Médico conta bastidores do "lobby farmacêutico"
New York Times, 25 de novembro de 2007 (Daniel Carlat)
Era um dia frio de outono na Nova Inglaterra, em 2001, e o amistoso representante da Wyeth Pharmaceuticals me visitou em meu consultório em Newburyport, Massachusetts, para me convidar a fazer palestras a outros médicos sobre o uso do Effexor XR como remédio para a depressão. A Wyeth forneceria as ilustrações para as palestras e me pagaria um curso que me ensinaria a falar melhor em público.
Eu visitaria os consultórios de outros médicos na hora do almoço e receberia US$ 500 por sessões de almoço informativo. Os honorários subiriam para US$ 750 caso eu tivesse de viajar mais de uma hora de carro. A empresa bancaria uma viagem de "treinamento de professores" a Nova York, onde eu seria mimado em um hotel da região central de Manhattan por duas noites, além de receber um "honorário" adicional.
Eu tinha um consultório psiquiátrico movimentado, e minha especialidade era a psicofarmacologia. Conhecia bem o Effexor, e havia lido estudos recentes segundo os quais o medicamento poderia ser ligeiramente mais eficiente que os remédios conhecidos como SSRI, os antidepressivos mais comuns - Prozac, Paxil e Zoloft, por exemplo.
"SSRI" quer dizer inibidor de regeneração seletiva de serotonina. O remédio eleva a presença do neurotransmissor serotonina, um produto químico que o cérebro produz e ajuda a regular nossos humores. O Effexor estava sendo comercializado como inibidor duplo de regeneração, o que significava que ele elevava ao mesmo tempo a serotonina e a norepinefrina, outro neurotransmissor.
A teoria promovida pela Wyeth era a de que dois neurotransmissores com certeza seriam melhores que um. Eu já havia receitado Effexor a diversos pacientes, e o remédio me parecia trabalhar no mínimo tão bem quanto os SSRI. Se eu fizesse palestras a clínicos sobre o Effexor, arrazoei, não estaria violando a ética. A Wyeth talvez se beneficiasse, mas os demais médicos também obteriam vantagens, porque receberiam mais informação sobre um bom remédio.
Poucas semanas mais tarde, minha mulher e eu estávamos no saguão do luxuoso Millenium Hotel, em Manhattan. Na recepção, me foi entregue uma pasta que continha o cronograma das palestras, um convite para diversos jantares e recepções, além de dois ingressos para um musical da Broadway. Comecei a sentir certa dor na consciência. O dinheiro investido parecia excessivo, se o objetivo do grupo farmacêutico era simplesmente que eu instruísse os médicos que trabalham em pequenas cidades ao norte de Boston. (...) No final da última palestra, todos recebemos envelopes ao sair da sala. Dentro deles, havia cheques no valor de US$ 750. (...)
Era como um vício, não foi fácil abandonar o hábito. Havia outro problema. Pacientes que suspendiam o tratamento com o remédio estavam reportando sintomas como tontura e náuseas severas, sensações bizarras de choque elétrico em suas cabeças, insônia, tristeza e choro. Começou a gradualmente ficar claro que se tratava de sintomas causados pela abstinência. Na reunião da Wyeth em Nova York nos haviam assegurado de que os sintomas causados por abstinência não eram comuns, no Effexor, e em geral era possível evitá-los por meio de uma redução gradual da dosagem.
Mas, em meu consultório, era comum que essa idéia não funcionasse, e os pacientes estavam sofrendo para largar o remédio. Isso me fez pensar duas vezes antes de receitá-lo, dali por diante. Em minhas palestras, eu mencionava os dois aspectos da questão, afirmando que os sintomas causados pela abstinência podiam ser fortes mas que "em geral" eram evitáveis.
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
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