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sábado, 30 de abril de 2011



Hævnen é aqui. É aqui.

Assistimos hoje de manhã a mais essa obra-prima dinamarquesa. Depois do filme, teve debate com o Roger Lerina, da Zero Hora, e a Eneida-alguma-coisa, da Sociedade Psicanalítica. Quando subiam os créditos e, alegoricamente, a dupla tentava fazer com que houvesse luz sobre eles, falei para a Angela Francisca: "Risco máximo esse debate. Tem que ser macho como o médico pra falar alguma coisa que preste". Também concordamos que o tema era um prato cheio. Mas pra nós – não pra eles.

O paraíso é aqui, assim como é, e não como alguma utopia, ou como alguma fantasia. Ele inclui a violência, que é inerente às leis da Natureza. A imagem de uma carcaça bovina ilustra o fato de que a violência que aparecia nos personagens é a mesma que apareceu no momento em que aquele animal havia sido atacado - e morto. Alguma sinopse é necessária para o texto que estou desenvolvendo.

Elias é um pré-adolescente sueco e com aparelho ortodôntico. Ele serve de bucha para a gangue dos espertinhos do colégio, liderada por Sofus. Seu pai, Anton, é médico que atua em algum país não-identificado da África. Christian é um garoto novo na cidadezinha da Dinamarca., recém chegado de Londres, onde sua mãe havia falecido. Christian é designado para sentar ao lado de Elias, que fica contente por isso. Sofus esvazia o pneu da bicicleta de Elias todo santo dia, obrigando-o a levar a bicicleta arrastada até sua casa. Christian tenta ajudar Elias a reagir e recebe um golpe de bola de basquete no nariz.

Christian percebe que Sofus está intimidando Elias no banheiro, entra lá, dá uma surra de bomba de bicicleta no guri, finalizando lição com uma faca no pescoço, dizendo para ele nunca mais agir daquela forma. Cria-se o primeiro dilema, que depois se repete em outras duas situações, que necessariamente não precisam ser abordadas para reflexão.

Christian agiu certo? Ou errou por usar violência contra violência? O colégio, ficou claro, como na chamada vida real, não estava interessado em intervir nessas questões de bule. Se Christian não tivesse surrado Sofus, quantas vezes ele iria agredir colegas mais ingênuos e pacíficos? Se fez certo, como imaginar um mundo em que seria praxe revidar sempre? O que é ideal? Um meio termo entre a covardia passiva e a covardia ativa? Que meio termo é esse? É mais nobre ser forte e não reagir, passivamente, ou ser forte e reagir, proativamente? São questões que ninguém pode responder, tampouco Susanne Bier.

A psicanalista diz que o filme é muito forte e que se não tivesse o final atenuante seria insuportável. Chama as situações que aconteceram de barbárie. Algo a ser evitado. Mas o questionamento claro da cineasta é que não tem como evitar, não tem como não encararmos essa faceta da existência, a ficção da Sociedade não é suficiente para conter os instintos dos animais que somos. Achamos aterrorizantes os Tiranossaurus rex, espécie dominante noutra era, mas não assumimos conscientemente que somos tão terríveis quanto eles. Não há como dominar o planeta sem esse ônus. E não somos nós que fazemos a regra desse Jogo que é a Existência; é a própria Existência. Não somos funcionários da Estrela ou da Grow. Somos habitantes de um planeta.

Outra questão que aparece no filme é que, mesmo que você queira com todas as forçar evitar a violência, vai haver situações em que uma atitude passiva pode gerar indiretamente uma violência. Ficar quietos diante da violência é uma forma de violência, seja essa violência preponderantemente fîsica ou psicológica. Tem mais: o que é violência para um pode não ser para o outro. Eu me sinto agredido, por exemplo, quando querem me agradar demais, fazer coisas por mim. Fere a minha liberdade de fazer. Então há tudo isso, nada é definitivo. Lembro de quando tive aula com o professor Zezeu, em Brasília, e aprendi que a ética depende de cada situação. Em determinada circunstância, uma atitude aparentemente antiética pode ser a mais ética a se tomar.

Fica claro para mim, em uma cena de linchamento, que a punição violenta não sublima a vontade de violência, ou de vingança. Quando a vítima está ali apanhando, chorando, a potência se realiza e se esvazia ao mesmo tempo. Vingança de assassinato sabe-se que nunca apaga a dor da perda que gerou o ato de revide. Mas e então o estuprador vai ficar por aí estuprando? Ninguém fará nada contra os agressores e eles vão se sensibilizar com o gesto e vão se regenerar? Não. Vão rir e cuspir. Ah, a lei, a cadeia, isso não é violência... claro que também é! Prisão perpétua? Uma pena de morte em que ninguém dará o choque.

Quando decidem explodir uma van, os dois garotos prevêem que alguns outros carros que estiverem perto também serão atingidos. Essa é a lógica do ato violento em nome de uma causa, como os atentados terroristas. Estão matando inocentes, mas estão tentando dizer algo importante, já que a surdez é generalizada, que somos cegos que, vendo, não vêem. O Lobão é agressivo em suas declarações? Pode ser. Ele está mentindo? Não. A maioria concorda com o que ele diz? Não. Então a ênfase da agressividade, da generalização ou do exagero pode servir de sacudida necessária para uma situação inerte, para tirar milhares de mãos da frente de orelhas entupidas de cera. Porque a situação inerte pode também ser violenta. Como a mediocridade em qualquer aspecto da vida.



Não existe outro Paraíso que não este. Devemos estar preparados para tudo. Devemos descatrastofizar a catastrofização da sociedade. James Joyce disse para estarmos radiantes na sujeira do mundo. A flor-de-lótus é um símbolo budista porque é uma flor que nasce no lodo. Rainer Maria Rilke disse que somente quem não exclui nada pode ir até o fundo da própria existência. E Leminski disse que:

Quem nunca viu
que a flor, a faca e a fera,
tanto fez como tanto faz,
e a forte flor que a faca faz na fraca carne,
um pouco menos, um pouco mais,
quem nunca viu
a ternura que vai
no fio da lâmina samurai,
esse nunca vai ser capaz.



Em tempo: Elias significa "Jesus é meu Deus", e Christian significa "seguidor de Jesus". e Anton significa "merecedor de prece".

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