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segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Mais Ivan Capelatto:

"Hoje a maior parte das propagandas que mantêm as revistas que vão pra dentro dos consultórios são aquelas que falam da estética, clínicas que mexem com o corpo, drenagem, botox... o que marca, segundo Lipovetsky, a Era do Vazio: o medo de envelhecer e o desinteresse pelas gerações futuras. O investimento maior que hoje a sociedade contemporânea faz nas crianças é um investimento intelectual; afetivo não. Nós convivemos pouco com as nossas crianças. O vínculo afetivo vai diminuindo de uma maneira complicada, quando a gente se desinteressa afetivamente pelas gerações que estão precisando sentir o gosto do amor e da perda. Agora nós intensificamos a angústia da morte. Quanto maior a angústia da morte, maior o culto ao narcisismo, maior o medo da morte, maior o medo da ruga, maior o medo da barriga, do culote, e a gente começa a pensar que o envelhecimento é intolerável. Os adultos estão tentando evitar o envelhecimento, morrendo de medo do envelhecimento, e as crianças estão se sentindo fragilizadas por não serem importantes. Elas têm a juventude, então não precisa dar mais nada, elas têm aquilo que eu invejo. Hoje nas faculdades de medicina, de enfermagem, de terapia ocupacional, de psicologia, de fisioterapia, se ensina e se prega alguma coisa a respeito do vínculo. Hoje o cuidador sabe que, quanto mais ele se aproximar do doente, quanto mais ele conversar com o doente, conviver com o doente, só aumenta a autoestima do doente, mesmo terminal, e aumenta sua dignidade. A permissão do luto é a única forma pela qual alguém pode suportar a perda do ente querido: sentindo a perda do ente querido. Quando se tenta curar a dor da perda, nós levamos o sujeito a um estado psicótico. A sociedade se torna saudável para lidar com a morte quando ela permite a dor. Permitir a dor é permitir que se chore, permitir que se lamente, permitir que se grite, permitir que aquela mãe se debruce no caixão daquele filho, que faça um escândalo terrível. Nós temos vergonha da mãe que chora desesperadamente no caixão do filho, nós vamos lá e tiramos ela de lá, damos café pra ela, ou ansiolítico, ou antipsicótico, alguma coisa pra que ela pare com aquele sentimento. Eu conheço uma vozinha que perdeu um filho e dois netos: um neto de acidente de carro e uma netinha de uma doença auto-imune terminal, 6 anos de idade. Perdeu três pessoas. De vez em quando ela vai a alguma festa e se lembra de que aquelas três pessoas não estão ali, e ela começa a chorar. E alguém fala 'isso de novo?!', e aí ela tem que engolir a sua dor. Quando ela engole a sua dor, ela faz uma doença no seu corpo, ela faz dor em sua perna, ela faz aparecer um ponto de câncer em algum lugar, ela deixa de fazer tricô, deixa de fazer o doce, e todo mundo pensa que está ajudando. A dor é talvez o sentimento mais importante pra quem pensa que saúde mental é importante. A permissão da dor é a permissão da vida. Negar ou impedir a dor é impedir a vida. Uma sociedade que não permite a dor não é uma sociedade saudável. É preciso viver um luto. Luto é vida."

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