Fisicamente, ela é pequena. O corpo miúdo contrasta com os traços fortes do rosto, a cabeça parece um pouco maior do que deveria ser. Nascida Marina Ann Hantzis, ao completar 18 anos abandonou a faculdade na Califórnia, onde estudava cinema após completar o ensino médio um ano mais cedo. Em seguida adentrou a indústria pornô usando o nome Anna Karina, como homenagem à musa de Jean-Luc Godard, mas logo misturou KMFDM, Oscar Wilde e pequenas alterações de grafia para chegar ao pseudônimo sob o qual ganharia notoriedade: Sasha Grey.
Logo no primeiro filme a postura deliberadamente desafiadora e casca-grossa – “a degradação parecia ser incapaz de degradá-la”, como bem definiu Daniel Galera – chegou a intimidar Rocco Siffredi, veterano macho alfa do pornô. Rocco se consagrou nos anos 1990, década de Sylvia Saint e Jenna Jameson, pornstars com personalidade de boneca inflável. Verdade que nessa época também havia Asia Carrera, integrante da Mensa (associação internacional de indivíduos com alto QI). Mas era uma curiosidade biográfica e nada mais: apesar de inteligente e autoproclamada nerd, Carrera não transferia essas características pessoais para seu trabalho na indústria pornográfica.
“Quantas atrizes pornô são existencialistas?”, Sasha Grey perguntou retoricamente numa entrevista feita em algum ponto dos três anos de carreira como atriz (se parece pouco, cabe lembrar que foram 271 filmes). Ela entrou em cena em meio à ascensão no pornô de mulheres fortes e de postura mais assertiva, como Belladonna, uma influência confessa. Acabou se destacando pela combinação entre performances e persona: as referências intelectualizadas já bastariam para que chamasse a atenção em meio às colegas, mas Sasha tentava encarnar o próprio discurso, transformando suas atuações em intervenções performáticas e construindo aos poucos e em público uma persona artística bem delineada, uma (por mais que isso pareça estranho em se tratando de atrizes pornô) marca autoral. E nesse processo, ao mesmo tempo deixava transparecer uma honestidade quase perturbadora para quem estava prestando atenção.
Com essas características e esse histórico de interesses e inquietações, parece natural que Sasha Grey não tenha ficado satisfeita apenas com a pornografia, que abandonou de vez em 2011 (...).

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