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terça-feira, 23 de julho de 2013

O QUE NOS DIZ A ARTE KAXINAWA SOBRE A RELAÇÃO ENTRE IDENTIDADE E ALTERIDADE? 
(Elsje Maria Lagrou)


A mais inclusiva autodefinição [em termos de alteridade] para um Kaxinawa é nukun yuda, que significa "nosso mesmo corpo": um corpo que é produzido coletivamente por pessoas que vivem na mesma aldeia e que compartilham a mesma comida. São os parentes próximos que provocam um forte sentimento de pertencimento e, quando estão ausentes, é sentida sua falta, expressa pelo termo manuaii, palavra usada para definir a saudade de um parente próximo, do mesmo modo como se designa a sensação física e vital da necessidade de água.

Água é vital para o corpo assim como parentes são vitais para constituir o "eu". Isto pode ser ilustrado pela seguinte sentença proferida por Antônio Pinheiro, Kaxinawa: "Quem não sente falta dos seus parentes, como se sente falta de água, não é gente. É como um yuxin que fica vagando por aí." Alguém deixa de ser um "verdadeiro" Kaxinawa por não residir mais em uma aldeia, por viver muito tempo em lugares diversos, o que resulta na aquisição de um corpo diferente e, através dessa diferença corporal, em uma diferenciação também dos sentimentos, pensamentos, valores e memórias. A ontologia kaxinawa considera a alteridade como uma dificuldade, em última instância fatal, um inescapável e insolúvel paradoxo: o único modo de concebê-la é tornar-se, a si próprio, "outro".


O punctum, ou detalhe esteticamente agradável, por outro lado, pertence ao domínio dos eventos imprevisíveis e da criatividade pessoal. Por este motivo, um ângulo a mais, em uma das múltiplas gregas que compõem um padrão, perturbará a simetria perfeita da estrutura e chamará a atenção para a autoria da peça de arte, assim como para o fato de, mesmo em um padrão geral de similaridade, nada ser produzido duas vezes sem que sofra uma pequena transformação no processo de reprodução. Do mesmo modo que o ser humano é único por causa da sua história pessoal e singularidade corporal, todo produto do trabalho humano é único na técnica e na concepção, e o artista kaxinawa nunca deixa de marcar essa singularidade por meio de um detalhe sutil. Assim, a qualidade de ser único apesar de parecido é conscientemente feita visível através da introdução de pequenas distorções nos padrões clássicos, distorções estas que dão à peça o seu caráter.

O punctum é, portanto, a dissonância próxima do detalhe invisível, a surpresa necessária para a dinâmica visual, aquilo que dá vitalidade estética ao todo, um ponto assimétrico no interior de uma simetria. É necessário que exista certa homogeneidade nos elementos visuais para que a pequena diferença seja capaz de tocar nossos olhos. A arte kaxinawa explora elegantemente o entrelaçamento do studium e do punctum. Dessa maneira, para um pano tecido ou para uma face pintada, a primeira impressão será a de uma superfície coberta por um padrão geométrico constituído pela infinita repetição de unidades iguais. Um olhar mais acurado, porém, perceberá que um dos losangos do padrão colmeia contém um círculo interior a mais que os outros. Este é o punctum, e sua ocorrência na arte kaxinawa é sistemática. Outro exemplo desse fenômeno pode ser visto nos colares. Se um colar de contas, por exemplo, é composto pela alternância de seis contas vermelhas e seis azuis, em algum lugar no meio do colar se encontrará uma conta branca perturbando, propositalmente, a perfeita simetria e repetição do padrão.

Outra característica que aumenta a particularidade e a qualidade distinta de uma peça de tecido desenhado é a transformação suave de um padrão em outro. Essas transformações ocorrem somente em panos decorados com motivos que cobrem uma superfície extensa. O fenômeno me foi explicado da seguinte maneira: "Na pele de Yube tem todos os desenhos possíveis. A cobra tem vinte e cinco malhas, mas cada uma dá em vários outros desenhos. No fim das contas, todos os desenhos pertencem à mesma pele da jiboia." (Agostinho Kaxinawa) Edivaldo, jovem liderança, expressou-se em termos similares: "O desenho da cobra contém o mundo. Cada mancha na sua pele pode se abrir e mostrar a porta para novas formas. Há vinte e cinco manchas na pele de Yube, que são os vinte e cinco desenhos que existem."

Peter Roe chamou a atenção para a correspondência entre esse estilo artístico e um estilo de pensamento. O autor argumenta que a "ambiguidade visual" dos desenhos shipibo (grupo pano do Peru) corresponde a uma "ênfase na ambiguidade mental" (Roe 1987:5-6). "Ambiguidade mental" é uma expressão problemática que pode ser facilmente substituída por "perspectivismo" sem, contudo, transformar o significado primordial dessa analogia. Para Roe, a significação da ambiguidade perspectiva na arte indígena "abstrata" repousa no que ela nos fala sobre a atitude cognitiva do artista e do público pretendido. Para os ameríndios, o universo é transformativo. Isto significa que o que vemos pode, repentinamente, mudar diante de nossos olhos. O mundo é composto por muitas camadas, os diversos mundos são pensados enquanto simultâneos, presentes e em contato, embora nem sempre perceptíveis. O papel da arte é o de comunicar uma percepção sintética dessa simultaneidade.

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