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sábado, 2 de abril de 2016
"Recentemente fui informado de que há rumores dando conta de que, entre a magnitude de adeptos das redes, poderia existir um remotíssimo e obscuro percentual de usuários que conseguiriam, nestes dias de turbulência política, passar infensos à esta bipolaridade. Eu digo com tranquilidade que nunca vi essas pessoas nem na minha timeline nem no meu feed de notícias e isso, pelo menos no meu universo de observação, reforça a ideia de que, diante da atual crise política, todos sucumbiram ao delírio voluntário – ao próprio e ao alheio – ainda que por motivos e em graus diferentes. (...) Muitas pessoas se queixam, nas próprias redes sociais, de uma excessiva bipolaridade no campo político e, desde os movimentos de junho de 2013 e das últimas eleições presidenciais, contatos (ou 'amigos') exigem-se condutas e posicionamentos. A isenção é tolerada, mas também mal vista nas redes sociais. Muito mais que uma divisão entre 'governistas' e 'oposição', ricos ou pobres, brancos ou pretos, homens ou mulheres, a aposta na dicotomia de opiniões muitas vezes é um artifício pelo qual os indivíduos angariam aprovação dos demais, mas a cisão de opiniões políticas, diferentemente da opinião esportiva ou religiosa, implica sempre num jogo de confiança e desconfiança. Racionalmente, se diante de um caso crítico, por exemplo envolvendo crimes penais ou administrativos, uma pessoa não é capaz de posicionar-se claramente, é muito difícil para ela conseguir sustentar uma imagem de isenção dali em diante. Erving Goffman, sociólogo canadense falecido em 1982 e que nunca estudou as redes sociais, matou esta charada 70 anos atrás, quando publicou, em 1959, o seu 'A representação do eu na vida cotidiana'. Para ele, a projeção que uma pessoa faz ao atrelar-se a um grupo social identificado sob uma opinião predominante, mesmo que obsequiosamente, resume para aquele momento em toda a sua identidade individual." (Lúcio Carvalho/Observatório de Imprensa)
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