DUCASSE, Isidore = LAUTRÉAMONT, Conde de. Os cantos de Maldoror.
Canto Segundo, (13)
Procurava uma alma que se assemelhasse a mim, e não conseguia encontrá-la. Revirava todos os rincões da terra; minha perseverança era inútil. No entanto, não podia continuar só. Precisava de alguém que aprovasse meu caráter; precisava de alguém que tivesse as mesmas ideias que eu. (...) Sentei-me em um rochedo, à beira-mar. Um navio acabava de içar todas as suas velas, para afastar-se dessas paragens: um ponto imperceptível acabava de aparecer no horizonte, e se aproximava aos poucos, impelido pelas rajadas de vento, crescendo com rapidez. A tempestade ia começar seus ataques, e o céu escurecia, adquirindo um negror quase tão horrendo quanto o do coração do homem. O navio, um grande vaso de guerra, acabava de jogar todas as suas âncoras, para não ser varrido sobre os rochedos da costa. O vento silvava com furor dos quatro pontos cardeais, e deixava as velas em tiras. Os trovões explodiam entre os relâmpagos, e não conseguiam encobrir o rumor dos lamentos que se ouviam na casa sem alicerces, sepulcro móvel. O balanço dessas massas aquosas ainda não havia conseguido romper as correntes das âncoras; mas seus embates haviam entreaberto um caminho para a água, nos flancos do navio. Brecha enorme; pois as bombas não bastavam para devolver as quantidades de água salgada que vêm abater-se espumando sobre a ponte, como montanhas. O navio em perigo dispara os tiros de canhão do alarme; mas soçobra com lentidão... com majestade. Quem não viu um navio afundar no meio da tempestade, da intermitência dos relâmpagos e da mais profunda escuridão, enquanto aqueles que ele contém são tomados por esse desespero que conheceis, esse ainda não conhece os acidentes da vida. Finalmente, um grito universal de imensa dor escapa dos flancos do navio, enquanto o mar redobra seus temíveis ataques. É o grito emitido pelo abandono das forças humanas. Todos se envolvem no manto da resignação, e entregam seu destino às mãos de Deus. Ajuntam-se como um rebanho de carneiros. O navio em perigo dispara os tiros de canhão do alarme; mas soçobra com lentidão... com majestade. Fizeram funcionar as bombas pelo dia todo. Esforços inúteis. A noite chegou, espessa, implacável, para culminar esse espetáculo gracioso. Cada qual se repete que, uma vez na água, não conseguirá respirar; pois, até onde chega sua memória, não reconhece nenhum peixe como ancestral; exortam-se, porém, a reter o fôlego pelo maior tempo possível, a fim de prolongar a vida por mais dois ou três segundos; é a ironia vingativa que pretendem dirigir à morte... O navio em perigo dispara os tiros de canhão do alarme, mas soçobra com lentidão... com majestade. Não sabe que o casco, ao afundar, ocasiona uma poderosa circunvolução de ondas ao redor delas mesmas; que o limo lamacento se misturou às águas revoltas, e que uma força que vem de baixo, contragolpe da tempestade que exerce sua devastação em cima, imprime ao elemento líquido movimentos sincopados e nervosos. Assim, apesar da provisão de sangue frio que ele junta antecipadamente, o futuro afogado, após uma reflexão mais ampla, deverá sentir-se feliz se prolongar sua vida, nos turbilhões do abismo, pela metade do tempo de uma respiração ordinária, e isso calculando-se com folga. Ser-lhe-á, pois, impossível zombar da morte, seu desejo supremo. O navio em perigo dispara os tiros de canhão do alarme; mas soçobra com lentidão... com majestade. Está errado. Não dá mais tiros de canhão, não soçobra. A casca de noz foi completamente tragada. (...) Seguia, com uma atitude triunfante, todas as peripécias desse drama, desde o instante em que o barco lançou suas âncoras, até o momento em que submergiu, vestimenta fatal que arrastou às entranhas do mar aqueles que dela se haviam revestido, como de um manto. Mas aproximava-se o instante em que iria, eu mesmo, intervir como ator nessas cenas da natureza transtornada. Quando o lugar, onde o veleiro havia sustentado o combate, mostrou claramente que esse iria passar o resto dos seus dias no porão do mar, então aqueles que haviam sido levados pelas ondas reapareceram parcialmente à superfície. Seguravam-se abraçados, dois a dois, três a três; era o modo de não salvarem suas vidas; pois seus movimentos ficavam embaraçados, e afundavam como jarras furadas... O que é esta esquadra de monstros marinhos que fende as ondas com rapidez? São seis; suas nadadeiras são vigorosas, e abrem caminho através das ondas revoltas. De todos esses seres humanos, que agitam os quatro membros nesse continente pouco firme, os tubarões logo fazem nada mais que um omelete sem ovos, e o repartem de acordo com a lei do mais forte. O sangue se mistura às águas, e as águas se misturam ao sangue. Seus olhos ferozes bastam para iluminar o cenário da carnificina... Mas o que será ainda esse tumulto das águas, lá longe, no horizonte? Dir-se-ia uma tromba d'água a aproximar-se. Que remadas! Já vejo do que se trata. Uma enorme fêmea de tubarão vem partilhar o patê de fígado de ganso, e tomar o caldo frio. Está furiosa; pois chega esfaimada. Inicia-se um combate entre ela e os tubarões, para disputar os poucos membros palpitantes que flutuam ali e acolá, sem nada dizer, à superfície do creme vermelho. À direita, à esquerda, desfere dentadas que provocam feridas mortais. Mas três tubarões sobreviventes ainda a cercam, e é obrigada a virar-se em todas as direções, para esquivar-se das suas manobras. Com uma emoção crescente, desconhecida até então, o espectador, postado à margem, acompanha essa batalha naval de um novo gênero. Tem os olhos fixos nessa corajosa fêmea de tubarão, com dentes tão fortes. Não hesita mais, coloca seu fuzil ao ombro e, com sua habilidade costumeira, acerta a segunda bala no ouvido de um dos tubarões, no momento em que este se mostrava sobre as ondas. Restam mais dois tubarões que exibem uma fúria maior ainda. Do alto do rochedo, o homem da saliva salobra se atira ao mar, e nada rumo ao tapete agradavelmente colorido, segurando em sua mão esse facão de aço que nunca o abandona. Agora, cada tubarão tem um contendor pela frente. Avança sobre seu adversário fatigado, e, sem pressa, enterra em seu ventre a afiada lâmina. A fortaleza móvel se livra facilmente do último adversário... Encontram-se frente a frente, o nadador e a fêmea de tubarão, salva por ele. Olharam-se nos olhos, por alguns minutos; e ambos se espantaram por encontrar tamanha ferocidade no olhar do outro. Dão voltas nadando, não se perdem de vista, e se dizem: 'Enganei-me até hoje; aí está alguém que é mais malvado'. Então, de comum acordo, entre duas águas, deslizaram um para o outro, com uma admiração mútua, a fêmea do tubarão afastando as águas com suas nadadeiras, Maldoror batendo a onda com seus braços; e retiveram seu fôlego, em uma veneração profunda, cada qual desejoso de contemplar, pela primeira vez, seu retrato vivo. Chegados a três metros de distância, sem qualquer esforço, caíram bruscamente um contra o outro, como dois ímãs, e se abraçaram com dignidade e reconhecimento, em um amplexo tão terno como o de um irmão ou de uma irmã. Os desejos carnais seguiram de perto essa demonstração de amizade. Duas coxas nervosas se colaram estreitamente à pele viscosa do monstro, como duas sanguessugas; e, os braços e as nadadeiras entrelaçados ao redor do corpo do objeto amado, rodeando-o com amor, enquanto suas gargantas e seus peitos logo formavam coisa alguma, a não ser uma massa glauca, com exalações de sargaços; à luz dos relâmpagos; tendo por leito de himeneu a vaga espumosa, transportados por uma corrente submaria como em um berço, rolando sobre si mesmos, rumo às profundezas desconhecidas do abismo, juntaram-se em uma cópula longa, casta e horrorosa!... Finalmente, acabava de encontrar alguém semelhante a mim!... De agora em diante, não estava mais só na vida!... Ela tinha as mesmas ideias que eu!... Estava diante do meu primeiro amor!
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domingo, 2 de agosto de 2009
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