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terça-feira, 23 de julho de 2013

Nixi pae entre os índios Kaxinawa no Leste do Peru
(Barbara Keifenheim/traduzido do alemão por Ricardo Ferreira Henrique)

Nas sessões dos Kaxinawa, observei que os efeitos do nixi pae não se manifestam em uma progressão contínua, mas sim crescem e diminuem em várias fases, embora também ocorram efeitos nos quais a ordem de percepção cotidiana parece ser temporariamente re-estabelecida. Assim, algumas vezes os participantes saem do círculo dos bebedores embriagados de nixi pae e conversam sobre suas experiências e suas visões com outros que também estejam num momento de tranquilização. Porém, ao perceber uma reiteração do efeito, o indivíduo retorna rapidamente ao seu lugar. O decorrer de uma sessão de droga em diversas fases foi-me representado graficamente na forma de uma linha ondulada.

Assim que o efeito da droga se manifesta, primeiro ocorre uma alteração da percepção acústica. Enquanto os participantes ainda percebem o mundo material ao redor com "olhos normais", eles começam a ouvir coisas para as quais não há correspondentes visuais. Assim, sempre ouve-se primeiro um "vento forte" (niwe kuxipa) , sem que haja uma real movimentação das árvores ou das folhas no campo visual do participante. Trata-se de um "ouvir, sem ver o que se ouve" (bana ninka). Em seguida, o espaço acústico tornado autônomo é atravessado por sons cristalinos, reproduzidos de modo onomatopaico: Tinnn.... Bing... Piii... Com um certo atraso temporal em relação a estes "relâmpagos acústicos", em seguida tem-se a visão de relâmpagos luminosos multicoloridos. Os contornos do mundo material também se iluminam, e diluem-se em incontáveis desenhos luminosos (ma yama bai tapia-ki). Deste modo, a impressão de profundidade espacial se apaga.

Em seguida, também altera-se a percepção da ordem temporal dos processos de vibração acústica: ao invés de ir-se perdendo na distância, os sons e os timbres voltam a crescer (chintuani "ir e voltar", "virar numa curva"), causando uma forte pressão no ouvido. A partir deste momento, as sequências sonoras são visualizadas como "caminhos sonoros" (bana bai). Nesta fase inicial, eles são descritos como "tortos" (bai yuxtu). Quando estes movem-se em direção ao ouvinte, são comparados a serpentes que os circundam e por fim os envolvem com força, antes de "penetrar em sua cabeça e espalhar-se no corpo inteiro" (buxka medan ichapa haida-kain-mis-ki hame-dan hiki-mis-ki hawen yuda medan).

Com o prosseguimento do efeito da droga, os participantes têm a impressão de que os sons percebidos produzem, ou esboçam, "desenhos" (kene). Agora, eles vêem como tudo é recoberto - da terra (mai) até o próprio corpo (yuda) - por desenhos geométricos pretos em transformação contínua. "Agora tu tens a impressão nítida de que tudo é mantido junto por desenhos" (Xabaka mia kene mani-a-ki), é a descrição desta fase. Estes desenhos permanecem como uma constante visual em todos os estágios subsequentes da embriaguez. Os padrões ornamentais induzidos pela droga são descritos como grandes formas geométricas abstratas.

Pouco a pouco, os "caminhos sonoros" dos cantos se sobrepõem acusticamente. As vozes de pássaros "chamam" as lagartas (xena), que sobressaem dos desenhos. Segundo cada tipo de cipó, logo as lagartas visualizadas transformam-se ou em serpentes (no caso de baka huni) ou dissolvem-se em sangue (no caso de xawan huni) ou em chuva torrencial (no caso de xane huni). E assim começa a segunda fase nixi pae.

A segunda fase é marcada pela presença maciça de visões (dami), independente dos olhos estarem abertos ou fechados. Assim que um participante começa a perceber seres humanos ou espíritos antropomórficos, isto é um sinal de que ele agora se encontra no estágio da "embriaguez completa" (pae kayabi). As características que definem o estado de pae kayabi são o fenômeno de ver a si mesmo de fora ou de se perceber enquanto chuva ou crocodilo gigante, assim como a sensação de movimentar-se no céu estrelado ou em partes desconhecidas do mundo, de encontrar-se em um outro tempo.

À medida que a alteração da percepção progride, também violentamente parece que o corpo perde seus limites. O bebedor de nixi pae sente como seu peito "pula" (naxpi-kia), de maneira que as vísceras saltam para fora. A proximidade do auge é anunciada pela mistura crescente da percepção de imagens e de si próprio. Alguns descrevem que, neste momento, têm a sensação tanto de serem tragados para o interior das imagens, quanto de que as imagens penetram em seus corpos.

Os bebedores de nixi pae são denominados "crianças pequenas crescendo" (bake yume-tan).





Huni Meka • Os cantos do cipó from Missawa on Vimeo.


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