"Não, querida, você não entendeu o que eu estava dizendo”
“Querida, deixe-me explicar melhor para você”
“Tchau, querida”
As placas levantadas em verde e amarelo na Câmara dos Deputados nesse domingo, 17, e a despedida cínica de alguns deputados ao manifestar apoio ao processo de impeachment de Dilma Rousseff foram sentidas como uma dose cavalar de silenciamento por mulheres que também já foram essas “queridas”, um dia; nada mais é do que um tratamento irônico e condescendente, questionador. Dilma não era querida pelos 367 deputados que votaram a favor do impeachment, e sim mais uma mulher incapaz de compreender e assumir o governo federal. A palavra “Querida”, nesse caso, traz uma carga sexista e incapacitante por trás.
Desconsiderar o posicionamento de uma mulher, relevar seus sentimentos e opiniões, apropriar-se de ideias e promover interrupções constantes e desnecessárias são demonstrações de machismo bem comuns e, muitas vezes, invisíveis. Durante a votação do impeachment, por exemplo, mulheres foram interrompidas diversas vezes pelos gritos dos deputados na hora de declarar o voto, fosse ele favorável ou não ao processo. Em casos de deputadas do PT ou da base aliada, a situação era ainda mais grave.
Essa interrupção é chamada de “manterrupting”, junção de “man” (homem) e “interrupting” (interrupção). Além dela, existem outras palavrinhas em inglês que conseguem traduzir comportamentos de caráter sexista aproveitados para silenciar, subtrair e deslegitimar a argumentação das mulheres. A gente explica alguns logo a seguir:
GASLIGHTING
Exagero, loucura, alucinação… Quantas vezes, numa discussão, o posicionamento feminino é simplificado a esse ponto? Gaslighting não passa de uma prática manipulativa que tenta desmerecer a mulher, de modo que ela questione a própria sanidade, memória, percecpção ou coerência. Trata-se de uma violência emocional muito comum em relacionamentos abusivos, como no caso do filme “Gaslight”, de 1944, que originou o termo. Na trama, o personagem Gregory Anton tenta enlouquecer a esposa Paula, brincando com as luzes de casa para que a própria perca a percepção da realidade. As expressões mais comuns, nesse caso, são: “Você está louca”, “para de surtar”, “que exagero”, “como você é dramática” e por aí vai.
MANTERRUPTING
Como a gente disse ali em cima, manterrupting é a interrupção repentina e desnecessária da fala de uma mulher. Uma pesquisa da Universidade de Yale, nos Estados Unidos, mostrou que senadores do sexo masculino são tidos como mais competentes devido à habilidade de discursar com entusiasmo para os eleitores. O mesmo não vale para as senadoras, porém; enquanto os homens são ovacionados pelos discursos, elas são são tidas como menos competentes ou agressivas demais na oratória. Para dar uma “segurada” na onda das mulheres, portanto, é necessário interrompê-las diversas vezes, embora essa seja uma atitude deselegante e condenada entre os homens.
MANSPLAINING
Além da interrupção, existe a tentativa de explicar o óbvio a uma mulher, mesmo que ela esteja certa ou coerente em sua argumentação. Novamente, é como se os homens precisassem validar o que a colega ou parceira está dizendo, dando a última palavra, ou apenas desmerecendo o que ela tem a dizer. Não faz sentido, mas é uma prática atrelada à interrupção masculina. “Não, querida, você não está entendendo” é um exemplo bem recorrente nesses momentos. Soraya L. Chemaly, especialista em teorias de gênero, feminismo e cultura afirma que a resposta das mulheres, nesses casos, deve reforçar a obviedade da argumentação masculina, como quem diz: “pois é, exatamente o que eu acabei de dizer”.
BROPRIATING
Já que as mulheres são interrompidas e corrigidas com mais frequência, apropriar-se de suas ideias é tarefa simples e corriqueira. É isso que significa a junção de “bro” (mano, cara) e “apropriating” (apropriação): quando um homem se aproveita das ideias ou argumentos de uma mulher sem lhe dar os devidos créditos, como se fosse o autor daquele pensamento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário