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domingo, 1 de maio de 2016



Fui convidado para falar sobre cultivar o equilíbrio mental e emocional. E eu imagino que muitos de nós, se não todos que estão aqui, já têm interesse nesse tema. Mas tenho certeza de que todas as pessoas0 têm interesse em ter uma mente clara, em ter bem-estar mental, bem-estar emocional, no sentido de ter saúde. E a implicação deste título é que equilíbrio é a chave para o bem-estar mental e emocional. Portanto, como iremos cultivar isso? Gostaria de sugerir que a chave é a atenção.

Acho que todos nós sabemos pela nossa própria experiência que nossas mentes podem ser nossos piores inimigos, podem nos deixar loucos! Se nos sentarmos em nossos quartos em silêncio, sem nenhum estímulo do ambiente, podemos nos tornar verdadeiramente infelizes. Apenas devido à ruminação, aos pensamentos que vêm às nossas mentes, sendo apanhados e aprisionados nas garras do que os psicólogos chamam de ruminação. Em outras palavras, sabemos que podemos nos tornar infelizes sozinhos, sem nenhuma ajuda externa. É um trabalho interno!

E muitas, se não todas as pessoas sabem que também é possível permanecer sentado quieto em seus aposentos, quieto em sua caverna, quieto em lugar sereno na natureza, com pouco ou nenhum estímulo do ambiente, e ter a sensação de estar verdadeiramente bem, feliz. E você olha à sua volta e pensa “o quê está me fazendo feliz?” e... você não consegue encontrar nada do lado de fora. Essa sensação de bem-estar está vindo de dentro. E então, todos nós devemos ser Sherlock Holmes agora. Rastrear isso até sua fonte.

Nessa apresentação maravilhosa que tive a sorte de assistir antes de subir ao palco, a causa, o agente era em geral atribuído ao cérebro. E não há dúvidas de que o cérebro está envolvido em todas as nossas experiências subjetivas. Mas a noção de que a única explicação verdadeira é a neurológica, e eu nunca ouvi o palestrante mas o Prof Ramachandran diria isso, penso ser limitada. Algumas vezes, podemos ter uma elucidação mais clara sobre o que está havendo em nossa experiência subjetiva, observando a própria experiência subjetiva, buscando uma explicação psicológica. Então, sugeri que a atenção é a chave.

Uma pessoa que pode controlar sua atenção pode ter controle sobre o tipo de realidade que tem a sensação de estar experimentando e vivenciando. Afinal, como William James, um grande pioneiro da psicologia moderna, afirmou, “A cada momento, aquilo a que prestamos atenção é a realidade”. Levamos a sério, consideramos real apenas aquilo a que estamos atentos. Então, quando nossa mente está tomada por uma hiperatividade da atenção, seja clinicamente diagnosticada ou não, acho que todos nós temos ideia de como é. Quando a mente se parece a um trem desgovernado, como um elefante no cio, segundo a grande e clássica metáfora indiana, podemos sentir uma aflição enorme. Em especial quando essa ruminação, esse fluxo obsessivo e compulsivo de pensamentos é negativo.

Insistir em infortúnios do passado, no mau comportamento de outras pessoas, negatividades de um tipo ou de outro, nos aprisiona e subjuga. Nós realmente nos tornamos vítimas de nossas próprias mentes. Então, ruminação negativa. Portanto, se estamos buscando o equilíbrio mental, equilíbrio emocional, enquanto nossa mente ainda estiver propensa a tal ruminação negativa, em tal hiperatividade da atenção, com uma mente que está realmente fora de controle e que por consequência nos arrasta; enquanto somos propensos a isso ou na medida em que somos propensos a isso, equilíbrio mental e emocional será um ideal inalcançável. Eu chamo essa tendência de OCDD, não confundam com TOC, transtorno obsessivo compulsivo, que é um diagnóstico clínico. OCDD não aparecerá na versão atual da enciclopédia de doenças mentais (DSM), provavelmente porque todos os editores da enciclopédia têm essa doença, bem como a maioria de nós aqui, eu a chamo de distúrbio obsessivo compulsivo delusório.

Mas veja como parece familiar, obsessivo, no sentido de que quando você quer apenas ficar em silêncio, quando não há nada para pensar a respeito, nada sobre o que você precise pensar a respeito, você gostaria apenas de ficar quieto e presente, simplesmente atento ao seu corpo, sua mente, ao meio, a outra pessoa – você não consegue, porque sua mente é tagarela, ela sempre tem algo a dizer, pensamentos obsessivamente fluindo um após o outro e, ainda que você queira desligar ou ao menos ter um pouco de alívio de vez em quando, um pouco de silêncio nos aposentos da sua mente, ela não te dá essa opção, ela sempre tem uma resposta: “Você quer ficar quieto? Ótimo! Vamos conversar sobre isso!” É obsessivo!

Se você acha que tem controle, tente não pensar por um minuto enquanto ainda está acordado. É obsessivo! Como se não bastasse, é também compulsivo, isto é, os pensamentos surgem, mas eles não surgem simplesmente, como imagens na TV; eles surgem e em geral nós somos compulsivamente puxados para dentro deles, como um sifão, eles nos sugam nossa atenção, e nossa atenção é dirigida ao referente do pensamento, estamos aqui e ali, pensando nisso e naquilo... Há uma imagem terrível que ilustra isso no filme Pequena Miss Sunshine. Se lembram que prenderam o cachorro atrás da caminhonete e então esqueceram? Nós somos o cachorro, e a ruminação é como a caminhonete: ela nos carrega, nos arrasta. Isso combina com a sua experiência?

Mas é pior que isso. Obsessivo seria ruim o suficiente; compulsivo é ainda pior. Mas piora ainda mais! É delusório! E isso significa que quando você é apanhado no redemoinho dessa espécie de fluxo de ruminação, a tendência geral, e veja por si mesmo, eu não estou tentando dizer como é a sua experiência, eu estou generalizando e veja se o sapato te serve, nossa tendência é levar a sério o que quer que estejamos pensando, mesmo que não estejamos de fato pensando, “eles” estão “nos” pensando. O cão não está dirigindo o carro. Mas não é verdade? Quando estamos pensando algo, fixando, ruminando, obcecado com alguma coisa, temos a tendência geral de pensar: “estou pensando tal coisa e portanto ela é verdadeira”.

Os psicólogos chamam isso de período refratário: quando a mente é aprisionada nas garras de uma emoção, memória, desejo, e nós não conseguimos pensar além desse sistema de filtro. Se estou ruminando negativamente a respeito de uma pessoa, surge ressentimento, talvez desprezo ou aversão em relação a essa pessoa. Enquanto estiver no fluxo dessa ruminação, nesse distúrbio obsessivo compulsivo delusório, eu não consigo imaginar que tal pessoa tenha qualquer qualidade positiva, ou nem mesmo qualidades neutras. As neutras parecem ruins e as boas são invisíveis, enquanto que as ruins, essas surgem em alta definição 3D, vívidas e, na verdade, exageradas, fora do comum. Então, obsessivo compulsivo delusório, isso parece bem ruim, e, se não fosse tão ubíquo definitivamente, estaria na enciclopédia.

Hiperatividade da atenção, esse é um bom termo mais curto para isso. Não é um sinal de saúde mental, nós apenas nos acostumamos a isso, mas essa é a única razão para ser tolerável. Muitas coisas se tornam toleráveis se você simplesmente se acostumar a elas: sexismo, racismo e muitas outras aberrações da mente e do espírito humanos parecem ser toleráveis simplesmente por estarmos habituados a eles. Bem, isso é exaustivo! Todos nós sabemos como é isso, não é? Ser tomado por uma ruminação após a outra, isso rouba nossa felicidade durante o dia e, quando estamos finalmente cansados, não conseguimos adormecer, porque não sabemos como desligar. E continua, continua... “Eu sei que você está cansado mas não vamos parar. Vou arrastar você até deixá-lo inconsciente”.

Mesmo durante o dia é exaustivo, não é? A experiência é fatigante, estressante. Por isso existe “atenção plena para redução do estresse”, existem massagens e vários tipos de terapias, apenas para nos dar descanso, para que possamos nos recuperar, ao menos um primeiro socorro para todo o dano que causamos a nós mesmos. E é claro que não estamos “fazendo” algo a nós mesmos, caso contrário, nós pararíamos! É apenas puro hábito! Estou certo de que há correlações neurológicas, mas não tenho certeza de que identificá-las irá realmente ajudar.

Então, quando estamos exaustos caímos no déficit de atenção. Podemos estar em uma reunião, talvez estudantes na sala de aula, talvez trabalhando, dirigindo, e assim por diante; assistindo a TV, lendo um livro, e todos nós sabemos disso, não é? Déficit de atenção. Você gostaria de estar focado, e a mente não está afim, sua atenção não está a fim; você está apenas lá sentado, girando, sem se engajar; você pode estar tendo uma conversa com sua esposa e ela pergunta “O que você acha?”,  e você diz “O quê? Quê?”, ausente da realidade, claramente por exaustão, por pura exaustão.

Ainda que o déficit de atenção seja diagnosticado e que os médicos sejam favoráveis a medicar inclusive a submissão, isso não cura. Eu sei que pode ser muito útil e necessário a algumas pessoas, mas não seria maravilhoso se desde a infância, para nossos filhos e filhos dos nosso filhos, considerando o ritmo instável da modernidade, multitarefas, a sensação de bombardeio, bombardeio de informações, celulares, internet, TV, rádio, mensagens de texto e tudo o mais – até mesmo o entretenimento é como entrar num ringue com um pugilista, sendo espancado até a submissão – não seria maravilhoso se nossos filhos, já que a minha geração e as gerações anteriores e a seguinte criaram este mundo, um mundo de déficit de atenção e hiperatividade – não seria maravilhoso se pudéssemos oferecer às nossas crianças um tipo de imunização psicológica para ajudá-las a se prevenir de sofrerem de DAH, de sucumbirem ao apelo de todo o meio ambiente, à entropia da mente? Então como?

Drogas como a ritalina, adderall, tratam os sintomas, o que o torna dependente e habituado desde bem pequeno. “Se você tem um problema psicológico, apenas encontre uma droga”. Em outras palavras, “Quando encontrar a droga, apenas diga sim, apenas diga sim”. Se pensar em si mesmo como sendo um cérebro e em todos os problemas psicológicos como sendo cerebrais, você chegará a conclusão de que a forma de tratá-los é apenas dizer sim à droga. Ainda que as drogas psicofarmacêuticas possam ser valiosas, penso que é uma limitação paralisante pensar que esta seja a única forma. Remediar.

Se estamos realmente buscando equilíbrio mental, equilíbrio emocional, como penso que todos nós estamos, ou ao menos bem-estar, como podemos treinar esta besta selvagem, a atenção, trazer equilíbrio a ela? Para que, quando desejarmos ficar quietos, tenhamos essa opção; quando desejarmos ter um fluxo livre de pensamentos, sonhar acordados, tenhamos essa opção; bem como pensar criativamente, analiticamente, pensar sobre o passado e antecipar o futuro, tenhamos essa opção; e quando quisermos apenas ficar quietos, atentos, receptivos, conversando com uma criança, um amigo, sua esposa, numa reunião de negócios, educação, etc.; apenas desejar ficar totalmente em silêncio – não quero dizer ficar aéreo, quero dizer presente, com discernimento, apenas assimilando a realidade, ao invés de insistir em dialogar o tempo todo. Como?

Já que tivemos o Professor Ramachandran, com formação indiana, falando paradigmaticamente da perspectiva científica ocidental, com forte e grande ênfase em entender o que é objetivo, físico e quantificável, eu agora vou "virar a mesa", sendo um anglo falando da perspectiva indiana clássica. Como desenvolvemos habilidades de atenção? Como desenvolvemos equilíbrio da atenção? A Índia é a principal civilização do planeta em termos de séculos de pesquisas realizadas com o que é chamado de “samadhi”. O primeiro passo é: você pode aprender a relaxar? É uma habilidade. É uma habilidade a ser cultivada. Colocar seu corpo à vontade, colocar sua mente à vontade, soltar.

A primeira coisa é que não há nada a dominar; é, na verdade, “deixar ir”. Não há nada para adquirir ou alcançar, a primeira coisa é soltar, liberar toda a ruminação, tanto quanto puder, a cada respiração. Deixe que cada expiração seja uma entrega, uma feliz rendição. Uma liberação da respiração, liberação da tensão corporal, uma liberação da ruminação, a cada respiração. Traga sua consciência de volta ao momento presente, não com um punho cerrado, mas com relaxamento, liberação. É uma habilidade a ser cultivada. Nós deveríamos ensinar isso às nossas crianças desde a pré-escola, porque eles já estão sendo doutrinados a agarrar as coisas, e estão aprendendo bem como fazer o que tem que ser feito, mas com tensão, apertando, com esforço, com ego; eles aprenderão essa lição com certeza. Precisamos de alguma imunização contra isso para ajudá-los a se equilibrar, para eles e para nós também.

Então, o primeiro ponto é relaxamento, é soltar. Liberar-se no momento presente. Quando você chega nesse ponto, “Oh, alô realidade!”, pois, afinal, o passado já não existe mais e o futuro não existe ainda, portanto, se você está interessado na realidade, sabe onde encontrá-la: entre os dois, entre o que ainda não passou e o que ainda não é o futuro; no que está acontecendo neste momento, é aí que está a riqueza; liberar-se dentro disso, e então estabilizar, encontrar literalmente a presença mental, e estabilizar-se aí. Encontrar alguma quietude interior. Estabilidade, compostura, recolhimento. O termo em sânscrito “samadhi”, que não faz parte da língua inglesa, significa unificação da mente, organizar-se no momento presente. Focado, estável, relaxado.Para todos os professores, não seria maravilhoso, se ao entrar na sala de aula, para começar a aula, seus alunos estivessem todos preparados, relaxados, estáveis? O professor entrando na sala... eles verdadeiramente aprenderiam alguma coisa. Relaxado, estável, quieto... mas não é suficiente! Precisa haver alguma clareza nisso. Clareza, vivacidade, acuidade elevada, brilho da mente. Observando clara e atentamente ao que quer que queiramos direcionar nossa atenção, seja estudando, criando, dirigindo, conversando com alguém que amamos, ou com alguém que não amamos tanto, mas estando totalmente atentos. Aí está a chave!

Tudo pode ser cultivado, e há uma sequência para isso. Primeiro relaxamento, e então estabilidade, e depois vivacidade. Há algumas surpresas guardadas quando você se engaja nesse tipo de prática, e qualquer pessoa pode fazer; religiosos, não religiosos, você nem precisa estar realmente interessado em meditação, quanto menos em Índia, budismo tibetano, hinduísmo e assim por diante. Você não precisa ter interesse em nada disso. Se você quiser, ótimo! Tudo o que você precisa ter interesse é em encontrar uma sensação interna de bem-estar, um equilíbrio da atenção, que você poderá aplicar em qualquer outra tarefa na qual deseje engajar-se, incluindo adormecer; e então, quando você se deitar na cama, cansado, pronto para dormir, essa é realmente uma opção, porque então você relaxa, permite que sua mente se aquiete, e então você pode liberar a clareza conforme adormece. Portanto, encontrar paz mental, paz mental interior.

Quando a mente está tomada por ruminação, pensamentos obsessivos e delusórios, aquele período refratário, não é nada agradável. Mas, quando você encontra apenas esse equilíbrio da atenção, relaxamento, estabilidade e clareza, não é apenas uma sensação de paz e de calma interior que surge: você começa a desfrutar da prática, pode ser simplesmente atenção plena à respiração, que não é intrinsecamente um ato agradável, é observar sensações bastante neutras, mas não é que a respiração em si se torne agradável, é a qualidade da consciência que surge nessa tarefa neutra, e uma sensação de bem-estar, além da paz e serenidade, uma sensação de felicidade real, uma sensação de florescer, que não está vindo do que você obtém do mundo, mas que está vindo do que você está trazendo ao mundo.

É a qualidade do equilíbrio da atenção, o primeiro passo em direção ao equilíbrio mental, e os gregos deram um nome a isso. Sócrates, Platão e Aristóteles chamaram de eudaimonia – felicidade genuína, florescer humano. Aristóteles chamou isso de estar a serviço da alma em conformidade com a virtude, podendo ser mais de uma virtude, em conformidade com a virtude mais elevada. Eudaimonia, sensação de bem-estar que não é impulsionada por estímulos, que não necessita de um companheiro, não precisa de entretenimento, não precisa seja do que for, não precisa nem mesmo de pensamentos felizes para mantê-lo vivo. É uma qualidade da consciência em si, é de fato um sintoma de saúde mental.

Da mesma forma,  o sintoma de uma lesão ou doença física é sentir-se mal, um sintoma de desequilíbrio mental é sentir-se mal. É bom que se sinta mal quando está mentalmente desequilibrado, caso contrário não teria nenhum incentivo para buscar o equilíbrio mental. “Não mate o mensageiro”. Esta é a minha queixa contra o uso exagerado de psicofármacos: matar o mensageiro, isso é o que farão! Enriquecendo a indústria farmacêutica, mas empobrecendo todos que se tornam dependentes. Portanto, eudaimonia, um senso de bem-estar que surge do que trazemos ao mundo e não do que obtemos dele.

Uma das questões que me pediram para abordar é como nossos desejos e impulsos afetam nosso bem-estar, nosso desenvolvimento psicológico. E eu sugeriria que, enquanto estivermos investindo como se tivéssemos um portifólio bancário de investimentos, enquanto estivermos investindo nosso tempo, nossa energia, nossa criatividade, nossas aspirações e objetivos puramente em prazeres hedônicos, “vida boa” significará ter muita sorte todo dia, alcançada por adquirir mais e mais, riqueza e tudo o que o dinheiro puder comprar, alcançada por obter estima, consideração, reconhecimento, respeito, apreciação e amor de outras pessoas (alcançada obtendo status, poder, influência, sabendo que você é realmente alguém); enquanto a pauta das nossas vidas for focada unicamente em obter prazer hedônico, o prazer que obtemos do mundo à nossa volta, da riqueza, de outras pessoas, do trabalho, do meio à nossa volta, então, acho que qualquer tipo de equilíbrio emocional duradouro mais uma vez estará fora de alcance, por uma razão muito simples: o mundo está amplamente fora do nosso controle.

Certamente há um papel para o bem-estar hedônico. Satisfazer suas necessidades materiais, alimento, roupas, abrigo, cuidados médicos quando precisar, educação para os seus filhos: tudo isso é muito importante. Mas também vislumbrar onde se encontra minha felicidade genuína. Como eu posso cultivar esse estado de bem-estar que não depende de o mundo ser do meu jeito, de acordo com os meus desejos? Eu acho que incluir isso em nossa visão de mundo, de nosso próprio florescer, da boa vida, o que verdadeiramente me faz feliz, é na verdade, em conjunto com o equilíbrio da atenção, uma chave para o equilíbrio emocional. Em outras palavras, maturidade.

Maturidade em termos de desejos. Não temos mais desejos infantis, não queremos mais um caminhão de bombeiros novo, mas permitir que nossas aspirações amadureçam na sabedoria, como na sabedoria dos santos, do Buda, de Shankara, Chuang Tzu, assim por diante. Todas as grandes tradições de sabedoria do mundo, religiosas e não religiosas... Aristóteles não era propriamente um religioso, mas um grande filósofo. Sócrates também. Todas as grandes tradições de sabedoria do mundo, todas têm – com variações, é claro – uma visão de eudaimonia. Isso é mais do que simplesmente prazer impulsionado por estímulos, e eu não estou reclamando dos prazeres impulsionados por estímulos, mas é que sobre eles não temos muito controle, certo? Casamento, riqueza, fama: você acha que tem controle sobre isso? Eu acho que não.

Então, vislumbrar como posso transformar a mim mesmo. Haverá um correlato cerebral? Sim, eles virão na sequência, eles virão junto, os correlatos cerebrais. Mas como de fato fazer acontecer tal amadurecimento, mais sabedoria, um amadurecimento da experiência de eudaimonia? Não será introduzindo alguma coisa no seu cérebro, porque isso não traz sentido, injetar uma droga no seu cérebro não é uma atividade significativa, mas sim levar uma vida significativa: isso é significativo porque sua vida é significativa, porque suas ações são significativas, porque suas atitudes são significativas. Neurônios não são significativos.

As substâncias químicas são muito complexas, certamente, mas ainda são químicos. Não há nada dentro do cérebro além de substâncias químicas e eletricidade. Nós deveríamos evitar às vezes mitificar o cérebro. Substâncias químicas e eletricidade com uma complexidade incrível. A mente não é uma coisa menos extraordinária, e ainda não há evidências de que o cérebro e a mente sejam a mesma coisa. Se houver alguma, eu gostaria de ver. São Tomás de Aquino, um mestre da mente cristã, disse que todo o sentido da vida política, de toda essa busca por bem-estar hedônico, tudo é para o bem da vida contemplativa, tudo em nome de uma vida significativa, para cultivar a felicidade genuína.

Refinar a prática da atenção, desenvolver um tipo de tecnologia contemplativa, relaxamento, estabilidade e vivacidade, temos que trazer isso à vida. Observar atentamente, prestar atenção, dar o nosso melhor à realidade. Isso significa permitir que a luminosidade clara da nossa atenção ilumine a nossa própria mente, de forma a estarmos conscientes quando pensamentos, imagens, desejos, emoções surgirem. Teremos essa consciência metacognitiva que nos dá a opção, a possibilidade de fazer escolhas mais sábias quando um impulso surgir, de não sermos simplesmente carregados por cada impulso, cada desejo, cada pensamento que aparecer e agir como um robô.

Podermos ver um impulso surgindo e então podermos fazer uma escolha. Um impulso sábio, um impulso benéfico. Equilíbrio cognitivo. Podemos compreender o equilíbrio cognitivo identificando o desequilíbrio cognitivo. Hiperatividade cognitiva é quando estamos atentos a uma pessoa ou uma situação ou mesmo à nossa própria mente com muitos pressupostos,  projeções, interpretações sobre interpretações, que nós mal podemos ver o que está acontecendo porque estamos interpretando excessivamente, ouvindo coisas que não foram ditas, vendo coisas que não surgiram, ou vivendo em seu próprio mundinho e projetando sobre a realidade. É delusão, hiperatividade cognitiva, déficit cognitivo. É quando nos recolhemos, nos desengajamos, não estamos atentos, não estamos presentes. Com nossos filhos, com nossas esposas, com nossos amigos, nós simplesmente não estamos presentes.

Então, para estarmos claramente presentes, prestando atenção à linguagem corporal das outras pessoas, às expressões faciais, o que dizem, como dizem, a qualidade da voz, a velocidade em que falam, observando atentamente.... Um amigo meu, Lawrence Freeman, amigo querido, monge beneditino, diz que o maior presente que podemos dar às outras pessoas é a nossa atenção. Atento vem da raiz latina “inclinado a”, cuidar, zelar, inclinado em direção aos outros. Ao prestarmos atenção, ao deixarmos que se tornem reais para nós, naturalmente e inevitavelmente surge um senso de empatia.

Neurocorrelatos, neurônios espelho? Extraordinário, mas não se cultiva empatia compreendendo os neurônios espelho. É muito útil, tenho certeza, mas cultiva-se empatia prestando muita atenção aos outros, até que de fato se tornem reais para você. Não como meio para o seu próprio fim, mas eles são reais, cada um é real, cada um é digno, cada um é precioso, cada um aspira ser feliz e se livrar do sofrimento, assim como nós. Então nós trazemos essa atenção plena, essa atenção minuciosa, esse equilíbrio cognitivo para dentro de nós, para experimentar vividamente nossos próprios corpos, a sensação e a experiência de estarmos encarnados, observando atentamente nossas mentes.

Prestar atenção a nós mesmos é o oposto do narcisismo. Prestar atenção aos outros estabelece a base cognitiva para a empatia, e a empatia é a base para verdadeiramente nos importarmos com os outros, assim como nos importamos conosco mesmos. Essa é a base para a bondade amorosa, compaixão. Quando estamos atentos aos que estão próximos, aos que estão distantes, vemos que não podemos evitar, começamos a nos importar mais, no sentido de desejarmos o bem-estar dos outros e que se livrem do sofrimento. Isso surge naturalmente, apenas porque estamos prestando atenção, e essa é a chave para o equilíbrio emocional.

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