mais tradicionais, transformando a música num exercício claro de experimentação e novidade. A voz surge como um instrumento, contaminando a música de Brejon, cumprindo um dos móbeis do projecto – cruzar as fronteiras da música. A forma como Adolfo Luxúria Canibal declama os seus textos é conhecida por todos e funciona na perfeição com as sonoridades sombrias e muitas vezes angustiantes de Brejon. Em 'Bailarina' é contada uma história. Somos confrontados com vários cenários e as imagens surgem na nossa cabeça como flashes de memória. Uma auto-estrada, um acidente, imagens de carros acidentados, uma bailarina a dançar no capot de um Rolls-Royce, sangue, astronautas, sexo, mortos e muito sofrimento. O som que acompanha estas imagens é angustiante e deixa quem ouve com níveis de ansiedade elevados. Os ritmos muitas vezes sombrios e claustrofóbicos são muitas vezes transformados em percurssões nervosas, gemidos e gritos sofridos numa experiência sonora única e para muitos perturbante. “Bailarina” é uma viagem pelo mundo do fantástico, pela auto-estrada dos nossos medos e receios com um princípio, meio e fim. Um objecto sonoro irrepetível e impossível de colocar ao vivo da forma sofrida e dramática registada neste disco." (Rua de Baixo)
palíndromos!

ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA: ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ
"Quando olhamos para uma laranjeira vemos que ela passa a vida produzindo lindas folhas verdes, florescências cheirosas e laranjas doces uma estação após a outra. Essas são as melhores coisas que uma laranjeira pode criar e oferecer ao mundo. Os seres humanos também fazem oferendas ao mundo a cada momento de suas vidas diárias, em forma de pensamentos, palavras e ações. Podemos querer ofertar ao mundo os melhores tipos de pensamentos, palavras e ações que conseguimos – porque eles são nossa continuação, quer queiramos que eles sejam ou não. Podemos usar o nosso tempo sabiamente, gerar as energias de amor, compaixão e compreensão, dizer coisas belas, influenciar, perdoar e agir para proteger e ajudar a Terra e uns aos outros. Desse modo, podemos assegurar uma bela continuação.

"Quando olhamos dentro dos nossos corpos e consciências, nós vemos que somos um organismo complexo. Existem tantas formas, tantos elementos que podem ser encontrados dentro de nosso corpo e da nossa consciência. Em cada célula podemos ver toda a história da humanidade, da Terra e do cosmos. Cada célula do nosso corpo é capaz de nos fornecer todos os tipos de informações que dizem respeito ao cosmos. Uma única célula pode nos dizer muito sobre nossos ancestrais; não apenas humano, mas também nossos ancestrais animais, vegetais e minerais. Toda vez que damos um passo numa meditação caminhando, estamos nos movendo como um organismo, nós estamos nos movendo como o cosmos, e todos os nossos ancestrais se movem conosco e dão passos conosco. Não só nossos ancestrais, mas nossos filhos e os filhos deles se movem conosco. O um contém o todo. Quando somos capazes de dar um passo cheio de paz e alegria, todos os nossos ancestrais estão simultaneamente dando àquele passo." (Thich Nhât Hanh)
"Todos temos três pessoas dentro de nós: um lutador, um monge e um artista. O artista é muito importante. O artista pode trazer frescor, um significado para a vida, alegria. O líder espiritual pode trazer lucidez, calma e visão profunda. E o lutador traz a determinação de ir em frente. Temos que mobilizar todas essas três pessoas dentro de nós e nunca deixar nenhuma delas morrer ou ficar fraca." (Thich Nhât Hanh)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010



"Nós dois [Macaulay e Michael Jackson] sempre teremos 8 anos, porque não tivemos a chance de ter 8 anos quando tínhamos essa idade. Esse é o lado belo e maldito de nossas vidas." (Macaulay Culkin)
Abaixo da resenha da Marta Isaacsson, aumenta o número de relatos, advindos do blog do Porto Alegre Em Cena, de pessoas que eu não sei por que foram ver a peça do Robert Wilson.


"[Em Happy Days], a conversa entre dois deuses do teatro teve lugar nesse Porto Alegre em Cena. Bob Wilson encontra Beckett e trava com ele uma aproximação nos mesmos moldes como fez com tantos outros dramaturgos. Não encena o texto, não explora ações de composição da situação dramática. Para Wilson, a dramaturgia possui suas próprias imagens e sobre as quais ele se recusa intervir. É através das palavras que os personagens de Beckett têm a sensação de existirem e esquecer sua miséria. E é para as palavras de Beckett que Bob Wilson abre passagem enquanto a cena corre em paralelo. E, para deixar o texto de Beckett passar com liberdade, compõe um quadro fixo, em que o relevo se aplaina pela disposição frontal dos elementos, conhecida marca da primorosa visualidade de seus espetáculos." (Marta Isaacsson)





"Enquanto a monotonia começa a chegar, lembro das mediações feitas na Bienal e me pergunto: sobre o que é o espetáculo [Happy Days]? Mesmo encontrando respostas como: é sobre o patético da vida, sentia que algo não estava funcionando ali. A plateia faz um silêncio enorme. Mesmo as tosses, tão comuns nestes momentos, estavam praticamente sumidas. E, enquanto o texto vai sendo despejado com um sotaque que mais me lembrava uma feirante em Marseille, vou sentindo necessidade de olhar o relógio. Havia se passado apenas meia hora e o sono já começava a chegar de forma incontrolável. Logo eu que este ano fiz questão de não comprar ingressos para o espetáculo japonês com medo de que eles botassem toda a minha cultura ocidental para dormir. Troco minhas impressões com algumas pessoas e, além de concordarmos que o espetáculo está botando para dormir, descubro que isto ocorre porque há um problema na interpretação da atriz que apenas despeja o texto, acrescentando interjeições desnecessárias. Neste momento, concluo que há uma falta de sutileza na hora de dizer as palavras do texto cujas intenções do autor precisariam ser respeitadas." (Helena Mello)


Bob Bahlis: Fostes ver o espetáculo do Japão, Tobari? Fiquei sabendo que algumas pessoas dormiram. É verdade?

Margarida Leoni Peixoto: Tem gente que dorme até em assalto, né, meu anjo? As pessoas que dormiram podem estar acostumadas com espetáculos de dança e teatro com ação. Lamento muito por elas. A beleza plástica de Tobari chega a qualquer olhar. O espetáculo mostra o ciclo vital, o nascimento, morte e renascimento. A tradução do nome do grupo [Sankai Juku] é "o ateliê da montanha e do mar". Deveria ter visto o espetáculo de joelhos. Uma obra prima.


"Equívoco ou desastre, este é o resultado da direção de Bob Wilson da peça de Samuel Beckett, Happy days. Um espetáculo inerte, repetitivo, sem uma linha dramática ascendente que sustente minimamente o interesse do espectador durante a hora e meia de duração. Em suma, um espetáculo chato. Mesmo a iluminação, que tem sido um dos mais requintados recursos cênicos utilizados pelo diretor, não atinge o nível dos espetáculos anteriores. O que vimos no Theatro São Pedro foi uma luz ácida, agressiva, tentando desesperadamente se impor acima e além do que acontecia no palco, uma espécie de tábua de salvação diante de um afogamento iminente." Luiz Paulo Vasconcellos)


"Canso-me. Dou algumas piscadas, pois meus olhos quase fecham. Intervalo. Não vou embora. Penso: 'Tudo bem dormir, aconteceu isso no Quartett e também já ouvi outras pessoas falarem o mesmo, mas, eu não ter nenhum encanto, além de ficar alerta ao texto... Isso é estranho...' Volto ao espetáculo. Adormeço completamente. Surge o som de um raio e ele cai em neon sobre o palco. Acordo. Contemplo encantada, mas, na hora do raio em neon ir embora, vejo as cordas que o levantam. Desencanto-me. Creio que não era a proposta mostrar o processo. Continuo atenta. O homem sai da 'toca' e aparece para nós. Penso: 'não precisava'. Uma dramaticidade que não precisava. Ascendem-se as luzes, bato algumas palmas e vou embora. E nada mais." (Rochelle Porto)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010



"No pensamento benjaminiano, a arte não se refere a um fazer específico, separado de outros fazeres, mas está relacionada à dimensão estética presente em todas as práticas humanas. Estética entendida como modalidade de construção de saberes e de subjetividades, ligada à sensibilidade, orientada pela criação e não pela acumulação e repetição do estabelecido." (Sérgio Augusto Leal de Medeiros)


"Creio que caminhamos aqui na mesma direção de combate ao clichê, aquele tipo de agenciamento das imagens e sons que induz a uma leitura pragmática geradora de reconhecimentos do já dado e do que não traz informação nova, ou seja, do combate àquela forma de experiência na qual não se vê efetivamente a imagem e não se percebe a experiência, ou, se quisermos, não se captura o que acontece na imagem, pois a mobilização de protocolos de leitura já automatizados define a priori 'do que se trata' quando olhamos a imagem ou seguimos a narrativa. Para mim, o que vale – estética, cultural e politicamente – é a relação com a imagem (e a narrativa) que não compõe de imediato a certeza sobre este 'do que se trata' e lança o desafio para explorar terrenos não-codificados da experiência. Tanto melhor se o próprio filme se estrutura para impedir o conforto de reconhecimento do mesmo, de confirmação do que se supõe saber. O modernismo nos legou este imperativo de desautomatização da percepção e de ampliação de repertório como tarefa da arte, recuperação de uma sensibilidade amortecida pelo investimento prático em que o cotidiano se faz o lugar do hábito, da percepção que está instrumentada por uma interação com o mundo marcada pelo cumprimento de certas finalidades, das mesmas finalidades a cada novo dia. Nesse terreno, seria ilusório supor que a relação produtiva e enriquecedora com as imagens e narrativas desconcertantes se apoie na força exclusiva de um saber das formas e de um repertório analítico que nos capacite a uma recepção 'adequada', pois aqui, como em outros terrenos, quase tudo depende da postura, de uma disponibilidade, de uma forma de interagir com as imagens (e narrativas), que têm a ver com todas as dimensões da nossa formação pessoal e inserção social. A recepção deve ser um acontecimento (original) não-redutível a esta ideia de que o 'especialista' (sabedor de códigos) detém a chave para ler os filmes da forma mais competente." (Ismail Xavier)